Teresa acompanhou a ambulância até o Hospital Santa Helena. Entregou aos médicos horários, doses, esforço físico e queda de consciência. Depois ficou fora da sala, com terra nos tênis e sangue de Dario na manga.
Camila chegou às quatro da manhã. Trazia o notebook, duas garrafas de água e a notícia de que Domênico fora autuado por tentativa de homicídio, associação criminosa e fraude médica.
— Dario gravou tudo — disse.
— O telefone de Massimo também pegou parte.
— Melhor. Duas fontes.
Teresa olhou a porta fechada.
— Ele sobrecarregou a coluna.
— Você tirou um homem paraplégico por quarenta e dois degraus durante um ataque.
— Eu deixei que levantasse diante de Domênico.
Camila empurrou uma garrafa para ela.
— Tente controlar menos o que já aconteceu.
— Conselho estranho vindo de advogada.
O cirurgião saiu ao amanhecer. As fixações estavam intactas. Massimo sofrera exaustão, desidratação e queda de pressão. Ficaria internado por observação.
— A recuperação motora mostrou resposta acima do esperado — disse o médico. — O esforço foi imprudente, porém revela potencial.
Teresa não comentou a palavra "imprudente". Entrou no quarto depois da autorização.
Massimo abriu os olhos.
— Domênico?
— Preso.
— Dario?
— Levou pontos e já está irritando enfermeiro.
— Você?
Teresa mostrou o cotovelo ralado.
— Orgulho ferido.
Ele procurou a mão dela sobre o lençol.
— Eu desmaiei.
— Com estilo péssimo.
— Andei.
— Três passos e uma queda.
— Você contou.
— Conto tudo.
Uma fisioterapeuta do hospital entrou com crachá de especialista e currículo que a família solicitara. Explicou protocolo, descanso e nova avaliação.
Teresa recolheu a própria bolsa clínica.
Massimo acompanhou o movimento.
— Aonde vai?
— Você está internado e tem equipe. Meu contrato termina em nove dias.
— O dinheiro foi transferido.
— Vi a mensagem.
— Seu doutorado está pago.
— Está.
Ele soltou a mão dela.
— Então pode voltar para São Paulo.
Teresa fechou a bolsa.
— Posso.
— É isso que quer?
Ela reconheceu a pergunta que fizera no escritório. Massimo olhava para a janela, onde a primeira chuva fria do inverno riscava o vidro.
— Ainda precisa de terapia — Teresa respondeu.
— A profissional nova tem mais experiência.
— Experiência não conhece suas manias.
— Isso não é resposta.
Teresa sentou novamente.
— Fiquei pelo paciente que alguém estava envenenando.
— Domênico está preso.
— O processo continua.
— Camila cuida.
Ele virou o rosto. A voz saiu baixa.
— Fique por mim.
Teresa apertou a alça da bolsa.
— Sem salário, contrato ou dívida?
— Fique porque estou pedindo.
Era a primeira vez que Massimo Pascale formulava um desejo sem embrulhá-lo em ordem. A mão dele permaneceu aberta sobre o lençol.
Teresa colocou a própria mão ali.
— Eu já sabia a resposta antes de você perguntar.
Massimo puxou-a com cuidado. Teresa apoiou o joelho na borda da cama e beijou-o. Sem tiro, degrau ou porta abrindo. A mão dele deslizou pela nuca; ela segurou a barba curta entre os dedos.
Quando se afastaram, a fisioterapeuta do hospital ainda esperava junto à porta, tentando fingir que examinava a prancheta.
— Dou cinco minutos — disse.
— Dez — Massimo respondeu.
Teresa apertou a mão dele.
— Cinco.
Ele olhou para a profissional.
— Ela manda.
O motorista desaparecido foi localizado duas semanas depois. Depôs por vídeo da Flórida e admitiu que Domênico o pagara para abandonar o carro após um mecânico cortar parcialmente a linha de freio. O plano previa ferimento e incapacidade, não morte imediata; o desvio na estrada quase ultrapassara o cálculo.
Dr. Reyes entregou o token, e a segunda enfermeira confirmou que recebeu ameaça contra o filho. Os registros formaram uma linha que ligava medicação, certificado, pagamentos e sucessão.
Teresa voltou ao doutorado. Passava manhãs na universidade, tardes na mansão e noites corrigindo artigos ao lado de Massimo.
Um mês depois, ela tentou sair do quarto após uma discussão sobre descanso.
— Chega por hoje — disse.
— Mais uma repetição.
— Seu quadril perdeu alinhamento.
— Teresa.
— Massimo.
Ela chegou à porta. Atrás, ouviu tecido roçar.
Massimo estava sentado na maca, olhando para a perna direita.
O pé havia se movido sozinho até o chão.
O retorno à mansão ocorreu sob ordem médica. Teresa redesenhou o cronograma para conciliar aulas e terapia. Massimo reclamou de todos os horários e cumpriu cada um.
Nas semanas seguintes, o pedido para ela ficar ganhou consequências práticas. Teresa manteve o quarto separado, pagou despesas pessoais e recusou o carro exclusivo. Massimo aprendeu a perguntar antes de enviar segurança e a ouvir "não" sem transformar a resposta em negociação.
Uma noite, ele apareceu na cozinha usando o andador. Teresa corrigia um capítulo da tese.
— Preciso de ajuda — disse.
Ela fechou o computador. Era a primeira vez que ele usava a frase sem sarcasmo.
— Com o quê?
— Banho.
No banheiro, Massimo explicou que os ombros doíam. Teresa realizou a transferência, cobriu as pernas e lavou suas costas. O gesto repetia o trabalho do primeiro dia, agora sem confronto.
— Está me olhando — ele disse.
— Avaliando pele.
— Mentirosa.
Teresa sorriu e beijou seu ombro antes de entregar a esponja.
— O resto você consegue.
Ele segurou o pulso dela, de leve, na mesma posição da primeira manhã. Desta vez, abriu a mão imediatamente.
— Obrigado.
Teresa fechou a porta pelo lado de fora e permaneceu perto, como fizera no primeiro banho.
A volta de Teresa ao doutorado provocou fofocas. Colegas reconheceram o sobrenome do paciente e perguntaram se a pesquisa seria comprada. Ela apresentou comprovantes, contrato e autorização ética antes que a coordenação solicitasse.
Massimo apareceu no campus para a reunião, usando cadeira e sem seguranças dentro da sala. A coordenadora perguntou se ele financiaria o projeto.
— Não — respondeu. — Ela não aceita meu dinheiro quando pode vencer sozinha.
Teresa olhou para ele.
— Às vezes aceita café.
— Café ruim da máquina. Tenho testemunhas.
A matrícula foi mantida. No estacionamento, Massimo entregou uma chave a Teresa.
— O que é?
— Sala de estudo na mansão. Só sua. Eu bato antes de entrar.
— Isso é presente caro?
— É uma porta com fechadura.
Teresa aceitou. Naquela sala, escreveu metade da tese enquanto Massimo treinava passos no corredor. Ele batia duas vezes quando precisava de pausa; ela aparecia com cronômetro e água.
Os dois aprenderam uma rotina que não dependia de crise. O perigo diminuía, e a escolha de permanecer precisava sobreviver aos dias comuns.
No hospital, Teresa também recebeu ordem formal para se afastar do atendimento durante a investigação. O conselho alegou conflito após o beijo visto por Dario.
Ela assinou a suspensão, entregou o prontuário à nova fisioterapeuta e ficou do lado de fora durante a primeira sessão. Massimo recusou começar até Teresa entrar apenas como visitante.
— Não uso relação para interferir no tratamento — ela disse.
— Então fica na cadeira e não fala.
Teresa permaneceu em silêncio por quatro minutos. Quando ele compensou o quadril, levantou uma sobrancelha. Massimo corrigiu sozinho.
Após a alta, a equipe manteve responsabilidade clínica. Teresa ajudava fora do horário, como parceira, e registrava cada limite. O pedido de Massimo para que ficasse precisava caber numa vida em que ela continuava profissional, aluna e dona das próprias decisões.
Quando o pé de Massimo voltou a se mover, a equipe repetiu exames de imagem e eletromiografia. Os resultados confirmaram recuperação de vias nervosas preservadas. Teresa assistiu à avaliação do outro lado do vidro, proibida de intervir.
Massimo executou cada comando e procurou o rosto dela depois de cada resposta. A médica perguntou se ele sentia o toque na planta do pé.
— Sinto.
Teresa ergueu dois dedos atrás do vidro. Ele respondeu com o mesmo gesto.
A recuperação não avançou em linha reta. Houve dias de espasmo, febre e dor. Massimo voltou à cadeira após cada crise e retomou as barras na manhã seguinte. Teresa aprendeu a comemorar centímetros e a não transformar regressão em derrota.
O primeiro passo sem apoio aconteceu numa terça-feira vazia. Massimo largou a barra antes da ordem e alcançou Teresa do outro lado. Ela o segurou apenas depois que os dois pés pararam.
— Um — disse.
— Foi perfeito.
— Foi um.
— Então de novo.
Teresa voltou ao doutorado dois dias depois do pedido de Massimo. Entrou na sala com olheiras, o cotovelo enfaixado e a tese atrasada. A orientadora fechou a porta e pediu a verdade que pudesse constar num relatório.
Teresa entregou boletim, contrato e declaração do hospital. Não mencionou o beijo. A orientadora leu tudo e estendeu o prazo por trinta dias.
— Você quer continuar o curso?
Teresa abriu o notebook.
— Quero terminar o que comecei.
À tarde, mostrou a Massimo o novo cronograma. Ele tentou oferecer equipe, motorista e secretário. Teresa aceitou apenas transporte nos dias em que a segurança exigisse.
— Você dificulta ajuda — ele disse.
— Eu escolho a ajuda.
Massimo assentiu e anotou os horários das aulas. Na semana seguinte, esperou no carro sem entrar no campus, respeitando o limite combinado. Teresa encontrou café no suporte e nenhum envelope.