Massimo empurrou Teresa para trás da coluna de pedra. O movimento dobrou suas pernas; ele caiu sobre um joelho e manteve a mão no corrimão.
— Fica atrás de mim.
— Você está ajoelhado.
— Continua atrás.
Os homens avançaram. Um ergueu a arma. Antes do disparo, luzes vermelhas e azuis cobriram o muro.
— Polícia! Larguem as armas!
O primeiro invasor correu para as árvores. Outro saltou a cerca lateral. O terceiro hesitou, olhou para Massimo e foi derrubado por Dario, que apareceu sangrando perto da fonte.
Teresa correu até ele.
— Onde foi atingido?
— Raspão. Braço.
— Pressiona aqui.
Dario entregou o telefone a Massimo. A tela mostrava uma gravação de Domênico no corredor, ordenando a busca e a morte de Teresa.
— Fiquei perto da porta — disse. — O áudio saiu limpo.
Massimo segurou o aparelho e tentou ficar de pé. Teresa entrou sob o braço dele.
— Cadeira chegando.
— Quero ver meu primo.
— Vê sentado.
— Em pé.
— Não transforma vingança em nova cirurgia.
Ele aceitou a cadeira de transporte trazida por um policial. Teresa amarrou a faixa e seguiu ao lado.
Dentro da casa, Domênico falava com o delegado na sala destruída.
— Homens armados invadiram uma propriedade da família. Eu vim proteger meu primo.
— Entrou depois deles — Dario respondeu.
Domênico olhou o curativo no braço do segurança.
— Você devia estar no portão.
— O senhor mandou dois homens tirarem meu rádio.
— Acusação séria.
Massimo colocou o telefone sobre a mesa e reproduziu o áudio. A voz de Domênico encheu a sala: "Encontrem Massimo. Matem a mulher."
Os policiais se moveram ao mesmo tempo. Um recolheu o aparelho; outro pediu que Domênico virasse de costas.
— Gravação clandestina — ele disse. — Sem contexto.
Teresa mostrou a ampola lacrada e as fotografias dos prontuários.
— O contexto começa três meses atrás.
Domênico fixou os olhos nela.
— Uma fisioterapeuta endividada manipula um paciente vulnerável e invade registros privados. Bela história.
Massimo tirou as mãos dos apoios.
— Diga o nome dela de novo.
— Está defendendo a funcionária que dorme na sua casa?
— Teresa ficou quando você tentou enterrá-la comigo.
O delegado ordenou as algemas. Domênico deixou que prendessem um pulso e se virou para o primo.
— O conselho nunca vai seguir um homem que precisa de uma garota para sair do porão.
Massimo travou as rodas. Teresa percebeu tarde demais. Ele empurrou os braços, elevou o corpo e ficou de pé diante da cadeira.
As pernas tremiam. Dario deu um passo, mas Teresa ergueu a mão para que esperasse.
Massimo sustentou o olhar do primo.
— Veja com atenção.
Domênico perdeu o sorriso.
Massimo deu um passo. O joelho esquerdo cedeu; Teresa segurou sua cintura antes que tocasse o chão.
— Chega.
Ele tentou afastá-la.
— Estou bem.
— Sua pele está fria.
Massimo piscou. O braço perdeu força sobre os ombros dela.
Teresa o conduziu ao piso, protegeu a cabeça e pediu espaço. O pulso estava rápido, a respiração curta.
— Ambulância agora!
Domênico foi levado algemado enquanto paramédicos entravam. A maca passou por ele na porta; o primo inclinou-se o bastante para murmurar:
— Você nunca vai sair daquela cadeira.
Massimo tentou responder. Os olhos se fecharam antes que a voz viesse.
A polícia separou os depoimentos. Teresa passou duas horas descrevendo posições, horários e palavras exatas. Um investigador tentou sugerir que ela interpretara mal o áudio.
— Ele disse "matem a mulher" — respondeu. — Posso desenhar onde eu estava quando ouvi.
Camila interrompeu perguntas sobre a relação pessoal com Massimo. Dario entregou o original do telefone, e um perito criou cópia na frente de todos.
Domênico tentou sair por habeas corpus naquela manhã. O pedido caiu quando Lúcia identificou a clínica de fachada e Reyes confirmou o token entregue.
Massimo insistiu em acompanhar a coleta de provas. Teresa o manteve sentado, ofereceu água e mediu pressão entre um depoimento e outro.
— Pare de trabalhar — ele disse.
— Pare de tentar levantar para intimidar algemado.
— Funcionou.
— Desmaiou.
O delegado trouxe o laudo preliminar do carro e a ordem bancária ao motorista. Massimo leu a assinatura de Domênico e deixou o papel sobre a mesa.
— Ele planejou minha cadeira antes do acidente.
Teresa segurou o antebraço dele.
— Agora planeja sua recuperação.
Massimo virou a mão e entrelaçou os dedos nos dela. Diante de policiais, advogados e funcionários, não soltou.
Os paramédicos tentaram separar Teresa de Massimo. Ele recusou a maca até ela prometer entrar na ambulância. O delegado permitiu que o áudio fosse copiado durante o transporte.
No hospital, Domênico enviou advogados para impedir acesso aos prontuários. Camila apresentou o contrato clínico e a ordem policial antes que qualquer arquivo desaparecesse.
Teresa revisou com os médicos cada dose. O sedativo clandestino ainda aparecia em exames, explicando parte da queda de pressão após a fuga.
— Ele andou sob efeito residual — disse o neurologista.
— E quase pagou com a fixação.
O médico mostrou as imagens. Nenhum parafuso havia se deslocado, mas havia edema muscular e risco de regressão temporária.
Teresa voltou ao corredor e encontrou Dario com o braço suturado.
— Você salvou a gravação — ela disse.
— O senhor Pascale salvou minha família anos atrás.
— Dívida?
Dario olhou para a porta do quarto.
— Escolha.
A palavra acompanhou Teresa quando Massimo ofereceu o dinheiro e a saída. Pela primeira vez, os R$ 250 mil já não ocupavam a decisão.
Na delegacia, Domênico tentou inverter a história. Afirmou que contratara homens para resgatar Massimo de uma profissional que o mantinha sedado. O laboratório destruiu a versão: as digitais de um funcionário dele estavam nas ampolas, e Teresa havia reduzido as doses.
Celeste entregou registros da cozinha. Dario apresentou acessos do portão. Cada funcionário que antes usava "a palavra mais segura" começou a escolher nomes.
Massimo ouviu os depoimentos e não interrompeu. Quando Celeste contou que escondera o medo durante três meses, ele pediu desculpas diante do delegado.
— Eu transformei esta casa num lugar onde ninguém conseguia me avisar — disse.
Teresa apertou os dedos dele. A confissão faria parte do processo e de sua recuperação.
Depois que Massimo desmaiou, Teresa coordenou a imobilização sem permitir que membros da família interferissem. Domênico gritava sobre autoridade médica; Camila apresentou a prisão e o afastou da maca.
Na ambulância, Massimo recuperou a consciência por segundos.
— Você veio?
— Estou aqui.
— A gravação?
— Com a polícia, Camila e nuvem.
Ele apertou os dedos dela e voltou a fechar os olhos.
No hospital, Teresa entregou o caso e permaneceu fora da sala. Dario ligou para informar que todos os invasores haviam sido identificados. Dois eram funcionários de uma empresa financiada por Domênico; o terceiro negociava colaboração.
Camila trouxe também a notícia de que o conselho suspendera a votação de incapacidade. Massimo continuava presidente, mesmo inconsciente numa maca.
Após a prisão, Teresa voltou ao jardim com a perícia. Mostrou a porta da adega, os pontos onde Massimo caiu e as marcas da faixa no corrimão. Cada detalhe confirmou a rota vista nas câmeras externas.
Dario encontrou a cadeira bloqueando a sala blindada. Uma bala atravessara o encosto. Ele fotografou antes de mover.
— Se tivessem ficado ali... — começou.
Teresa tocou o buraco com a luva.
— Não ficaram.
O perito recuperou a gravação do telefone e comparou com o áudio de Dario. As duas trilhas tinham a mesma voz, os mesmos passos e o mesmo tiro ao fundo. Domênico já não podia alegar edição sem atacar duas fontes independentes.
Massimo assistiu à confirmação sentado na ambulância. Quando chamaram Teresa de testemunha principal, ele corrigiu:
— Ela é a razão de eu estar vivo.