No sábado, Lívia trocou de roupa quatro vezes. Não porque desejasse impressionar Augusto Ferraz ou o filho dele, mas porque cada vestido parecia carregar uma mensagem que ela não queria enviar. O preto era sério demais, o floral parecia uma tentativa de simpatia e o azul fora presente de Henrique. Terminou com uma calça de alfaiataria bege, blusa branca e os brincos pequenos que pertenciam à avó.
Sônia percebeu a ausência do anel, mas não comentou. Durante o trajeto até o Jardim Europa, falou sobre trânsito, sobre uma vizinha que adotara um cachorro impossível e sobre a insistência de Augusto em aprender a cozinhar risoto. Era sua maneira de não transformar a noite num exame.
A casa dos Ferraz não parecia uma casa; parecia um hotel discreto que decidira esconder o luxo. Não havia colunas douradas, carros exibidos diante da porta nem funcionários alinhados para recebê-las. Havia pedra clara, árvores antigas e uma luz quente atrás de janelas altas. Augusto abriu a porta antes que o motorista tocasse a campainha.
Ele era mais alto do que Lívia imaginara e tinha o tipo de cabelo grisalho que fazia homens parecerem mais confiáveis, embora ela soubesse que aparência não era caráter. Abraçou Sônia primeiro. Depois parou a uma distância respeitosa de Lívia.
— Posso abraçar você ou ainda estamos na fase do aperto de mão?
A pergunta desmontou metade da defesa dela.
— Um abraço está bem.
Augusto a abraçou sem apertar demais.
— Obrigado por vir. Sua mãe estava prestes a cancelar nosso casamento porque eu coloquei alcaparras no molho errado.
— Você colocou alcaparras no molho de tomate — Sônia corrigiu.
— Percebe? Motivo gravíssimo.
Lívia riu, e a risada a surpreendeu. Na sala, uma bandeja tinha café, pão de queijo e um bolo simples. Nada parecia montado para mostrar dinheiro. Augusto perguntou sobre o trabalho dela, ouviu a resposta inteira e sabia o nome da agência. Sônia provavelmente lhe contara, mas ele não fingiu descobrir naquele instante.
— Caio está atrasado — disse Augusto. — Uma operação travou no porto de Santos. Ele mandou começarmos sem ele.
Lívia assentiu, secretamente aliviada. Talvez o filho não aparecesse. Talvez ela pudesse sobreviver à noite sem ser avaliada por outro homem criado para acreditar que sobrenome era currículo.
Durante o jantar, Augusto contou como conhecera Sônia num hospital. Ele visitava um motorista ferido; ela brigara com ele porque tentava entrar fora do horário. Depois ele voltara com café para a equipe inteira e recebera outra bronca, pois uma enfermeira era diabética e os copos estavam todos adoçados. Sônia revirou os olhos, mas sorria.
— Ele levou três semanas para entender que gentileza sem atenção pode virar trabalho para os outros — disse ela.
— Foi a primeira de muitas aulas.
Lívia observou os dois. Augusto não diminuía a inteligência de Sônia para parecer generoso. Não falava sobre tê-la tirado de uma vida simples. Quando mencionava dinheiro, era para contar um erro próprio ou uma decisão compartilhada. A relação não parecia uma ponte entre classes, e sim uma mesa em que ambos tinham cadeira.
A porta da sala de jantar se abriu pouco depois das nove.
Caio Ferraz entrou tirando o paletó. Era pardo, muito alto, com a camisa azul-marinho dobrada nos antebraços e uma expressão cansada que mudou quando viu as visitas. Cumprimentou Sônia com um beijo no rosto e pediu desculpas pelo atraso. Então Augusto apresentou Lívia.
Caio olhou para ela. Não foi um olhar devorador nem o espanto fabricado de novela. Foi atenção súbita. Como se, por um segundo, ele tivesse esquecido a próxima frase.
— Prazer — Lívia disse.
— O prazer é meu.
Ele estendeu a mão, percebeu que a dela estava fria e não fez comentário. Sentou-se no lugar vazio, serviu água antes de comida e perguntou o que perdera. Augusto respondeu que haviam chegado à parte em que Sônia salvava o Grupo Ferraz de molhos ruins.
— Então cheguei no capítulo recorrente — Caio disse.
Lívia sorriu. O jantar continuou com uma facilidade que a deixou desconfiada. Caio não fez perguntas sobre Henrique, embora certamente tivesse sido informado do noivado encerrado. Não perguntou onde ela estudara de um jeito que transformasse universidade em ranking. Quando descobriu que ela criava embalagens, quis saber por que algumas pareciam bonitas na tela e ruins nas prateleiras. A curiosidade era específica demais para ser cortesia.
— Porque uma embalagem nunca está sozinha — Lívia explicou. — Ela disputa atenção com cinquenta outras, sob uma luz horrível, e ainda precisa ser entendida por alguém com pressa. Às vezes o projeto mais elegante morre porque ninguém encontra a informação básica.
— É parecido com logística — Caio disse. — O plano perfeito no PowerPoint pode fracassar por causa de uma placa mal colocada no galpão.
— Ou de alguém que nunca perguntou a quem trabalha lá.
— Exatamente.
Augusto e Sônia trocaram um olhar que ambos fingiram não trocar.
Depois da sobremesa, Augusto levou Sônia ao jardim para mostrar uma roseira. Lívia ofereceu ajuda para recolher os pratos, mas uma funcionária recusou com gentileza. Ela foi até a varanda. Caio apareceu alguns minutos depois com duas xícaras.
— Café sem açúcar — disse. — Minha mãe dizia que oferecer bebida sem perguntar era uma forma educada de mandar na pessoa. Então: você quer?
Lívia encarou a xícara e depois ele.
— Quero. Obrigada.
Ficaram lado a lado, não próximos. A cidade brilhava além das árvores.
— Meu pai está feliz — Caio disse.
— Minha mãe também.
— Eu sei que isso muda coisas para você sem você ter escolhido.
Lívia esperou a continuação: garantias financeiras, regras sobre imprensa, uma explicação de patrimônio. Caio apenas bebeu o café.
— Você não vai me entregar um manual da família? — ela perguntou.
— Temos um. Cento e oitenta páginas, fonte oito, três anexos sobre qual garfo usar para destruir a autoestima de convidados.
Ela riu antes de perceber que ele brincava.
— Desculpa. Eu estou um pouco armada.
— Não precisa pedir desculpa por trazer armadura para uma casa desconhecida.
A resposta pousou entre eles com delicadeza. Lívia olhou para o jardim, onde a mãe falava com as mãos e Augusto a escutava como se nenhuma reunião pudesse ser mais importante.
— Henrique dizia que eu fazia questão de parecer simples — ela contou, surpreendendo a si mesma. — Como se simplicidade fosse uma performance.
Caio não perguntou o que acontecera. Apenas disse:
— Pessoas que transformam tudo em estratégia geralmente têm medo de descobrir que alguém pode agir sem querer vantagem.
— Você fala por experiência?
— Cresci cercado por gente que calculava onde sentar numa mesa. Demorei anos para entender que nem toda aproximação escondia uma planilha.
O celular dele vibrou. Caio silenciou sem olhar.
— Pode atender — Lívia disse.
— Pode esperar cinco minutos.
Henrique sempre dizia o contrário: "É rápido", antes de transformar um jantar em espera. Lívia odiou perceber a comparação. Caio não merecia ser avaliado pelo fracasso de outro homem, e ela não estava pronta para que qualquer gentileza parecesse promessa.
— Eu não estou disponível — falou, mais abrupta do que pretendia.
Caio virou o rosto para ela.
— Para quê?
— Para qualquer coisa que esse olhar esteja começando a sugerir.
Houve um instante de silêncio. Caio não fingiu não compreender.
— Justo.
— Só isso?
— Você disse não. Eu ouvi.
Nenhuma ofensa, nenhuma tentativa de fazê-la se sentir presunçosa. Ele tomou outro gole de café.
— Posso continuar conversando com você sobre embalagens ruins ou isso também entrou na área proibida?
Lívia relaxou os ombros.
— Embalagens estão liberadas.
Quando foram embora, Augusto entregou a Sônia um pote com o restante do bolo. Para Lívia, não ofereceu carro, joia ou qualquer presente. Apenas disse que estava feliz por finalmente conhecê-la e que a porta estaria aberta mesmo nos dias em que Sônia não estivesse.
No apartamento, Lívia encontrou três ligações de um número desconhecido e um e-mail de Henrique.
O assunto dizia: "Sua reação de ontem".
Ela não abriu. Tomou banho, deixou o celular virado para baixo e tentou dormir. Às duas da manhã, porém, o brilho da tela iluminou o quarto. Uma mensagem de Caio chegara pelo contato que Sônia criara para organizar o casamento.
"Prometo que não é investida. Você comentou que o verniz de uma embalagem pode dificultar reciclagem. Tem algum artigo simples sobre isso? Quero mandar para a equipe de compras."
Lívia leu duas vezes. Enviou um link e acrescentou três observações. Caio respondeu apenas: "Obrigado. Boa noite, Lívia."
Sem emoji, elogio ou convite escondido.
Ela colocou o telefone de lado e adormeceu sem saber que, na manhã seguinte, Henrique receberia uma notícia capaz de transformar o término numa emergência empresarial: o Grupo Ferraz suspendera a assinatura de um contrato bilionário com a Valença Urbanismo após encontrar inconsistências ambientais no projeto.
Henrique não pensaria em coincidência.
Pensaria em Lívia.