《Fingi Estar Paralítico Para Testar Meus Filhos — Os Dois de Sangue Foram Embora, e o "Intruso" Ficou》Capítulo 1

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Marcelo chegou à mansão às oito e sete da manhã. Caio apareceu às oito e vinte e três.

Nenhum perguntou por que o outro demorara.

Renato acompanhou os sons deitado na cama articulada da suíte: o motor alemão estacionando, os sapatos de couro no mármore, o toque eletrônico do celular de Marcelo; depois a música alta do carro de Caio, o assobio distraído, as chaves jogadas sobre a mesa.

Os olhos do pai permaneceram semicerrados.

O neurologista Gustavo Freire explicara o diagnóstico falso na noite anterior: uma isquemia extensa, comprometimento motor severo, fala ausente, compreensão incerta. Na verdade, Renato sofrera apenas uma crise de pressão e uma arritmia. Podia andar, falar e pensar com a mesma clareza de sempre.

Queria dez dias.

Dez dias para observar os filhos sem a proteção do próprio poder.

Marcelo entrou primeiro, já falando ao telefone.

— Cancela a reunião das nove. Não, a das dez fica. Meu pai está… estabilizado.

O intervalo antes da última palavra foi pequeno, mas Renato o ouviu.

Caio parou no pé da cama.

— Ele tá vendo a gente?

Helena ajeitou o soro.

— Os exames ainda não permitem afirmar quanto ele compreende.

— Então é um talvez.

— É uma pessoa, senhor Caio.

Marcelo encerrou a ligação.

— Vamos resolver o básico. Quem fica hoje?

Caio riu.

— Você mora a quinze minutos.

— Eu comando o grupo.

— Interinamente.

— Alguém precisa impedir que três mil funcionários entrem em pânico.

— E alguém precisa impedir que eu cancele uma viagem porque o velho resolveu travar justo agora.

Renato sentiu algo mais doloroso que raiva. Reconhecimento. Tinha ouvido a mesma impaciência na própria voz durante anos. Ao construir hospitais, faltara a aniversários, enterros e jantares. Transformara tempo em moeda e ensinara os filhos a fazer o mesmo.

Mas não os ensinara a chamar o pai de objeto.

Marcelo ajeitou o paletó.

— Eu não vou largar a empresa pra trocar fralda de velho.

Caio pegou as chaves.

— Põe ele numa clínica. Se nem fala, nem vai perceber.

Marcelo saiu primeiro. Caio o seguiu sem se despedir. A porta fechou duas vezes.

Dois minutos depois, Rafael entrou com uma bacia, toalhas e uma muda de pijama. Não sabia que Renato estava consciente. Pousou tudo, verificou a temperatura da água e ajeitou a manta sobre os pés do pai.

— Eles foram embora, mas eu fico — disse, acreditando não ser ouvido. — Mesmo que o senhor nunca tenha me defendido deles. A gente resolve isso depois, se o senhor voltar.

Renato moveu o indicador, abriu os olhos e se sentou.

Rafael deixou a toalha cair.

— Pai?

— Eles acabaram de escolher meu herdeiro. E não foi nenhum dos dois.

Helena saiu do banheiro de apoio. Rafael olhou para a prima, depois para o pai.

— Vocês armaram isso?

— Eu precisava descobrir quem roubava a empresa — respondeu Renato.

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— E me deixou acreditar que tinha perdido o movimento?

— Precisava que sua reação fosse verdadeira.

Rafael recuou.

— A minha sempre foi. O senhor é que nunca acreditou.

Fisicamente, Renato estava bem. A diferença entre estar vivo e estar inteiro nunca lhe parecera tão clara.

— O plano era manter a encenação por dez dias — explicou Helena.

— Então continuem — disse Rafael. — Mas eu não quero ser prêmio por meus irmãos serem monstros.

Renato retirou o sensor. Caminhou até a janela e viu os dois carros deixando a propriedade em direções opostas. Marcelo virou à direita, rumo à empresa. Caio, à esquerda, rumo ao aeroporto.

— Um de cada vez — murmurou Renato. — Nem tiveram coragem de ir embora juntos.

Rafael permaneceu longe da janela.

— Não me coloque no testamento por causa desta manhã.

— Por que não?

— Porque cuidado não é leilão. Se quiser confiar em mim na empresa, faça isso quando eu estiver na sala e puder responder. Não enquanto eles acham que o senhor morreu por dentro.

Helena não ofereceu consolo. Era uma das razões pelas quais ele confiava nela.

— O senhor queria descobrir quem autorizou os pagamentos para a Salus Consultoria — lembrou.

— Quero mais do que isso agora.

Abriu a gaveta e retirou o testamento. Marcelo receberia quarenta por cento das ações. Caio, vinte. O restante seria dividido entre fundações e executivos.

Renato pegou uma caneta, mas Helena segurou a pasta antes que ele riscasse.

— Não mude um império com raiva de cinco minutos.

Ele a encarou.

— Não foi o que ouviu?

— Ouvi dois filhos cruéis. Também ouvi um homem ferido querendo ferir de volta. Se quer a verdade, continue o teste.

Renato soltou a caneta.

— Você fala assim com todos os pacientes?

— Só com os que podem me demitir.

O telefone interno tocou. A governanta avisou que Marcelo havia enviado um representante jurídico. Um homem chamado Sérgio Antunes chegaria em meia hora com documentos de tutela provisória.

Renato voltou para a cama.

— Parece que meu filho não perdeu tempo.

Helena recolocou o sensor.

— Então não dê a ele o que veio buscar.

Sérgio entrou acompanhado de um médico que Renato nunca vira. O advogado não falou com o suposto incapaz. Abriu uma pasta sobre o peito dele e explicou a Helena que Marcelo precisava assumir decisões empresariais e médicas.

— A assinatura do senhor Renato não é possível, mas uma impressão digital basta.

Helena fechou a pasta.

— Basta para quem?

Sérgio sorriu.

— Para a família.

Naquele instante, Renato entendeu que o teste já não era apenas emocional. Marcelo não queria cuidar do pai.

Queria usar a mão imóvel para roubar-lhe a empresa.

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