Teresa fechou a porta e voltou sem correr. Ajoelhou-se diante do pé de Massimo, tocou o tendão e pediu que repetisse.
Antes de chamar a equipe, ela comparou o movimento com os registros da primeira semana. Na época, Massimo mal conseguia ativar o quadril depois das injeções. Agora o músculo respondia sem compensação dos ombros.
— Quero filmar — disse Teresa.
— Meu pé tem direito de imagem.
— Seu pé assinou o contrato quando mexeu.
Massimo posicionou o telefone, repetiu o movimento e errou. Na segunda tentativa, o calcanhar deslizou. Na terceira, levantou do piso por um segundo.
Dario entrou após ouvir a chamada. Ficou parado na porta, os olhos fixos no sapato.
— Diga alguma coisa — Massimo ordenou.
— A senhora Teresa vai mandar fazer de novo.
— Homem inteligente.
O neurologista chegou com a fisioterapeuta oficial. Teresa entregou a gravação e afastou-se para que repetissem testes independentes. Massimo procurava o rosto dela depois de cada comando.
Quando confirmaram avanço neurológico, ele estendeu a mão. Teresa aproximou-se.
— Isto muda o prognóstico — disse o médico.
Dario saiu para avisar Camila e preparar novamente as barras.
Massimo apertou os dedos dela.
— Muda o cronograma. O prognóstico ela já mudou.
Os dedos contraíram. O calcanhar avançou três centímetros.
— Outra vez.
— Você acabou de mandar parar.
— Mudei de ideia.
— Finalmente uma qualidade minha pegou em você.
Teresa ergueu os olhos.
— Outra vez.
O movimento reapareceu. Ela registrou, mediu e ligou para a equipe. Massimo assistia ao próprio pé como se fosse uma arma que voltara a funcionar.
Os meses seguintes reorganizaram a casa. Dario assumiu a segurança, afastou funcionários ligados a Domênico e instalou registros externos. Camila acompanhou o processo. Massimo delegou negócios legais a um conselho auditado e fechou empresas que não sobreviveriam à luz.
— Está desmontando o império? — Teresa perguntou.
— Estou descobrindo qual parte fica em pé sem sangue.
— E a outra?
— Entrego aos promotores antes que usem contra você.
Teresa não agradeceu. Corrigiu uma cláusula de proteção de testemunhas e devolveu a pasta.
A reabilitação avançou de barras para andador, de andador para duas bengalas. Massimo odiava cada equipamento e dava nome ofensivo a todos. Teresa escrevia os apelidos no prontuário informal.
Na primeira caminhada diante da família, ele atravessou seis metros e caiu no sétimo. Domênico assistia por videoconferência da audiência, projetado numa tela que Camila esquecera ligada.
Massimo viu o rosto do primo e tentou levantar sem ajuda. O joelho falhou.
Teresa desligou a tela.
— Ele não participa desta sessão.
— Quero que veja.
— Você ainda anda para humilhar alguém. Quando andar por você, chegamos ao jardim.
Massimo jogou a bengala no chão. O objeto bateu longe.
— Saia.
Teresa recolheu a bengala e a colocou ao alcance.
— Até amanhã.
Ele não pediu que ficasse. Às três da madrugada, enviou uma mensagem: "Andei até a porta sozinho."
Teresa respondeu: "Imprudente."
Outra mensagem chegou: "Sete passos."
Ela digitou: "Filma da próxima vez."
Pela manhã, Massimo mostrou o vídeo. A postura estava ruim, o joelho travado, mas ele havia chegado.
— O que ganhou? — Teresa perguntou.
— A porta.
— Melhor que Domênico.
Ele segurou a cintura dela.
— E você.
— Eu já estava aqui.
— Continua.
O julgamento começou no quinto mês. Teresa depôs sobre doses e prontuários; a defesa tentou apresentá-la como funcionária interessada no dinheiro e amante que manipulava um homem vulnerável.
— Recebeu R$ 250 mil? — perguntou o advogado.
— Recebi o valor contratado por noventa dias de trabalho.
— Depois iniciou relação íntima com o paciente.
— Depois de encerrar o contrato.
— Ele pagou sua universidade.
— Meu trabalho pagou.
Massimo assistiu da primeira fila usando uma bengala. Quando o advogado perguntou se Teresa permanecera pela fortuna, ele tentou levantar. Camila segurou a manga dele.
— Deixa ela responder.
Teresa aproximou-se do microfone.
— Permaneci depois do pagamento, quando a opção mais segura era ir embora. Os registros mostram a data. Minha vida pessoal não altera a concentração da ampola, o áudio ou a linha de freio.
O juiz mandou o advogado avançar. Domênico perdeu o sorriso no banco dos réus.
Foi condenado por tentativa de homicídio, fraude, coação e associação criminosa. Reyes firmou acordo de colaboração; os executores receberam penas menores após confessar.
No mesmo mês, a universidade aprovou a permanência de Teresa no doutorado. Ela apresentou um estudo de caso anonimizado sobre interferência medicamentosa na recuperação motora.
Seis meses depois da chegada à mansão, Dario abriu as portas do jardim. Funcionários se alinharam perto das janelas. Camila segurava o celular, pronta para filmar.
Massimo esperava na entrada. Sem cadeira. Sem andador. Sem bengala.
Teresa ajustou o cinto de segurança ao redor da cintura dele e deixou as mãos próximas.
— Não toca a menos que eu peça — disse.
— Você me paga para evitar queda, não para impressionar a casa.
— O contrato acabou.
— Então cobro caro por queda voluntária.
Ele olhou para o caminho de pedra que atravessara apoiado nela durante a fuga. A marca de bala permanecia na coluna da varanda.
— Quantos metros? — perguntou.
— Até onde sua forma continuar boa.
Massimo deu o primeiro passo. Calcanhar, planta, ponta. O segundo veio com tremor. No quarto, a mão dele procurou apoio no ar e encontrou apenas espaço.
Teresa caminhava ao lado, sem tocar.
No oitavo passo, o joelho esquerdo dobrou. Massimo corrigiu antes da queda. No décimo segundo, atravessou o ponto onde as lanternas haviam encontrado os dois.
Dario bateu palmas uma vez. Os outros acompanharam. Massimo manteve os olhos em Teresa.
— Não olha para mim — ela disse. — Olha o caminho.
— Você é o caminho.
— Frase bonita não corrige postura.
Ele riu e avançou. Vinte passos. Trinta. A respiração ficou pesada, porém o tronco permaneceu alinhado.
No fim do jardim, Massimo parou diante de Teresa. Ela verificou se os joelhos sustentavam e só então relaxou as mãos.
— Conseguiu.
— Nós conseguimos.
— Seus músculos. Seu trabalho.
— Sua voz dizendo "de novo" até eu odiar e precisar dela.
Ele estendeu a mão. Teresa olhou para a palma aberta que antes dava ordens, oferecia dinheiro e segurava barras.
— O que está pedindo? — perguntou.
— O resto. Dias ruins, sessões, seu doutorado, minhas audiências. Uma casa que não precise de passagem secreta.
Teresa colocou a mão na dele.
— Sem contrato?
— Sem prazo.
— Sem mandar na minha vida.
— Vou falhar nessa parte algumas vezes.
— Eu mando repetir.
Massimo puxou-a para perto e beijou-a sob o olhar da casa inteira. Quando se afastou, as pernas ainda tremiam. Teresa manteve uma mão em sua cintura.
— Cansou?
— Muito.
— Cadeira?
— Depois.
Ele deu mais um passo, parou diante dela e ofereceu a mão novamente.
Antes da cerimônia no jardim, Massimo havia treinado aquela distância em segredo com a equipe oficial. Caiu duas vezes, rasgou a manga e proibiu Dario de contar. Na terceira tentativa, recusou-se a começar enquanto Teresa não fosse chamada.
— Queria surpreender você — admitiu.
— Surpresa é inimiga de protocolo.
— Dario disse a mesma coisa.
Teresa examinou a manga rasgada e encontrou apenas um arranhão. Massimo esperou, de pé, até que ela terminasse. O homem que antes escondia dormência agora relatava cada dor antes de dar o próximo passo.
No caminho de volta à casa, ele aceitou a cadeira quando o joelho perdeu estabilidade. Teresa caminhou ao lado, com a mão sobre o ombro dele. Andar havia deixado de ser prova de poder. Sentar também deixara de ser derrota.
— Desta vez, Teresa, eu fico de pé se você ficar comigo.