Ninguém aplaudiu. O espanto foi silencioso.
Renato apareceu na sala apoiado numa bengala apenas para sustentar a encenação diante da imprensa. Helena caminhava ao lado. Rafael vinha atrás com a pasta de provas; Laura carregava o notebook copiado do pai.
Marcelo ficou de pé.
— Pai…
— Continue — disse Renato. — Quero ouvir como pretende vender minhas ações usando uma digital borrada.
Caio tentou sair. Dois agentes da polícia civil fecharam a porta.
Lígia projetou as transferências da Salus. Quarenta e oito milhões haviam saído do grupo. Marcelo assinara. Caio recebera.
— Era investimento — afirmou Marcelo.
— Em quê? — perguntou Renato.
— Expansão internacional.
— Uma empresa sem funcionários expandiu o quê?
Caio apontou para o irmão.
— Ele fez os contratos. Eu só recebi o que me devia.
— Você sabia de tudo — retrucou Marcelo.
Em menos de um minuto, os parceiros começaram a se destruir.
Marcelo apontou para Rafael.
— Foi ele quem acessou as contas. Sempre quis tomar nosso lugar.
Caio percebeu a saída e concordou.
— A senha era dele. O adotado sabia que nunca receberia nada e resolveu pegar antes.
Rafael colocou sobre a mesa o laudo da cirurgia, registros de entrada e a perícia dos endereços digitais.
— Eu estava anestesiado quando minha senha aprovou os pagamentos. O acesso saiu do escritório do Marcelo.
— Documento se compra — rebateu Marcelo.
Renato levantou a mão.
— Chega.
Abriu uma gravação antiga da festa em que adotara Rafael legalmente. Teresa aparecia segurando o menino de doze anos. Marcelo e Caio, ainda crianças, estavam ao lado.
— Eu assinei que ele era meu filho — disse Renato. — Mas passei anos permitindo que vocês tratassem a adoção como favor revogável. Hoje tentam usar o preconceito que eu tolerei para esconder um crime.
Rafael não sorriu. A defesa pública vinha tarde e diante de uma plateia conveniente.
— Não quero que acreditem em mim porque ele me chama de filho — afirmou ao conselho. — Quero que leiam a perícia.
Os conselheiros leram. A prova resistia sem depender do afeto de ninguém.
Renato compreendeu a diferença: Marcelo e Caio sempre exigiam privilégios por serem filhos. Rafael exigia critérios para não depender de ser reconhecido como um.
Renato ouviu até o fim.
— Vocês passaram a vida competindo pela minha aprovação. No primeiro momento em que acharam que eu não podia falar, trabalharam juntos para me roubar.
Marcelo tentou aproximar-se.
— Eu mantive a empresa viva enquanto você nos tratava como estagiários.
— E decidiu me manter sedado.
Helena colocou a seringa lacrada sobre a mesa. O laboratório identificara uma dose capaz de causar parada respiratória num paciente debilitado.
Marcelo olhou para Paulo, que já estava detido.
— Eu pedi que ele evitasse uma recuperação inesperada. Não mandei matar ninguém.
— Obrigado pela confissão — disse a delegada.
Caio levantou as mãos.
— Eu não sabia da medicação.
— Mas sabia da fraude — respondeu Rafael. — E me chamou de parasita enquanto usava o dinheiro do pai para sustentar sua mentira.
O pai a encarou.
— Você trouxe ela pra isso?
— Eu vim porque o vô precisava de alguém que não estivesse calculando quanto valia cada respiração dele.
Marcelo olhou para a filha como se fosse uma desconhecida.
Renato anulou a votação, afastou os dois filhos e nomeou Lígia presidente interina. A polícia levou Paulo e Sérgio. Marcelo permaneceu livre enquanto a investigação avançava. Caio entregou o passaporte.
Do lado de fora, repórteres cercaram Renato.
— O senhor fingiu uma deficiência para testar a família?
— Fingi estar incapaz para investigar um crime. Minha família fez o resto sem ajuda.
A frase virou manchete.
Naquela noite, Marcelo entrou escondido na mansão usando uma chave antiga. Encontrou Renato no escritório.
— Vai mesmo me deserdar?
— Você tentou me interditar, roubar e drogar. O testamento é sua preocupação?
— Eu dei vinte anos àquela empresa.
— E tirou quarenta e oito milhões.
Marcelo bateu na mesa.
— Porque você nunca daria nada enquanto estivesse vivo!
Renato se levantou.
— Eu lhe dei um cargo que não merecia porque tinha meu sobrenome.
Marcelo respirou pesado.
— Caio vai fazer acordo e jogar tudo em mim.
— Provavelmente.
— E você vai deixar?
— Vou deixar a Justiça ouvir os dois.
Ao sair, Marcelo parou na porta.
— Você quer parecer vítima, mas criou isso. Fez a gente disputar cada migalha de atenção.
A frase encontrou lugar porque continha verdade.
Renato não a usou como desculpa para o filho. Também não conseguiu ignorá-la.