— No chão — Massimo ordenou.
Teresa se abaixou atrás da cadeira. Dario apagou a tela do telefone e puxou a arma do coldre.
Passos atravessaram o corredor. Vozes curtas, coordenadas, sem o pânico de seguranças surpreendidos.
— Quantas saídas? — Teresa perguntou.
— Uma útil — Massimo respondeu. — Estante. Terceiro livro da esquerda, prateleira do meio.
Dario abriu a porta lateral e espiou a biblioteca. Um disparo arrancou madeira do batente; ele recuou e respondeu duas vezes.
— Vão entrar pela varanda — disse.
Teresa correu agachada até a estante. Encontrou três lombadas iguais, puxou a primeira e ouviu Massimo xingar.
— Da esquerda, Teresa.
— Estou de costas!
Ela pressionou o livro correto. A estante girou, revelando uma porta estreita de aço. Dario empurrou a cadeira para dentro enquanto Teresa recolhia a pasta e a ampola lacrada.
— Venha — Massimo disse ao segurança.
Dario balançou a cabeça.
— Preciso tirar os homens do corredor.
— É uma ordem.
— Hoje não.
Ele fechou a estante pelo lado de fora. O aço selou Teresa e Massimo numa sala de três metros, iluminada por luz vermelha.
Um monitor mostrava o escritório. Dois homens mascarados invadiram pela biblioteca, reviraram gavetas e atiraram na fechadura principal.
Teresa levou a mão ao bolso.
— Sem sinal.
— Blindagem.
— A câmera grava?
— Circuito interno. Visualização apenas.
— Ótimo esconderijo para gente sem prova.
Massimo girou a cadeira perto da parede. Os joelhos tocaram os dela no espaço apertado.
— Há água para vinte e quatro horas.
— Eles sabem da sala?
— Domênico conhece a casa. Nunca contei o mecanismo.
No monitor, um invasor falou pelo rádio. Pouco depois, Domênico entrou no escritório sem máscara. O terno azul estava aberto, e o rosto perdera a polidez.
— Achem ele — disse. — Quero confirmação antes de falar com o conselho.
Um homem apontou para os arquivos espalhados.
— E a fisioterapeuta?
Domênico pegou uma fotografia clínica de Teresa.
— Viu os prontuários. Não pode sair daqui.
Massimo ficou imóvel. A luz vermelha cortava o rosto dele.
Teresa acionou o gravador do telefone.
— Sem sinal, ele grava localmente.
— A parede abafa o áudio.
Ela encostou o aparelho na junção da ventilação. A voz de Domênico chegou fraca, mas reconhecível.
— Repete — Teresa murmurou.
Como se ouvisse, Domênico aproximou-se da estante.
— Encontrem Massimo. Matem a mulher.
A gravação captou cada palavra.
Massimo fechou a mão sobre a de Teresa. Os dedos dele estavam frios.
— Ele colocou você nisso.
— Eu aceitei o contrato.
— Para pagar uma faculdade.
— E fiquei depois do envelope.
Os homens bateram nas paredes do escritório. Um deles puxou livros da estante.
Teresa verificou a sala. Havia banco, armário de emergência e uma pequena porta baixa atrás da cadeira.
— Isso leva aonde?
— Adega antiga. A passagem foi construída na época em que meu avô escondia bebida importada. Domênico não sabe.
— Tem escada?
— Quarenta e dois degraus.
Teresa encarou a cadeira.
— Ela não passa.
— Eu sei.
— Então fazemos transferência para o chão, descemos sentado ou com apoio lateral. Leva tempo.
— Não temos.
No monitor, um homem bateu na estante. A imagem tremeu.
Teresa abriu o armário. Encontrou lanterna, corda curta e uma bengala dobrável. Amarrou a pasta ao corpo, passou a faixa de transferência na cintura de Massimo e destravou a porta baixa.
Um corredor de pedra descia na escuridão.
— Eu vou primeiro. Você usa meus ombros e o corrimão. Um degrau por vez.
— Se caio, levo você.
— Então não cai.
Massimo segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Escuta. Se eles chegarem antes de passarmos, você corre.
Teresa afastou uma das mãos.
— Você ainda não entendeu meu trabalho.
— Seu trabalho acabou quando recusou o dinheiro.
— Melhor. Agora não pode me demitir.
Um impacto metálico atingiu a porta da sala. A fechadura vibrou.
Teresa posicionou a cadeira junto à passagem, travou as rodas e se agachou diante de Massimo.
— No três.
— Odeio sua contagem.
— Um. Dois. Três.
Ele passou um braço pelos ombros dela. Teresa suportou o peso, girou e o colocou no primeiro degrau.
Atrás deles, a estante começou a se mover.
Dentro da sala blindada, Teresa também encontrou um kit médico vencido. Substituiu a gaze, separou água e amarrou uma lanterna ao ombro. Massimo observava cada movimento no espaço vermelho.
— Fez isso antes? — perguntou.
— Evacuação de hospital durante incêndio. O paciente pesava mais e reclamava menos.
— Duvido da segunda parte.
O monitor mostrou Domênico abrindo a gaveta dos prontuários. Ele encontrou cópias falsas que Teresa deixara e rasgou as páginas, procurando fotos.
— Ele quer apagar as doses — ela disse.
— Quer apagar você.
Massimo pegou o telefone dela, ditou uma declaração com nomes, datas e acesso às empresas. O áudio seria enviado quando recuperasse sinal.
— Se eu não sair, entregue a Camila.
Teresa parou de ajustar a faixa.
— Vai sair.
— Preciso dizer.
— Então diz olhando para mim, sem falar como testamento.
Ele ergueu o rosto.
— Confio em você mais que em qualquer pessoa desta casa.
Teresa retomou o nó. Os dedos precisaram de duas tentativas.
— Bom. Confia na contagem.
O primeiro invasor descobriu o painel da sala. A broca atingiu aço. Teresa apagou a luz interna, abriu a passagem e ajudou Massimo a transferir-se enquanto faíscas caíam da fechadura.
O pânico da sala blindada trouxe outro risco: a respiração de Massimo acelerou até os dedos perderem força. Teresa reconheceu o início de uma crise autonômica, afrouxou a camisa e verificou pressão com o aparelho do kit.
— Olha para minha mão — disse. — Conta os dedos.
— Quatro.
— Tenho cinco.
— Um está escondido.
— Então continua olhando.
Ela guiou a respiração até o pulso diminuir. Massimo segurou seu punho, usando o ritmo dela como referência.
No monitor, Domênico aproximava ferramentas da estante. Teresa calculou o tempo entre golpes e organizou a saída em etapas. Retirou a faixa, amarrou a cadeira à parede para bloquear a passagem e separou medicamentos úteis.
— Vai abandonar minha cadeira? — ele perguntou.
— Ela compra minutos.
— Custou mais que um carro.
— Reclama com o seguro.
Massimo observou a cadeira preta pela última vez. Aquela máquina o levara por três meses; agora seria obstáculo entre ele e homens armados.
— Abra — disse.
Teresa abriu a porta baixa. Antes de transferi-lo, colocou o telefone junto à ventilação e confirmou que a gravação continuava. A ordem de Domênico apareceu na tela como onda sonora.
Antes de abandonar a sala, Teresa escreveu com marcador na parede: "Passagem aberta — polícia". Se Dario entrasse, saberia a direção; se Domênico visse, perderia tempo decidindo se era armadilha.
Massimo retirou o relógio pesado e colocou no bolso dela.
— Atrasa o equilíbrio — disse.
— E vale quanto?
— Menos que você.
Teresa quase respondeu com uma piada, mas a broca atravessou a primeira camada de aço. Ela guardou o relógio, ajustou a faixa uma última vez e posicionou as mãos dele nos ombros.
— Sem heroísmo na escada.
— Você está me carregando durante invasão.
— Isto é protocolo improvisado.
O primeiro degrau recebeu o peso dos dois. Atrás, uma mão apareceu pela abertura da porta blindada.
Teresa colocou a ampola e o telefone dentro de um saco impermeável. Massimo questionou por que levava provas durante uma fuga.
— Se sairmos sem elas, Domênico chama isto de briga familiar.
— E se atrasarem você?
— Você atrasou mais discutindo cada exercício.
O impacto seguinte deformou a fechadura. Massimo segurou a faixa e aceitou a transferência sem mudar a contagem. Pela primeira vez, entregou todo o peso antes que Teresa precisasse pedir.