《“Hospital Não É Caridade”… Até Uma Menina Desmaiar》Parte 2

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As portas do corredor de emergência se fecharam diante de Arthur.

Do outro lado, Sofia desapareceu cercada por médicos e enfermeiros.

Arthur continuou parado por alguns segundos, olhando para o vidro, como se ainda pudesse enxergar a menina através dele.

Helena voltou lentamente para o balcão.

Tentou retomar o atendimento.

Tentou agir como se nada tivesse acontecido.

Mas ninguém na recepção conseguia mais fingir normalidade.

O silêncio daquele salão agora tinha peso.

Alguns pacientes olhavam para Helena.

Outros olhavam para Arthur.

E todos pareciam pensar na mesma coisa.

Uma criança tinha entrado ali pedindo ajuda.

E ninguém sabia ainda se ela sairia viva.

Dentro da emergência, Rafael falava rápido.

"Pressão?"

"Noventa por sessenta."

"Temperatura?"

"Trinta e nove."

"Ela está com febre alta."

"Vamos colher sangue agora."

Uma enfermeira ajustou o acesso no braço pequeno de Sofia.

A menina abriu os olhos por alguns segundos.

"Mãe..."

Rafael se aproximou.

"Sua mãe está vindo, Sofia."

"Eu quero ela."

"Eu sei."

Sofia apertou os olhos quando outra onda de dor atravessou sua barriga.

Rafael tocou seu ombro.

"Respira devagar."

Ela chorou.

"Está doendo."

"Eu sei, pequena."

Rafael olhou para a enfermeira.

"Precisamos do ultrassom imediatamente."

A mulher hesitou.

"Doutor, ela ainda está sem responsável legal cadastrado."

Rafael virou o rosto.

"Então cadastrem provisoriamente."

"Financeiro não liberou."

A expressão dele endureceu.

"Ela está com suspeita de abdômen agudo."

"Eu sei."

"Então por que ainda estamos discutindo isso?"

A enfermeira abaixou a voz.

"É ordem do sistema."

Rafael respirou fundo.

"Eu não trato sistema. Eu trato paciente."

Na recepção, Arthur já tinha pegado o celular.

"Qual é o nome da mãe dela?"

Helena respondeu sem vontade.

"Mariana Oliveira."

"Tem telefone?"

"Senhor, essas informações são internas."

Arthur se aproximou do balcão.

"Uma menina de oito anos desmaiou aqui sem a mãe. Você acha mesmo que esse é o momento para brincar de burocracia?"

Helena estreitou os olhos.

"Eu já disse que ela está sendo atendida."

"E eu estou perguntando onde está a mãe."

Nesse instante, o telefone da recepção tocou.

Helena atendeu.

"Pronto-socorro."

Do outro lado, alguém falava tão rápido que mal dava para entender.

Helena olhou para a tela.

"Sim. Sofia Oliveira."

Arthur imediatamente prestou atenção.

Helena fez uma pausa.

Depois disse:

"Pode vir para cá."

Ela desligou.

"A mãe está chegando."

Arthur soltou o ar.

"Quanto tempo?"

"Disse que está perto."

Menos de dez minutos depois, as portas automáticas se abriram novamente.

Uma mulher entrou correndo.

Ela usava uma camisa verde de supermercado, calça preta e um crachá preso torto ao peito.

O cabelo estava preso de qualquer jeito.

Um dos sapatos quase saiu do pé quando ela atravessou a recepção.

Era Mariana Oliveira.

Ela estava ofegante.

O rosto completamente desesperado.

"Cadê minha filha?!"

Ninguém respondeu de imediato.

Mariana olhou para todos os lados.

"Sofia!"

Ela correu até o balcão.

"Minha filha entrou aqui! O nome dela é Sofia Oliveira! Oito anos!"

Helena levantou os olhos.

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"Você é a mãe?"

"Sou!"

Mariana bateu a mão no balcão.

"Cadê ela?!"

"Está na emergência."

Mariana perdeu a cor.

"Emergência?"

"Ela desmaiou."

As pernas de Mariana quase falharam.

"O quê?"

Arthur deu um passo na direção dela.

"Ela está sendo atendida agora."

Mariana virou o rosto.

"Quem é o senhor?"

"Meu nome é Arthur."

"Você estava com ela?"

"Eu estava na recepção quando ela chegou."

Mariana levou as mãos à boca.

"Meu Deus."

Ela começou a chorar.

"Eu falei para ela esperar a dona Célia. Eu falei que ia sair mais cedo."

Arthur não disse nada.

Mariana parecia lutar contra a própria culpa.

"Meu gerente não deixou eu sair."

Ela enxugou as lágrimas com as costas da mão.

"Ela me ligou dizendo que estava com dor. Eu falei que estava indo."

A voz dela quebrou.

"Ela veio sozinha?"

Arthur assentiu.

Mariana fechou os olhos.

"Meu Deus..."

Helena colocou alguns papéis sobre o balcão.

"Senhora Mariana, preciso que preencha esses dados."

Mariana olhou para ela como se não tivesse entendido.

"O quê?"

"Cadastro."

"Minha filha está lá dentro."

"Sim, mas precisamos regularizar a internação."

Mariana pegou a caneta com mãos trêmulas.

"Eu faço qualquer coisa. Só me diz se ela está bem."

"Quem vai informar é o médico."

Mariana preencheu nome.

CPF.

Endereço.

Telefone.

Quando terminou, Helena puxou outro documento.

"Agora precisamos da forma de pagamento."

Mariana parou.

"Pagamento?"

"Seu plano está inativo."

"Eu sei."

"Então o atendimento será particular."

Mariana engoliu em seco.

"Quanto?"

Helena mostrou o valor da entrada para exames e observação.

Mariana ficou imóvel.

Leu uma vez.

Depois leu de novo.

"Isso é só para hoje?"

"É uma estimativa inicial."

Mariana olhou para o número.

Seus dedos começaram a tremer.

"Eu não tenho isso."

Helena permaneceu séria.

"Precisamos de uma garantia."

"Minha filha está lá dentro."

"Senhora, eu entendo."

"Não, você não entende."

Mariana apontou para o corredor.

"Minha filha tem oito anos!"

Helena empurrou o papel de volta.

"Eu não faço as regras."

Mariana aproximou-se.

"Façam o exame."

Sua voz saiu mais baixa.

Quase uma súplica.

"Eu pago depois. Eu trabalho. Eu pago cada centavo."

Helena cruzou os braços.

"Todo mundo diz isso."

A frase atravessou Mariana como uma bofetada.

Ela ficou parada.

Arthur viu o rosto dela mudar.

Não era apenas medo.

Era humilhação.

Mariana abriu a bolsa depressa.

Pegou uma carteira velha.

Tirou um cartão.

"Passa esse."

Helena passou.

A máquina apitou.

"Não autorizado."

Mariana respirou fundo.

"De novo."

"Não vai mudar."

"Passa de novo."

Helena passou.

Recusado.

Mariana puxou outro cartão.

"Esse."

Outra tentativa.

Outro som seco.

"Não autorizado."

"Tem como dividir?"

"Se houver limite."

"Quanto tem disponível?"

"Não consigo ver isso daqui."

Mariana abriu o aplicativo do banco.

A conexão demorou.

Ela apertava a tela com tanta força que as unhas ficaram brancas.

Quando finalmente conseguiu abrir, seu rosto desabou.

Não havia dinheiro suficiente.

Nem perto.

"Eu recebo sexta-feira."

Helena não respondeu.

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"Hoje é terça."

Mariana tentou sorrir de nervoso.

"Eu consigo um adiantamento."

Silêncio.

"Meu gerente pode descontar."

Nada.

"Eu tenho uma moto."

Arthur desviou o olhar.

Mariana começou a procurar dentro da bolsa.

Notas amassadas.

Moedas.

Um vale-alimentação.

Um recibo.

Ela colocou tudo sobre o balcão.

"Eu tenho isso agora."

Helena olhou para o dinheiro.

Depois olhou para Mariana.

"Isso não cobre nem os exames."

Mariana congelou.

As pessoas ao redor observavam.

Um homem baixou a cabeça.

Uma mulher abraçou a própria filha.

Mariana percebeu os olhares.

E aquilo pareceu doer quase tanto quanto o medo.

Ela começou a recolher as moedas com pressa.

Uma caiu no chão.

Depois outra.

Ela se abaixou.

Arthur foi mais rápido.

Pegou a moeda antes dela.

Mariana levantou o rosto.

Os olhos estavam cheios de lágrimas.

"Desculpa."

Arthur franziu a testa.

"Por que você está pedindo desculpa?"

"Por isso."

Ela apontou para o dinheiro.

"Por não ter."

Arthur ficou em silêncio por um segundo.

Depois colocou a moeda sobre o balcão.

Tirou a carteira.

Pegou um cartão.

E colocou diante de Helena.

"Quanto?"

Mariana imediatamente balançou a cabeça.

"Não."

Arthur nem olhou para ela.

"Quanto precisa pagar para liberarem o exame?"

Helena respondeu o valor.

Arthur estendeu o cartão.

"Passa."

Mariana segurou o braço dele.

"Não, senhor."

Arthur virou o rosto.

"Não precisa."

"Precisa, sim."

"Eu não tenho como devolver."

"Eu não pedi para devolver."

Mariana ficou sem reação.

"Senhor, eu nem conheço o senhor."

Arthur olhou diretamente para ela.

"Sua filha também não me conhece."

Mariana ficou em silêncio.

"Mesmo assim, ela pediu ajuda."

Arthur voltou a olhar para Helena.

"Passa o cartão."

Helena fez a cobrança.

A máquina processou.

Aprovado.

Mariana levou a mão à boca.

Começou a chorar de verdade.

"Obrigada."

Arthur guardou o cartão.

"Guarda o agradecimento para quando sua filha sair daqui."

Antes que Mariana pudesse responder, as portas se abriram.

Rafael apareceu.

"Mariana Oliveira?"

Ela correu.

"Sou eu."

"Eu sou o doutor Rafael."

"Minha filha está bem?"

Rafael respirou fundo.

"Conseguimos estabilizar ela por enquanto."

Mariana quase caiu de alívio.

"Graças a Deus."

"Mas eu preciso conversar com você."

O tom dele fez o sorriso desaparecer.

"O que aconteceu?"

Rafael mostrou o resultado do ultrassom.

"Ela está com apendicite aguda."

Mariana não entendeu completamente.

"É grave?"

"Está avançada."

"Ela vai precisar operar?"

"Sim."

"Agora?"

"Agora."

Mariana levou as mãos ao rosto.

"Meu Deus."

Rafael continuou.

"O apêndice está muito inflamado e há sinais de que pode perfurar."

Mariana começou a chorar novamente.

"Ela vai ficar bem?"

"Estamos fazendo tudo para isso."

Arthur permaneceu alguns passos atrás.

Rafael então olhou para a recepção.

Seus olhos encontraram Helena.

A expressão dele mudou.

Ele caminhou até ela.

"Quando Sofia entrou aqui, ela já estava com dor intensa?"

Helena hesitou.

"Ela disse que estava."

"Ela estava pálida?"

"Sim."

"Suando?"

Helena não respondeu.

Rafael deu mais um passo.

"Ela estava curvada de dor?"

"Rafael..."

"Responde."

"Sim."

Mariana ouviu.

Virou lentamente o rosto.

Rafael continuou olhando para Helena.

"Então ela já apresentava sinais claros de emergência."

Helena tentou se defender.

"Ela estava sem responsável."

"Isso não muda avaliação clínica."

"Eu segui o procedimento."

"Não."

Rafael respondeu com firmeza.

"Você escolheu esperar."

O salão ficou em silêncio outra vez.

Mariana se aproximou.

"O que ele está dizendo?"

Ninguém respondeu.

Ela olhou para Arthur.

Depois para Helena.

"Minha filha pediu ajuda?"

Arthur fechou os olhos por um instante.

"Sim."

"E vocês fizeram ela esperar?"

Helena apertou os lábios.

Rafael olhou diretamente para ela.

"Se ela tivesse chegado vinte minutos mais tarde..."

Ele parou.

Mariana ficou imóvel.

O rosto dela perdeu toda a cor.

Rafael terminou:

"Talvez não estivéssemos mais falando de cirurgia."

Mariana virou lentamente a cabeça.

Olhou para Helena.

Dessa vez, não havia vergonha em seus olhos.

Nem medo.

Havia outra coisa.

Uma dor profunda.

E uma pergunta que Helena já sabia que teria de responder.

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