Naquela manhã, Tomás acordara antes do pai e ouvira uma mala sendo fechada no corredor. Não sabia para onde iriam; sabia apenas que Otávio rasgara o desenho em que ele escrevera o nome da mãe e dissera que, na Suíça, médicos o ensinariam a parar de mentir. O menino vestiu a primeira roupa que encontrou e escondeu sob a camiseta as duas coisas deixadas por Marina. Durante todo o caminho, contou semáforos e esperou uma porta aberta. A concessionária não era destino. Era a primeira chance.
Tomás caiu de joelhos assim que atravessou as portas automáticas da concessionária. O impacto estalou no piso de mármore, mas ele não parou. Apoiou as duas mãos no chão, arrastou uma perna, depois a outra, e continuou avançando entre carros que custavam mais do que o apartamento onde sua mãe crescera. Algumas pessoas olharam. Ninguém se moveu. Um vendedor ergueu o celular, talvez para chamar a segurança, talvez para filmar. Tomás não sabia. Só sabia que o homem de jaqueta preta estava do outro lado do vidro.
— Moça… — A palavra saiu raspando sua garganta. — Não deixa ele me levar.
A mulher de uniforme azul-marinho estava perto do balcão de recepção, conversando com o gerente sobre o furto de um veículo. Ela se virou antes que o menino alcançasse a quina de madeira escura. Tomás agarrou o móvel com força e tentou ficar de pé, mas as pernas não obedeceram. A policial atravessou o salão em três passos e se ajoelhou diante dele.
— Meu nome é Helena. Olha pra mim. Você está machucado?
Tomás não respondeu. Seus olhos estavam presos à entrada. Helena acompanhou o olhar e viu um homem alto atravessar as portas com uma calma incompatível com o pânico da criança. Ele não corria. Não chamava pelo menino. Caminhava como quem já sabia que todos abririam espaço.
O gerente empalideceu.
— Doutor Otávio Ferraz — murmurou.
O nome circulou pelo salão antes do homem. O Grupo Ferraz era dono de hospitais, seguradoras, construtoras e de parte daquela concessionária. Otávio aparecia em revistas de negócios falando sobre liderança, herança e responsabilidade familiar. Naquele momento, ele parecia apenas um pai ligeiramente cansado, vindo buscar o filho depois de uma travessura.
Helena tornou a olhar para Tomás.
— Quem é aquele homem?
O menino apertou o braço dela. Os dedos estavam gelados.
— Meu pai.
Otávio parou a menos de dois metros. Sorriu primeiro para Helena, depois para os curiosos.
— Delegada, que sorte encontrar a senhora. Meu filho tem crises de ansiedade. Fugiu do carro enquanto eu falava ao telefone.
Tomás sacudiu a cabeça com tanta força que o cabelo caiu sobre os olhos.
— Não.
— Está vendo? — Otávio soltou um suspiro paciente. — Quando ele entra nesse estado, confunde as coisas. Eu cuido daqui.
Estendeu a mão. Helena se levantou e colocou o corpo entre os dois. Não sacou a arma, não alterou a voz. Apenas abriu a palma contra o peito dele, obrigando-o a parar.
— O senhor não vai tocar nele antes de eu entender o que aconteceu.
O sorriso de Otávio continuou no rosto, mas deixou de alcançar os olhos.
— Acho que a senhora não entendeu quem eu sou.
— Entendi perfeitamente. Agora dê um passo para trás.
Durante um segundo, ninguém respirou. Tomás se apoiou na perna da delegada e conseguiu se levantar. A manga da camiseta subiu. Helena viu quatro marcas roxas ao redor do pulso, paralelas demais para terem sido causadas por uma queda. Abaixou-se outra vez, desta vez sem desviar o olhar de Otávio.
— Quem fez isso?
O menino fechou a mão sobre a manga. Otávio respondeu por ele.
— Ele se machuca quando está nervoso. Temos médicos, laudos, terapeutas. Posso mandar tudo para a senhora.
— Eu perguntei a ele.
Tomás puxou o ombro de Helena. Ela aproximou o ouvido. O menino ergueu a barra da camiseta. Presos à pele por uma fita hospitalar havia uma pequena chave e um cartão de memória envolvido em plástico. Helena sentiu o estômago contrair.
— Foi ele que matou a minha mãe — sussurrou Tomás.
O rosto de Otávio mudou. Foi quase nada: um músculo na mandíbula, o foco dos olhos descendo até a camiseta do filho. Mas Helena percebeu.
Ela levou a mão ao rádio.
— Tranca todas as saídas. Agora.
Dois seguranças hesitaram. O gerente olhou para Otávio, esperando autorização do próprio homem que deveria ser impedido de sair. Helena repetiu a ordem, mais baixa:
— Todas.
As portas automáticas foram desligadas. Uma grade interna começou a descer diante da entrada do estacionamento. Otávio soltou uma risada curta.
— Isso é ridículo. Minha mulher morreu há seis meses num acidente na serra. Meu filho não aceitou o luto. Se a senhora transformar uma crise infantil num espetáculo, eu garanto que amanhã estará respondendo por abuso de autoridade.
Tomás se encolheu. Helena sentiu o movimento e segurou a mão dele.
— Se o senhor estiver certo, vai sair daqui depois de prestar esclarecimentos. Se estiver errado, essa porta é o menor dos seus problemas.
O gerente se aproximou, suando.
— Delegada, talvez possamos resolver numa sala reservada.
— Chame uma ambulância e preserve as imagens de todas as câmeras. Ninguém apaga nada.
O telefone de Otávio vibrou. Ele olhou a tela e recusou a chamada. Helena viu apenas o nome antes de o aparelho desaparecer no bolso: Raul Ferraz. O irmão mais velho de Otávio e diretor jurídico do grupo.
Tomás começou a tremer. Helena o levou para trás do balcão, onde o homem não ficaria em sua linha de visão. Uma recepcionista trouxe água. O menino segurou o copo, mas não bebeu.
— Onde você conseguiu isso? — Helena apontou para o cartão, sem tocá-lo.
— A mamãe deixou.
— Antes do acidente?
Tomás mordeu o lábio. Parecia procurar uma resposta que não colocasse alguém em perigo.
— Ela falou que, se o papai descobrisse, eu tinha que correr até uma mulher da polícia. Não um homem. Uma mulher.
Helena sentiu um arrepio. Não era uma escolha infantil ao acaso. Marina Azevedo Ferraz havia preparado o filho para aquele dia.
— E a chave?
— Da caixa dela.
— Que caixa?
Antes que ele respondesse, todas as luzes da concessionária se apagaram. O salão mergulhou numa penumbra cortada apenas pelos faróis de emergência dos carros. Alguém gritou. A grade da entrada parou a meio caminho. Helena puxou Tomás para junto do corpo e sacou a arma.
Um motor rugiu no subsolo.
— Ele vai fugir — disse o menino.
Mas Otávio não correu para a garagem. Quando as luzes de emergência acenderam, ele ainda estava no mesmo lugar. Apenas sorria, com as mãos vazias e os olhos presos ao cartão sob a camiseta do filho.
— Eu não preciso fugir, Tomás — falou. — Tudo o que existe aqui dentro pertence à nossa família.
Helena percebeu tarde demais que ele não estava falando da concessionária.
Um dos seguranças surgiu atrás dela, segurando um pano contra o nariz. Outro homem, vestido como técnico de manutenção, atravessava a porta lateral com um crachá falso. Em sua mão havia um pequeno aparelho preto, igual aos bloqueadores usados para derrubar sinais e câmeras.
Helena apontou a arma.
— No chão!
O falso técnico congelou. Otávio não. Deu um passo para a frente e sua cordialidade se desfez.
— A senhora ainda pode entregar meu filho e fingir que não viu nada.
Tomás saiu de trás de Helena. Pela primeira vez, olhou diretamente para o pai.
— A mamãe disse que você falaria isso.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era mais o silêncio de pessoas assustadas diante de um homem poderoso. Era o instante em que uma previsão se cumpria.
Sirenas se aproximaram do lado de fora. Helena viu o rosto de Otávio endurecer e entendeu que Marina não deixara apenas provas. Deixara um roteiro. E o menino de oito anos, rastejando pelo chão, acabara de colocar a primeira peça no lugar.