Teresa fechou a porta baixa e empurrou a trava. O primeiro golpe veio do outro lado antes que ela terminasse.
— Desce — disse.
Massimo apoiou uma mão no corrimão e outra no ombro dela. A perna direita arrastava; a esquerda respondia em espasmos.
— Não puxa pelo braço — Teresa orientou. — Transfere peso e senta no próximo degrau.
— Vão levar uma hora.
— Se quebrar a coluna, levam você num saco.
Ele desceu. Teresa ficou abaixo, joelhos flexionados, faixa presa ao próprio antebraço. A cada degrau, Massimo soltava o ar junto ao ouvido dela.
No sexto, ele escorregou. Teresa travou as pernas e recebeu o corpo dele contra o peito. A parede arrancou pele de seu cotovelo.
— Peguei.
— Solta. Reposiciona.
— Para de dar aula.
— Você gosta quando mando.
Massimo riu uma vez, sem fôlego.
— Situação ruim para descobrir.
O barulho na porta ficou distante. Os invasores haviam encontrado a sala, mas ainda procuravam o mecanismo da passagem.
No décimo quinto degrau, Massimo tentou apoiar o pé direito. O joelho sustentou parte do peso e cedeu.
— De novo — Teresa disse.
— Agora?
— Seu corpo conhece urgência. Pé inteiro. Empurra.
Ele obedeceu. Subiu o quadril por um segundo, permitindo que Teresa ajustasse a posição.
— Isso foi força real — ela disse.
— Guarda a comemoração.
— Vou cobrar na sessão.
No vigésimo terceiro, a respiração de Massimo falhou. Teresa sentou ao lado dele, conferiu pulso e pupilas.
— Não pode parar — ele disse.
— Posso por sessenta segundos.
— Eles chegam.
— E encontram um homem consciente, não um desmaiado.
Ele encostou a cabeça na parede. Teresa limpou suor da têmpora com a manga.
— Você devia ter ido embora — Massimo murmurou.
— Já discutimos.
— Minha família transforma tudo em dívida.
— Eu não sou sua família.
Os olhos dele abriram.
— Isso deveria ajudar?
Teresa manteve dois dedos no pulso.
— Significa que escolhi estar aqui sem sobrenome, contrato ou ordem.
Massimo aproximou o rosto. A mão dele segurou a nuca dela com menos força que nas barras.
O estrondo da porta superior interrompeu. Vozes entraram na passagem.
— Acabou o minuto — Teresa disse.
Ela se levantou e puxou a faixa. Massimo apoiou-se nela, mais alto desta vez. Desceram os degraus restantes usando parede e corrimão.
A adega cheirava a madeira úmida. Garrafas antigas ocupavam nichos cobertos de pó. Teresa encontrou uma cadeira de transporte dobrada, mas a roda estava quebrada.
— Jardim fica atrás daquela porta — Massimo apontou. — Trinta metros.
— Plano novo. Você anda com apoio.
— Minhas pernas não sustentam.
— Sustentaram no degrau.
— Por um segundo.
— Colecionamos segundos.
Teresa passou o braço dele sobre os ombros e prendeu a faixa na cintura dos dois. Massimo colocou a bengala na mão livre.
O primeiro passo arrastou a ponta do sapato. O segundo dobrou o joelho. No terceiro, ele caiu contra uma prateleira e garrafas tilintaram.
— Não vou conseguir.
Teresa segurou o rosto dele.
— Olha para mim. Pé direito, bengala, esquerdo. Só isso.
— Eles chegam antes.
— Então vão ver você andando.
Massimo respirou pelo nariz e repetiu a sequência. Teresa contava junto ao ouvido. Pé. Bengala. Esquerdo.
O luar entrava por uma fresta na porta da adega. Atrás, lanternas apareceram no alto da escada.
— Mais quatro — Teresa disse.
Massimo avançou. O corpo inteiro tremia. No último metro, o joelho falhou e ele a prendeu contra a porta. Os rostos ficaram separados por um sopro.
— Ainda acha que sou rude? — perguntou.
— Mais que antes.
Ele beijou Teresa. Curto, urgente, a boca quente depois da pedra fria. Ela segurou a camisa dele e respondeu até uma voz gritar dentro da adega.
Teresa abriu a porta. Os dois caíram no jardim e rolaram sobre a grama molhada.
Sirene soou além dos muros.
Massimo tentou levantar usando a grade. Teresa apoiou a cintura dele.
— Senta.
— Só quando acabar.
Lanternas varreram as árvores. Três homens surgiram perto da entrada do jardim.
Um facho de luz parou no rosto dos dois.
— Achei eles — alguém gritou.
Na passagem, a lesão antiga lembrava cada movimento. Teresa verificava sensibilidade a cada seis degraus. Massimo mentiu duas vezes sobre dormência; ela percebeu pelo modo como ele arrastava o calcanhar.
— Se perder sensibilidade, fala.
— Se falar, você para.
— Se esconder, eu arrasto você de volta.
Ele confessou formigamento. Teresa ajustou a faixa e mudou o apoio, usando o próprio quadril como ponto de estabilidade.
As mãos de Massimo tremiam sobre os ombros dela. A proximidade deixou de ser constrangimento; virou mecanismo de sobrevivência.
Na adega, encontraram uma porta emperrada pela umidade. Teresa tentou a maçaneta, Massimo usou a bengala como alavanca e os dois empurraram juntos.
— No três — ela disse.
— Sei a contagem.
— Milagre clínico.
A madeira abriu com estalo. Ar frio entrou, junto com o som de sirenes ainda distantes.
Antes de sair, Massimo retirou do bolso um anel com selo Pascale e o colocou na mão dela.
— Se nos separarem, mostra a Dario. Ele obedece ao portador.
Teresa fechou os dedos ao redor do metal.
— Você transforma tudo em símbolo de poder.
— Hoje é só uma chave.
Ela devolveu o anel ao dedo dele.
— Então abre o jardim comigo.
Na adega, Teresa encontrou uma torneira antiga e molhou um pano para o rosto de Massimo. Ele apoiou as costas nas garrafas, tentando recuperar força.
— Se ficar aqui, nos alcançam — disse.
— Se sair sem conseguir sustentar, caímos no jardim.
— Você transforma fuga em consulta.
— E mantém o paciente vivo.
Ela testou quadríceps e sensibilidade. O lado esquerdo respondia melhor que no início do contrato. Teresa usou caixas vazias para criar apoio intermediário e treinou a sequência duas vezes antes de caminhar.
Cada tentativa arrancou suor e palavrões. Na terceira, Massimo percorreu quatro metros.
— Viu? — ela perguntou.
— Vi você prestes a quebrar a coluna.
— Minha coluna não é o foco.
— É para mim.
Massimo puxou-a pela faixa e verificou o cotovelo ferido. Rasgou parte da própria camisa para cobrir a pele.
— Está destruindo roupa cara — Teresa disse.
— Você está sangrando numa passagem da minha família.
O gesto levou mais tempo que o necessário. Teresa deixou que ele terminasse o nó. Depois apoiou o braço dele sobre os ombros e retomou a caminhada.
Quando a porta do jardim abriu, o beijo veio antes que ambos decidissem falar. As lanternas interromperam.
No meio da descida, Massimo perdeu a bengala. Ela caiu dez degraus e desapareceu no escuro. Teresa amarrou a corda ao corrimão e criou um apoio para a mão dele.
— Não olha para baixo — disse.
— Ordem clínica?
— Pedido bem formulado.
Ele obedeceu. Quando as pernas falharam novamente, Massimo avisou antes da queda. Teresa redistribuiu o peso, e os dois desceram sentados por quatro degraus.
Vozes chegaram ao alto. Domênico mandava dividir a equipe entre passagem e jardim.
Teresa enviou o áudio assim que uma barra de sinal apareceu perto da adega. Camila respondeu com um único símbolo de confirmação. A prova já estava fora da casa antes do beijo e das lanternas.
Perto da saída, Massimo perdeu força nas mãos. Teresa enrolou a faixa nos próprios antebraços e criou um apoio para que ele avançasse sem agarrá-la pelo pescoço.
— Está doendo? — ele perguntou ao ver o corte dela.
— Depois.
— Resposta ruim.
— Aprendi com você.
Massimo parou, obrigando Teresa a encará-lo.
— Não esconda lesão para me tirar daqui.
Ela mostrou o cotovelo e permitiu que ele verificasse o movimento. Só retomaram quando ambos concordaram que era superficial. O cuidado já circulava nos dois sentidos.