O silêncio dentro do galpão abandonado parecia mais assustador do que os disparos.
Alexandre continuava parado no mesmo lugar.
A pasta vazia ainda estava em suas mãos.
A poucos minutos atrás, ele acreditava que finalmente conseguiria colocar Marcos atrás das grades.
Acreditava que aquela noite seria o fim.
Mas tudo tinha acabado da pior maneira possível.
Marcos tinha desaparecido.
Ricardo tinha desaparecido.
E Clara também.
"Clara!"
Alexandre gritou novamente.
Sua voz ecoou pelas paredes frias do galpão.
Nenhuma resposta.
Victor chegou rapidamente até ele.
"Alexandre, precisamos sair daqui."
Ele se virou imediatamente.
"Não."
Victor ficou sério.
"Esse lugar não é seguro."
"Minha esposa está desaparecida."
A voz de Alexandre carregava desespero.
"Eu não vou embora sem ela."
Durante meses, Clara tinha protegido Alexandre.
Tinha aceitado ser odiada.
Tinha deixado todos acreditarem que era uma mulher ambiciosa.
E agora, pela primeira vez, Alexandre percebeu que era ele quem precisava lutar por ela.
Os agentes começaram a procurar pistas pelo local.
Encontraram marcas de pneus.
Câmeras destruídas.
E um celular quebrado próximo à saída dos fundos.
Victor pegou o aparelho.
O rosto dele mudou.
"O que foi?"
Alexandre perguntou.
Victor mostrou a tela.
"Ricardo apagou todas as informações antes de fugir."
Alexandre apertou os punhos.
"O policial que deveria prender Marcos estava ajudando ele."
Victor confirmou.
"E não era de hoje."
Eles voltaram para a sede da Polícia Federal em São Paulo durante a madrugada.
A investigação revelou algo ainda pior.
Ricardo Nunes tinha acesso a relatórios internos há quase um ano.
Ele sabia dos movimentos da equipe.
Sabia dos mandados.
Sabia das operações planejadas.
E sempre avisava Marcos antes.
Cada tentativa de capturar o empresário havia sido comprometida.
Victor colocou todos os documentos sobre a mesa.
"Ricardo não era apenas um informante."
Alexandre olhou para ele.
"Então o que ele era?"
Victor respondeu:
"Era parte do esquema."
O ambiente ficou pesado.
Durante anos, Marcos tinha construído uma rede.
Funcionários.
Empresas falsas.
Contatos dentro da polícia.
Ele não era apenas um homem roubando dinheiro.
Era alguém que acreditava estar acima da lei.
Mas havia uma coisa que ainda preocupava todos.
Clara.
Ela conhecia muitos detalhes da investigação.
Se Marcos acreditasse que ela poderia entregar provas contra ele, ela se tornaria o maior risco para ele.
Alexandre olhou para Victor.
"Ele vai tentar silenciar ela."
Victor não respondeu.
Porque os dois sabiam que aquela possibilidade era real.
Naquele momento, Alexandre recebeu uma mensagem.
Um número desconhecido.
Apenas uma frase.
"Pare de procurar sua esposa."
O rosto dele mudou.
Victor imediatamente pediu o telefone.
Mas a mensagem desapareceu segundos depois.
Alexandre ficou furioso.
"Ele está brincando comigo."
Victor respondeu:
"Não."
Ele analisou a situação.
"Ele está tentando controlar você."
Durante anos, Alexandre sempre foi o homem que tomava decisões.
O homem que ninguém conseguia pressionar.
Mas agora o inimigo tinha encontrado seu ponto mais fraco.
Clara.
Horas depois, uma nova informação chegou.
Um agente encontrou imagens de uma câmera de segurança próxima ao porto.
Nelas aparecia um carro saindo do galpão.
O motorista era Ricardo.
Mas no banco traseiro estava Marcos.
E Clara.
Ela estava viva.
Alexandre sentiu um alívio imediato.
Mas desapareceu rapidamente.
Porque eles não sabiam para onde o carro tinha ido.
Victor ampliou a imagem.
Encontrou uma placa parcialmente visível.
Começaram uma busca.
O veículo tinha passado por diferentes ruas até chegar a uma região afastada de São Paulo.
Um antigo depósito industrial.
Victor organizou uma equipe.
Mas antes de sair, olhou para Alexandre.
"Você fica aqui."
Alexandre ficou surpreso.
"O quê?"
"Isso é uma operação policial."
"Minha esposa está lá."
Victor manteve o olhar firme.
"Exatamente por isso."
Alexandre deu um passo à frente.
"Durante todo esse tempo, Clara ficou sozinha enfrentando Marcos."
Ele respirou fundo.
"Ela fingiu ser uma traidora para me proteger."
Victor ficou em silêncio.
Alexandre continuou:
"Eu deixei ela carregar tudo sozinha."
Pela primeira vez, Victor percebeu que aquela não era apenas uma missão.
Era uma dívida que Alexandre precisava pagar.
A equipe chegou ao depósito antes do amanhecer.
O local parecia abandonado.
Mas havia sinais de movimento.
Alexandre estava junto dos agentes.
Victor tentou impedir.
Mas ele não aceitou ficar distante.
Dentro do depósito, Clara estava sentada em uma cadeira.
Ela parecia cansada.
Mas estava consciente.
Marcos caminhava diante dela.
"Você quase conseguiu."
Clara não respondeu.
Ele continuou:
"Durante meses eu achei que você era apenas uma mulher inteligente tentando ganhar dinheiro."
Ele sorriu.
"Mas você estava jogando contra mim."
Clara levantou os olhos.
"Você nunca conheceu meu verdadeiro objetivo."
Marcos riu.
"Seu objetivo era salvar Alexandre."
Ela ficou em silêncio.
E isso confirmou tudo.
Marcos se aproximou.
"Você sabe qual foi seu maior erro?"
Clara olhou para ele.
"Qual?"
"Você começou a amar alguém que poderia destruir meu plano."
Naquele momento, um barulho veio da entrada.
Marcos virou rapidamente.
A porta foi aberta.
Os agentes entraram.
"Polícia Federal!"
Tudo aconteceu em segundos.
Marcos tentou fugir.
Ricardo tentou impedir os agentes.
Mas Alexandre entrou antes que qualquer um pudesse agir.
Ele foi direto até Clara.
Ela olhou para ele surpresa.
"Alexandre?"
Ele se aproximou.
Pela primeira vez em muitos dias, não havia dúvida no olhar dele.
Apenas certeza.
Ele desamarrou as mãos dela.
"Você está bem?"
Clara segurou o braço dele.
"Você não deveria estar aqui."
Ele respondeu:
"Eu passei tempo demais deixando você me proteger."
Fez uma pausa.
Olhou nos olhos dela.
"E dessa vez, sou eu quem vai proteger você."
Clara ficou emocionada.
Mas antes que pudesse responder, um barulho chamou a atenção de todos.
Ricardo tinha conseguido escapar pela saída lateral.
Victor percebeu.
"Marcos também!"
Os agentes correram atrás.
Mas chegaram tarde demais.
Do lado de fora, um veículo já desaparecia na estrada.
Alexandre observou o carro se afastando.
Marcos tinha perdido a vantagem.
Mas ainda estava livre.
Victor voltou alguns minutos depois.
A expressão dele dizia tudo.
"Ele fugiu."
Alexandre fechou os olhos.
Depois de tudo.
Depois de todas as provas.
Depois de tudo que Clara sacrificou.
Marcos ainda estava solto.
Mas havia algo pior.
Victor recebeu uma última informação pelo rádio.
Ele ficou completamente sério.
"O que aconteceu?"
Alexandre perguntou.
Victor demorou alguns segundos para responder.
Então disse:
"Encontramos o destino para onde Marcos está indo."
Clara ficou pálida.
"Para onde?"
Victor olhou para os dois.
"Para a antiga propriedade da família Montenegro."
Alexandre sentiu o coração parar.
Porque aquele lugar guardava os maiores segredos da família.
E talvez também guardasse a verdade sobre seu pai.