《O Anel Que Trouxe Minha Esposa de Volta》Parte 1

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O sábado começou como muitos outros na vida de Gabriel Augusto Almeida. O sol forte de São Paulo iluminava as ruas da Liberdade, enquanto milhares de pessoas caminhavam entre barracas coloridas, músicas tradicionais e o cheiro de doces, pastéis e comidas japonesas espalhado pelo ar.

Gabriel segurava a mão da filha, Sofia Almeida, enquanto ela observava as luzes da Feira da Liberdade. Durante anos, aquele passeio tinha sido uma tradição dos dois. Desde que Helena Ribeiro Almeida morreu, dez anos antes, ele fazia questão de criar pequenas lembranças para a filha.

Sofia sempre esperava ansiosa por aquele dia.

Ela gostava das brincadeiras, dos brinquedos simples vendidos nas barracas e principalmente dos pequenos presentes que Gabriel comprava escondido para surpreendê-la.

Mas naquele sábado havia algo diferente.

Ela não sorria.

Não pedia nada.

Não corria entre as barracas como sempre fazia.

Gabriel percebeu logo nos primeiros minutos.

Ele conhecia cada expressão da filha. Sabia quando ela estava feliz, quando estava com medo e até quando tentava esconder alguma coisa.

E naquele dia, Sofia escondia algo.

Ele se abaixou ao lado dela perto de uma barraca de doces e perguntou com carinho:

"Filha, está tudo bem? Você não gostou da feira hoje?"

Sofia levantou os olhos lentamente.

Seus olhos estavam distantes, como se sua cabeça estivesse em outro lugar.

"Eu gostei, papai."

Mas a resposta veio baixa demais.

Gabriel sorriu tentando aliviar o clima.

"Então por que parece que você está preocupada?"

Sofia apenas apertou a mão dele.

Durante quase toda a tarde, Gabriel tentou fazer a filha voltar a ser a menina alegre de sempre.

Comprou um doce que ela adorava.

Levou até uma barraca de brinquedos.

Deixou que ela escolhesse um pequeno presente.

Mas Sofia continuava olhando para todos os lados.

Como se procurasse alguém.

Ou como se tivesse medo de encontrar alguém.

Quando o céu começou a ficar alaranjado e as primeiras luzes da feira começaram a acender, Gabriel percebeu que a filha estava ainda mais nervosa.

Ela parou de repente no meio da multidão.

Gabriel quase esbarrou nela.

"Sofia?"

A menina não respondeu.

Ela olhava fixamente para uma pequena barraca no final da feira.

Uma tenda escura, cheia de objetos antigos, cartas e símbolos pendurados.

Na frente havia uma placa escrita:

Dona Célia — Leituras e Segredos da Alma.

Gabriel franziu a testa.

Ele não gostava daquele tipo de coisa.

Nunca acreditou em previsões ou pessoas que diziam conhecer o destino dos outros.

Principalmente quando envolvia crianças.

Ele segurou o ombro da filha.

"Vamos embora, Sofia. Já está ficando tarde."

Mas naquele momento aconteceu algo que ele nunca esqueceria.

A menina segurou o braço dele com força.

"Papai..."

A voz dela tremia.

Gabriel imediatamente ficou preocupado.

"Fala comigo. O que aconteceu?"

Sofia olhou para a barraca novamente.

Depois olhou para ele.

E começou a chorar.

Não era um choro comum.

Era um choro preso há muito tempo.

Um choro de alguém que carregava um segredo grande demais para uma criança de dez anos.

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"Eu preciso te mostrar uma coisa."

Gabriel sentiu o coração apertar.

Ele se ajoelhou diante dela.

"Sofia, você está me assustando."

A menina respirou fundo.

Então abriu lentamente a mão que estava fechada desde o começo da tarde.

No centro da pequena palma havia um objeto antigo.

Um anel de ouro.

Gabriel ficou completamente imóvel.

Por alguns segundos, o barulho da feira desapareceu.

As músicas.

As vozes.

As pessoas caminhando.

Tudo ficou distante.

Porque aquele anel não era desconhecido.

Ele conhecia cada pequeno risco naquela peça.

Conhecia a marca quase apagada na parte interna.

Conhecia aquela joia melhor do que qualquer pessoa.

Era o anel de Helena.

O anel que ele tinha colocado nas mãos da esposa antes do caixão ser fechado.

O anel que ele tinha enterrado junto com o amor da sua vida dez anos atrás.

Gabriel sentiu o rosto perder a cor.

Ele pegou o anel com mãos tremendo.

"Não..."

A palavra saiu quase como um sussurro.

Sofia começou a chorar ainda mais.

"Papai, eu não queria te deixar triste."

Gabriel olhava para o anel sem conseguir respirar direito.

"De onde você tirou isso?"

A menina abaixou a cabeça.

"Uma mulher me deu."

Gabriel levantou rapidamente os olhos.

"Que mulher?"

Sofia apontou para a tenda no final da feira.

"Aquela."

O coração de Gabriel acelerou.

"Você falou com aquela mulher?"

Sofia confirmou com a cabeça.

"Ela sabia o nome da mamãe."

Gabriel ficou em silêncio.

"Ela disse que minha verdadeira mãe está esperando por nós."

A frase atingiu Gabriel como uma tempestade.

Ele olhou para a filha sem entender.

"Como assim sua verdadeira mãe?"

Sofia segurou a mão dele.

"Papai... ela disse que a mamãe Helena nunca foi embora."

Gabriel sentiu uma mistura de raiva e medo.

Ele não sabia se estava diante de uma mentira cruel ou de algo impossível.

Depois de dez anos tentando aceitar a morte de Helena, alguém aparecia dizendo que tudo aquilo poderia ter sido uma mentira.

Ele caminhou até a barraca.

Sofia foi atrás dele.

Dentro da tenda, uma senhora de cabelos brancos organizava algumas cartas sobre uma mesa.

Ela parecia ter mais de sessenta anos.

Seu nome era Dona Célia Ferreira.

Quando ela levantou os olhos e viu Gabriel parado na entrada, seu rosto mudou completamente.

As cartas caíram de suas mãos.

Ela ficou alguns segundos olhando para ele.

Como se estivesse vendo um fantasma.

"Você..."

Gabriel ficou desconfiado.

"Você conhece minha filha?"

Dona Célia olhou para Sofia.

Depois para o anel.

Seus olhos começaram a se encher de lágrimas.

"Eu sabia que um dia você viria."

Gabriel sentiu um arrepio.

"Quem é você?"

A senhora se levantou lentamente.

Sua expressão carregava tristeza e medo.

"Meu nome é Célia Ferreira. Eu conheci Helena."

Gabriel ficou rígido.

"Ninguém fala esse nome como se conhecesse minha esposa."

Dona Célia respirou fundo.

"Porque eu conheci a mulher que todos acreditaram ter perdido."

Gabriel deu um passo para trás.

"Minha esposa morreu há dez anos."

A senhora balançou a cabeça.

"Não."

O silêncio tomou conta da pequena tenda.

Dona Célia olhou diretamente nos olhos dele.

"Helena Ribeiro Almeida não morreu."

Gabriel sentiu o chão desaparecer.

Ele queria negar.

Queria rir daquela situação absurda.

Mas o anel nas mãos dele era real.

A marca era real.

A lembrança era real.

Dona Célia abriu uma pequena caixa de madeira guardada embaixo da mesa.

Dentro havia vários documentos antigos e uma fotografia amarelada.

Ela segurou a foto com cuidado.

"Eu guardei isso por dez anos."

Gabriel se aproximou lentamente.

Dona Célia entregou a imagem para ele.

Quando seus olhos encontraram a fotografia, sua respiração parou.

Era Helena.

Mais jovem.

Sorrindo.

Segurando um bebê nos braços.

A pequena Sofia.

Mas havia alguém ao lado dela.

Um homem desconhecido.

Um homem que Gabriel nunca tinha visto em toda sua vida.

E no verso da fotografia havia uma data escrita:

O mesmo dia em que Helena deveria ter morrido.

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