《Fingi Estar Paralítico Para Testar Meus Filhos — Os Dois de Sangue Foram Embora, e o "Intruso" Ficou》Capítulo 2

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O médico desconhecido chamava-se Paulo Ramires. Não examinou Renato. Limitou-se a ler o relatório falso e declarar que a incapacidade provavelmente seria permanente.

— Isso precisa constar num laudo — disse Sérgio.

— Posso preparar hoje.

Helena apoiou a mão no prontuário.

— O doutor Gustavo é o neurologista responsável.

— Marcelo quer uma segunda opinião.

— Sem consultar o paciente?

Sérgio olhou para a cama.

— A senhora acredita que ele vai reclamar?

Renato guardou a voz dentro da garganta.

O advogado tentou pressionar o polegar dele contra uma almofada de tinta. Helena puxou o braço do paciente para junto do corpo.

— Sem ordem judicial, ninguém coleta impressão digital.

— A senhora é enfermeira, não advogada.

— E o senhor está num quarto, não num cartório.

Sérgio saiu prometendo voltar.

À tarde, Marcelo reuniu o conselho e apresentou o laudo de Paulo. Pediu poderes emergenciais. A diretora financeira, Lígia Sampaio, exigiu uma perícia independente. Era a única executiva que ainda telefonara para perguntar se Renato precisava de algo.

Caio, enquanto isso, publicou uma fotografia antiga com o pai.

"Meu herói está lutando pela vida. Família acima de tudo."

A postagem recebeu duzentas mil curtidas. Caio não voltou à mansão.

Rafael voltou antes do almoço. Cancelara uma viagem técnica a Recife e pedira licença sem remuneração porque Marcelo se recusara a reconhecer o cuidado do pai como afastamento familiar. Deu banho em Renato com Helena, trocou os lençóis e leu em voz alta os e-mails urgentes da empresa, mesmo acreditando que o pai talvez não compreendesse.

— O Marcelo disse que eu não tenho autorização para entrar nas reuniões — contou. — Engraçado. Pra limpar o senhor, eu viro filho. Pra decidir qualquer coisa, volto a ser adotado.

Renato manteve os olhos fechados. A vergonha lhe queimou o rosto. Quantas vezes deixara a frase "vocês são irmãos" substituir uma defesa real? Quantas vezes pedira que Rafael fosse paciente para evitar enfrentar a crueldade dos outros dois?

Renato leu tudo no tablet que Helena escondia sob o lençol.

— Pelo menos a legenda ficou bonita — disse.

— Quer que eu curta?

— Quero que tire isso da minha frente.

No início da noite, chegou Laura, filha de Marcelo, vinte anos. Entrou sem maquiagem, mochila da faculdade no ombro. Aproximou-se da cama devagar.

— Oi, vô.

Renato quase abriu os olhos.

Laura sentou e segurou sua mão.

— Meu pai disse que o senhor não entende nada. A Helena disse que ninguém sabe. Então vou falar como se entendesse.

Contou sobre a prova de arquitetura, o estágio recusado e o medo de repetir o comportamento de Marcelo. Depois tirou um creme da mochila e massageou as mãos do avô.

— A vó fazia isso quando o senhor ficava no hospital. Eu lembro.

Renato perdeu a esposa, Teresa, havia quatro anos. Desde então, a casa funcionava como empresa: horários, relatórios, funcionários. Laura trouxera de volta uma intimidade que ele esquecera.

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— Eu fico até a Helena mandar embora — disse a jovem.

Ficou três horas.

Quando saiu, Renato abriu os olhos molhados.

— Não esperava isso dela.

— Talvez porque o senhor nunca tivesse parado para esperar nada — respondeu Helena.

Na manhã seguinte, Marcelo voltou com o laudo e uma ordem provisória assinada por um juiz plantonista. Tinha poderes limitados para decisões médicas. A primeira foi transferir o pai para uma clínica de longa permanência na periferia.

— A suíte custa caro demais — explicou a Helena, embora a casa pertencesse a Renato. — A clínica tem estrutura.

— O Grupo Valença possui três hospitais com neurologia.

— Justamente. Não quero imprensa fotografando meu pai em estado vegetativo numa unidade do grupo.

Estado vegetativo.

Renato fixou a frase na memória.

Marcelo aproximou-se da cama e falou perto do ouvido dele:

— Eu vou manter tudo funcionando. É o que você faria.

Depois tentou de novo usar o polegar do pai. Desta vez, Helena permitiu. O papel, porém, não era o que Sérgio esperava. Renato havia revestido o dedo com uma película transparente. A impressão saiu borrada.

— De novo — ordenou Marcelo.

O pai deixou a mão cair no chão.

Marcelo recuou assustado.

Por um instante, encarou os olhos semicerrados de Renato.

— Foi espasmo — disse Paulo.

Marcelo acreditou porque precisava acreditar.

Quando todos saíram, Helena encontrou dentro da pasta uma minuta de venda de vinte e dois por cento das ações para a Salus Consultoria.

A empresa que drenava dinheiro do grupo.

O comprador não era estranho.

O beneficiário final era Caio Valença.

Rafael chegou quando Helena ainda fotografava as páginas. Reconheceu o nome Salus. Seis meses antes, Marcelo mandara que aprovasse uma equipe terceirizada num hospital de Campinas. Não havia profissionais; apenas quatro "consultores" que permaneceram duas horas e cobraram oitocentos mil reais.

— Eu recusei a nota — contou. — No dia seguinte, o Marcelo tirou minha assinatura do sistema.

— Por que não falou comigo? — perguntou Renato.

— Falei. Sua secretária marcou quinze minutos. O senhor cancelou para almoçar com investidores.

Renato se lembrava do almoço. Não se lembrava do pedido do filho.

Rafael mostrou mensagens enviadas ao pai, todas respondidas por assistentes. Numa delas, avisava que Marcelo o pressionava a validar fornecedores. A resposta padronizada dizia: "Converse com seu irmão. Confio na liderança dele."

— Eu dei autoridade a ele e mandei você obedecer.

— Deu autoridade. A decisão de roubar foi dele.

Mesmo ferido, Rafael recusava a desculpa fácil que Marcelo usaria depois. Renato percebeu que o filho adotivo separava causa de responsabilidade melhor que todos os advogados do grupo.

— Você deveria ter ocupado uma cadeira no conselho.

— Eu deveria ter sido avaliado pelo meu trabalho. Não pela sua culpa de agora.

Helena fechou a pasta.

— Então façam isso depois. Primeiro, precisamos impedir a venda.

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