《A Menina Que Pediu Trabalho de Limpeza ao Bilionário》Parte 2

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O silêncio que tomou conta do saguão da Montenegro Participações parecia impossível de quebrar.

Eduardo Montenegro continuava olhando para aquela pequena inscrição nas luvas amarelas.

Camila Martins.

Durante quinze anos, aquele nome tinha sido uma ferida aberta que ele nunca conseguiu fechar.

Uma mulher que entrou na vida dele quando ele ainda acreditava que algumas pessoas podiam ser protegidas apenas com poder e dinheiro.

Uma mulher que desapareceu sem deixar rastros.

E agora, diante dele, estava uma menina carregando um bebê e segurando um objeto que pertencia ao passado.

"Lívia, quem é Camila Martins para você?"

A menina percebeu a mudança no rosto dele.

Até poucos minutos atrás, Eduardo parecia apenas um homem rico que poderia ajudá-la.

Agora, parecia alguém que conhecia aquele nome.

Ela apertou o pano que segurava Miguel contra suas costas.

"Minha mãe."

A resposta foi simples.

Mas atingiu Eduardo como uma lembrança que ele não esperava sentir.

Um dos diretores ao lado dele tentou interromper.

"Senhor Montenegro, talvez seja melhor chamar a segurança e resolver isso de outra forma."

Eduardo levantou a mão.

O homem imediatamente ficou em silêncio.

Todos conheciam aquele gesto.

Quando Eduardo Montenegro tomava uma decisão, ninguém discutia.

Ele olhou para Lívia.

A menina ainda estava em pé ao lado do seu velho balde azul.

Esperando.

Não por dinheiro.

Não por pena.

Por uma resposta sobre trabalho.

"Você veio até aqui sozinha?"

Lívia balançou a cabeça.

"Eu vim com Miguel."

"Mas quem trouxe você até a empresa?"

"Ninguém."

A resposta deixou todos desconfortáveis.

Eduardo observou aquela criança.

Ela tinha atravessado a cidade sozinha.

Entrado em um prédio onde pessoas ganhavam salários que ela provavelmente nunca imaginaria.

E ainda assim, sua primeira atitude foi procurar emprego.

Ele respirou fundo.

Depois olhou para a recepcionista.

"Prepare uma sala para ela."

A mulher ficou surpresa.

"Senhor?"

Eduardo repetiu:

"Uma sala."

Todos ficaram olhando.

Ninguém entendia o que estava acontecendo.

Ele voltou os olhos para Lívia.

"Você disse que veio procurar trabalho."

A menina assentiu rapidamente.

"Sim."

Eduardo apontou para os documentos que estavam sobre o balcão.

"Então hoje você vai trabalhar."

Pela primeira vez, a expressão da menina mudou.

Não era felicidade.

Era alívio.

"Eu posso mesmo?"

Eduardo respondeu:

"Pode."

Ele fez uma pausa.

"Mas existe uma condição."

Lívia ficou alerta.

"Qual?"

"Você não vai limpar banheiros."

A menina franziu a testa.

"Mas eu sei fazer."

Eduardo quase sorriu.

"Eu acredito."

Ele pegou alguns documentos de uma pilha.

"Hoje seu trabalho será organizar esses arquivos."

Lívia olhou para os papéis.

Depois para ele.

"Quanto vai pagar?"

A pergunta surpreendeu todos na sala.

Uma criança negociando salário dentro da maior empresa de São Paulo.

Eduardo respondeu:

"O suficiente para comprar comida e leite para Miguel."

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

Depois perguntou:

"É um acordo?"

Eduardo estendeu a mão.

"É um acordo."

Lívia olhou para a mão dele.

Não apertou imediatamente.

Ela parecia avaliar se aquele homem realmente cumpriria sua palavra.

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Então colocou sua pequena mão sobre a dele.

"Combinado."

Eduardo conduziu os dois até o elevador privado.

Funcionários observavam escondidos pelos corredores.

Alguns cochichavam.

"Ele vai deixar uma criança entrar no escritório?"

"Isso nunca aconteceu."

"Ela está com um bebê."

"Isso é loucura."

Mas ninguém sabia que Eduardo Montenegro também era conhecido por fazer coisas que ninguém esperava.

A porta do elevador se fechou.

Pela primeira vez naquele dia, Lívia viu um lugar onde ninguém estava olhando para ela como se fosse um problema.

O escritório de Eduardo ficava no último andar.

Uma sala enorme com vista para toda a Avenida Paulista.

Janelas de vidro do chão ao teto.

Uma mesa de madeira escura.

Quadros de artistas brasileiros famosos.

Tudo parecia pertencer a outro mundo.

Lívia entrou devagar.

Mas não tocou em nada.

Eduardo percebeu.

"Você pode sentar."

Ela negou.

"Primeiro o trabalho."

Ele ficou observando.

Uma criança que tinha acabado de entrar em um escritório milionário não pediu brinquedos.

Não pediu comida.

Pediu para trabalhar.

Lívia colocou Miguel cuidadosamente em uma poltrona próxima.

Depois pegou as luvas amarelas do balde azul.

Eduardo ficou surpreso.

"Você vai usar essas luvas para organizar papéis?"

Ela olhou para as próprias mãos.

"Minha mãe dizia que toda pessoa precisa respeitar o trabalho que faz."

Ela colocou as luvas.

"E eu sempre uso elas."

Então começou.

Separou contratos.

Organizou pastas.

Identificou documentos fora do lugar.

Em menos de vinte minutos, uma pilha de arquivos que três funcionários não conseguiram organizar em uma manhã estava completamente separada.

A assistente de Eduardo entrou na sala com alguns relatórios.

Quando viu a menina trabalhando, ficou parada.

"Senhor Montenegro..."

Eduardo levantou os olhos.

"Sim?"

Ela olhou para os documentos organizados.

"Esses arquivos estavam errados há semanas."

Lívia continuou trabalhando.

Sem perceber que todos estavam impressionados.

A assistente se aproximou.

"Como você sabia onde colocar cada documento?"

A menina respondeu:

"Os nomes estavam fora de ordem."

A mulher ficou sem palavras.

Naquele momento, Eduardo percebeu algo.

Aquela menina não era apenas uma criança tentando sobreviver.

Ela era extremamente inteligente.

Mas antes que pudesse perguntar mais, a porta se abriu.

Era Rafael Costa Silva, chefe de segurança.

"Senhor Montenegro, o médico chegou."

Eduardo olhou para Miguel.

A preocupação voltou imediatamente.

A médica Helena Ribeiro entrou na sala alguns minutos depois.

Ela se aproximou do bebê com cuidado.

Lívia ficou ao lado.

Observando cada movimento.

"Eu posso ficar aqui?"

A médica respondeu:

"Pode."

Depois de alguns minutos examinando Miguel, a expressão dela ficou séria.

Eduardo percebeu.

"Como ele está?"

Helena respirou fundo.

"Ele está estável."

Lívia soltou o ar que estava segurando.

Mas a médica continuou:

"Porém, ele passou por uma situação muito difícil."

Eduardo ficou sério.

"O que quer dizer?"

"Ele apresenta sinais de desnutrição prolongada."

Lívia abaixou a cabeça.

"Eu tentei dar comida para ele."

A médica olhou para ela com carinho.

"Eu sei que tentou."

Depois examinou novamente o bebê.

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"Também existem marcas antigas no corpo dele."

O rosto de Eduardo mudou.

"Marcas?"

Helena confirmou.

"Pequenos sinais de lesões antigas. Preciso investigar melhor."

Lívia imediatamente ficou tensa.

Ela segurou o balde azul.

Como se fosse uma proteção.

Eduardo percebeu.

"Quem machucou Miguel?"

A menina ficou em silêncio.

Seus olhos começaram a ficar cheios de lágrimas.

Mas ela segurou.

"Eu não sei."

Eduardo não pressionou.

Naquele momento, ele entendeu que aquela criança já tinha aprendido a esconder a dor.

Enquanto Helena cuidava do bebê, Eduardo chamou Henrique Duarte Campos, seu advogado.

"Preciso de informações sobre Camila Martins."

Henrique estranhou.

"Camila Martins?"

"Sim."

O advogado pesquisou rapidamente no sistema antigo da empresa.

Alguns minutos depois, sua expressão mudou.

"Eduardo..."

"O que encontrou?"

Henrique virou o computador.

"Camila Martins trabalhou aqui."

Eduardo ficou imóvel.

"Quando?"

"Há quinze anos."

O silêncio tomou conta da sala.

Henrique continuou:

"Ela fazia parte do setor financeiro."

Eduardo olhou para a tela.

O passado que ele acreditava perdido estava voltando.

"E por que ela saiu?"

Henrique pesquisou mais.

Depois franziu a testa.

"Isso é estranho."

"O quê?"

"O registro dela foi apagado."

Eduardo ficou sério.

"Apagado?"

"Sim. Como se alguém tivesse tentado remover completamente a existência dela dentro da empresa."

Naquele instante, uma pequena voz veio atrás deles.

"Ela não fez nada errado."

Eduardo se virou.

Lívia estava parada na porta.

Ela segurava Miguel nos braços.

"Minha mãe não era uma pessoa ruim."

Eduardo se aproximou lentamente.

"Lívia, o que aconteceu com sua mãe?"

A menina olhou para o chão.

Durante muito tempo, ela não respondeu.

Então falou:

"Ela disse que um dia alguém tentaria fazer as pessoas esquecerem quem ela era."

Eduardo sentiu um arrepio.

"E o que mais ela disse?"

Lívia apertou Miguel contra o peito.

"Ela disse que, se um dia ela não voltasse..."

A voz da menina começou a falhar.

Eduardo esperou.

"Ela disse que eu deveria procurar um homem chamado Montenegro."

Eduardo ficou completamente imóvel.

Porque naquele momento ele percebeu que a chegada daquela menina na sua empresa não tinha sido uma coincidência.

Alguém tinha enviado Lívia até ele.

E talvez a resposta para o desaparecimento de Camila estivesse escondida naquele pequeno balde azul que ela nunca soltava.

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