Lívia Azevedo levou onze meses para comprar o relógio que Henrique Valença mencionara uma única vez, numa vitrine da Rua Oscar Freire. Ele não pedira. Homens como Henrique raramente pediam; apenas olhavam por dois segundos a mais, diziam que determinada peça estava esgotada em Londres e seguiam andando como se desejo e posse fossem etapas consecutivas. Para ele, talvez fossem. Para Lívia, o relógio custava aluguel, mercado, remédio da mãe e quase um ano de pequenos "não" ditos a si mesma.
Ela cancelou o aplicativo de música. Parou de pedir almoço com as colegas e levou marmitas em potes que não fechavam direito. Aceitou ilustrações de madrugada, refez logotipos para clientes que mudavam de ideia depois de cada reunião e vendeu três aquarelas que pretendia guardar. Quando finalmente parcelou o relógio em doze vezes, sentiu medo antes de alegria. Ainda assim, imaginou Henrique abrindo a caixa no jantar de aniversário, surpreso não com o preço, mas com o fato de ela ter lembrado.
Foi essa imagem que a acompanhou pelo corredor reservado do restaurante. O gerente a reconheceu e sorriu. Henrique reservara a sala de vidro para oito pessoas, mas pedira que ela chegasse mais tarde porque teria uma conversa rápida com investidores. Lívia não estranhou. Nos dois anos de namoro, aprendera a caber nos intervalos da agenda dele.
Antes de tocar a maçaneta, ouviu seu nome.
— A Lívia não aceitou nem o Cartier? — perguntou Otávio, um dos amigos de Henrique. — Você está perdendo o jeito.
Houve risos. Lívia ficou parada, a caixa azul-marinho apertada contra o vestido verde.
— Ela nunca aceita nada caro — respondeu Henrique. A voz dele carregava o sorriso preguiçoso que usava quando queria transformar crueldade em charme. — No aniversário, devolveu a bolsa. No Natal, inventou que a viagem para Saint-Barth seria "demais".
— Isso é bom, não é? — disse alguém. — Finalmente uma que não está atrás do seu cartão.
Henrique riu de novo.
— Vocês são muito inocentes. A mulher realmente esperta recusa joia cara justamente para ninguém perceber que é interesseira. É estratégia de longo prazo. Ela não quer a bolsa; quer que eu pense que ela merece o sobrenome.
O corredor pareceu inclinar. Lívia encostou o ombro na parede de madeira. Não era apenas a frase. Era a tranquilidade com que ele reorganizava cada gesto dela até que o afeto parecesse cálculo. A bolsa devolvida porque valia mais que o carro usado de sua mãe. A viagem recusada porque Sônia faria uma biópsia naquela semana. O colar que Lívia nem chegara a experimentar porque ainda escutava a avó dizer que presente caro demais às vezes vinha com uma coleira invisível.
— E vai casar mesmo assim? — Otávio perguntou.
— Claro. Ela é bonita, educada, não me dá escândalo e sabe conversar com minha mãe. Só não dá para esquecer de onde veio. Se você deixa uma pessoa pobre acreditar que está no mesmo nível, depois fica difícil colocá-la no lugar.
Lívia baixou os olhos para a caixa. A fita fora amarrada por ela três vezes porque os laços saíam tortos. Sob o papel de seda estava um cartão escrito à mão: "Para que você se lembre de que o meu tempo favorito sempre foi o nosso." A frase agora lhe causava vergonha, mas não vergonha de ter amado. Vergonha de ter oferecido amor a um homem que o examinava como prova num processo.
Uma lágrima caiu sobre a fita. Lívia a enxugou com o polegar. Depois outra. Ela poderia ir embora sem ser vista, devolver o relógio e inventar uma febre. Era o que a antiga Lívia faria: absorveria o golpe, buscaria uma explicação menos dolorosa e daria a Henrique a oportunidade de dizer que fora brincadeira. Mas havia uma diferença entre suspeitar que alguém não compreendia você e ouvi-lo anunciar, diante dos amigos, que sua dignidade era uma tática.
Ela abriu a porta.
O riso parou primeiro. Henrique virou-se na cadeira e perdeu a cor por menos de um segundo. Depois recuperou o sorriso.
— Amor. Você chegou cedo.
Lívia atravessou a sala. Não olhou para os homens que desviavam os olhos nem para as duas mulheres que fingiram conferir o celular. Colocou a caixa diante de Henrique.
— Feliz aniversário.
— Lívia… — Ele observou o rosto molhado. — Você ouviu uma conversa fora de contexto.
— Abre.
Talvez por hábito, talvez porque esperasse encontrar algo barato e assim confirmar sua própria narrativa, Henrique puxou a fita. Quando ergueu a tampa, reconheceu o relógio. Otávio soltou um assobio involuntário.
— Esse modelo estava esgotado — Henrique disse.
— Eu encontrei um revendedor autorizado. A nota está embaixo.
Ele virou o cartão do parcelamento. Os números ficaram expostos: doze prestações, juros, o valor da entrada. Henrique franziu a testa.
— Você não devia ter gastado isso.
Lívia quase riu. Quantas vezes dissera a mesma frase e recebera como resposta que, para ele, não era nada? Na boca de Henrique, porém, não havia preocupação. Havia desconforto. O presente desmentia a caricatura que ele acabara de vender aos amigos.
— Eu sei. Não devia mesmo.
Ela puxou o anel de noivado. O dedo resistiu por causa do calor, e durante um segundo ridículo Lívia temeu não conseguir removê-lo. Girou a aliança uma vez, respirou e a colocou ao lado do relógio.
— O que você está fazendo? — Henrique perguntou, agora sem sorriso.
— Ficando no meu lugar.
— Não faça cena.
— A cena era o noivado. Isso aqui é o fim.
Henrique se levantou. Era mais alto e estava acostumado a usar proximidade como argumento. Lívia não recuou.
— Você vai terminar comigo por causa de uma piada?
— Não. Vou terminar porque, para você, tudo o que fiz para não depender do seu dinheiro era uma forma mais sofisticada de tentar roubá-lo.
— Eu não disse roubar.
— Você disse "colocar no lugar". Então fica tranquilo. Eu mesma estou saindo dele.
Otávio murmurou que talvez devessem deixá-los sozinhos. Henrique fez um gesto impaciente.
— Ninguém vai a lugar nenhum. Ela precisa se acalmar.
Foi naquele instante que a última dúvida de Lívia morreu. Até o término precisaria acontecer sob o comando dele, no horário dele, depois que ele autorizasse a emoção adequada.
— Eu não preciso me acalmar. Preciso da minha bolsa.
Ela a pegou no encosto da cadeira. Henrique segurou seu pulso, não com força suficiente para deixar marca, mas com intimidade suficiente para supor que ainda tinha direito.
— Amanhã você vai se arrepender.
Lívia olhou para a mão dele até que Henrique a soltasse.
— Talvez. Mas o arrependimento vai ser meu. Finalmente uma coisa que você não pode comprar, interpretar ou administrar.
Saiu da sala ouvindo-o chamar seu nome. No elevador, as pernas começaram a tremer. Ela apertou o botão do térreo e levou a mão à boca para conter um soluço. Não queria que o recepcionista visse, não queria que o manobrista perguntasse, não queria oferecer a desconhecidos a versão frágil que Henrique usaria como prova de instabilidade.
Do lado de fora, São Paulo estava molhada por uma chuva fina. Lívia caminhou duas quadras antes de perceber que deixara o guarda-chuva no restaurante. Sentou-se num ponto de ônibus e chorou com o rosto escondido entre as mãos.
O celular vibrou.
Henrique: "Quando parar de dramatizar, me liga."
Outra mensagem chegou.
Henrique: "E não precisa fazer isso por causa do relógio. Posso te reembolsar."
Lívia bloqueou o número.
Quarenta minutos depois, entrou no apartamento da mãe encharcada. Sônia veio da cozinha com uma panela na mão, viu o dedo vazio e não perguntou se o casamento havia acabado. Apenas desligou o fogo, pousou a panela e abriu os braços.
Lívia desabou contra ela.
— Ele achava que eu estava fingindo — conseguiu dizer. — Tudo. O tempo inteiro.
Sônia segurou a filha até o choro perder força. Só então falou:
— Amanhã eu preciso te contar uma coisa. Eu queria esperar o seu aniversário, mas acho que você precisa saber agora.
Lívia ergueu o rosto.
— Você está doente?
— Não. Eu vou me casar.
Em qualquer outra noite, a notícia teria arrancado um grito. Naquela, Lívia apenas piscou.
— Com o Augusto?
Sônia confirmou, um sorriso tímido aparecendo.
— Ele pediu há duas semanas. E antes que você invente preocupação: não vou largar minha vida, não assinei nada sem advogada e ele não está tentando me salvar. Nós só… queremos envelhecer juntos.
Lívia abraçou a mãe outra vez, desta vez com alegria verdadeira misturada ao cansaço.
— Então você vai casar com o homem misterioso que nunca deixa você pagar o café.
— Às vezes eu pago.
— Uma vez por trimestre não conta.
Sônia riu, mas ficou séria de novo.
— Há outra coisa. Augusto quer que você vá jantar conosco no sábado. O filho dele estará lá. Ele disse que vocês precisam se conhecer antes de qualquer anúncio.
Lívia fechou os olhos. A ideia de sentar diante de mais um herdeiro rico parecia uma punição elaborada.
— Mãe, eu não consigo lidar com outra família milionária agora.
Sônia acariciou seu cabelo molhado.
— Então não lide com uma família milionária. Jante comigo e com o homem que eu amo. O resto que aprenda a se comportar.
Naquela mesma hora, do outro lado da cidade, Henrique colocou o relógio no pulso diante do espelho do restaurante. O objeto servia perfeitamente. Ele disse aos amigos que Lívia voltaria em dois dias, assim que entendesse o preço da vida sem ele.
Nenhum deles teve coragem de lembrar que ela pagara pelo relógio sozinha.
E nenhum deles sabia que o nome Augusto Ferraz, ainda ausente daquela conversa, em breve decidiria se a empresa dos Valença sobreviveria ao próximo semestre.