"Quem?"
Ela virou a tela para mim.
Convocação extraordinária do conselho de administração.
Data.
Horário.
Nove da manhã do dia seguinte.
Videoconferência obrigatória.
Meu nome aparecia entre os participantes.
Depois Augusto Ferraz.
Marcelo Tavares.
Representantes dos investidores.
Seguradora.
Assessoria jurídica.
E, no fim da lista, um nome.
Eduardo Duarte.
Olhei para Lívia.
"Ele vai participar?"
"Vai."
"De onde?"
"Escritório do advogado."
"Mesmo sendo investigado?"
"Enquanto ainda tiver cargo e participação formal, ele tem direito de se defender."
Olhei novamente para a tela.
Meu peito ficou frio.
Lívia falou baixo.
"Amanhã, às nove, Eduardo vai tentar convencer o conselho de que você perdeu o controle."
Olhei para Sofia dormindo ao meu lado.
Depois para o nome do homem com quem eu tinha dividido doze anos da minha vida.
"Então amanhã ele vai descobrir que eu nunca estive tão lúcida."
PARTE 9
A Reunião
Três dias depois do nascimento de Sofia, eu participei da reunião que decidiria o futuro da VittaSul com minha filha dormindo no colo.
Eu ainda sentia dor para levantar.
Meu joelho estava roxo.
Meu corpo inteiro parecia cansado.
Mas minha cabeça estava clara.
Muito mais clara do que Eduardo gostaria.
Às oito e cinquenta e quatro da manhã, Lívia entrou no quarto do hospital com o notebook aberto.
"Está pronta?"
Olhei para Sofia.
"Não."
Lívia parou.
"Quer adiar?"
"Não."
"Então?"
"Eu não estou pronta."
Respirei fundo.
"Mas vou fazer mesmo assim."
Ela assentiu.
Era por isso que eu gostava de Lívia.
Ela não tentava transformar coragem em ausência de medo.
Apenas colocava a cadeira no lugar certo e continuava.
Às oito e cinquenta e oito, Gabriel entrou.
Sem barba falsa.
Sem casaco sujo.
Camisa azul-marinho.
Olheiras fundas.
"Como está a pequena?"
"Melhor do que todos nós."
Ele sorriu.
"Ótimo."
"Vanessa?"
"Advogado mandou ela parar de falar."
"Finalmente alguém inteligente na equipe dela."
Gabriel quase riu.
Lívia abriu os arquivos.
"Vamos revisar uma última vez."
"Não precisa."
"Helena."
"Eu sei tudo."
"Mesmo assim."
Ela começou a listar.
"Oito fornecedores."
"Sim."
"Quarenta e três notas alteradas."
"Sim."
"R$ 46,8 milhões identificados."
"Sim."
"Prime Health ligada a Renato Albuquerque."
"Sim."
"Transferências internacionais."
"Sim."
"Paris."
"Sim."
Lívia parou.
"E o e-mail."
Olhei para ela.
"Principalmente o e-mail."
Às nove em ponto, entramos.
A tela se dividiu em vários quadrados.
Augusto Ferraz apareceu primeiro.
Cabelos brancos.
Terno escuro.
Rosto cansado.
Ele presidia o conselho havia seis anos.
Tinha sido um dos primeiros investidores da VittaSul.
Depois apareceram dois representantes do fundo.
Uma representante da seguradora.
O jurídico externo.
Marcelo.
Ele parecia péssimo.
Olhou para a câmera.
Depois desviou.
Por último, Eduardo entrou.
Estava num escritório que eu não conhecia.
Provavelmente do advogado.
Camisa branca.
Paletó escuro.
Sem gravata.
A aparência tinha sido cuidadosamente montada para parecer cansado, mas digno.
A vítima de uma crise.
Não o homem no centro dela.
Quando me viu com Sofia no colo, ficou imóvel.
Eu também.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Augusto pigarreou.
"Bom dia."
Alguns responderam.
Eu não.
Eduardo olhava para Sofia.
"Ela está bem?"
A pergunta veio baixa.
Augusto fechou os olhos por um segundo.
"Eduardo, vamos manter a reunião no assunto."
"Ela é minha filha."
Eu respondi pela primeira vez.
"Ela está bem."
Ele respirou.
"Eu quero ver ela."
"Hoje não."
"Helena."
"Hoje não."
Augusto interrompeu.
"Por favor."
Eu olhei para a tela.
"Pode começar."
Augusto juntou as mãos.
"Estamos reunidos em caráter extraordinário para tratar de três questões."
Pausa.
"Bloqueios financeiros recentes."
Outra.
"Indícios de irregularidades envolvendo fornecedores."
E então:
"E a situação da presidência executiva."
Eduardo mexeu no corpo.
"Augusto, antes que Helena comece essa encenação..."
Lívia olhou para mim.
Eu permaneci em silêncio.
Augusto levantou a mão.
"Você terá espaço."
"Preciso falar agora."
"Eduardo."
"Isso é uma crise conjugal sendo transformada em crise corporativa."
Meu peito ficou frio.
Ali estava.
Exatamente como Lívia tinha previsto.
Ele continuou.
"Helena acabou de passar por um parto traumático."
Gabriel baixou os olhos.
Eduardo prosseguiu.
"Descobriu uma relação extraconjugal."
Ninguém se mexeu.
"Está emocionalmente abalada."
Lívia respirou fundo.
Eu toquei o braço dela.
Não.
Ainda não.
Eduardo percebeu meu silêncio e avançou.
"Ela acessou informações financeiras fora da rotina operacional."
"Eu tinha acesso", falei.
"Você tinha acesso residual."
"Acionário e jurídico."
"Você não fazia parte da gestão diária."
"Isso não elimina meus direitos."
Augusto levantou a mão.
"Vamos manter ordem."
Eduardo inclinou-se para frente.
"Eu só quero que todos entendam o contexto."
"Qual contexto?", perguntou a representante da seguradora.
"Helena está com raiva."
A mulher não reagiu.
Eduardo continuou.
"E com razão."
Meu estômago se contraiu.
Ele estava fazendo aquilo de propósito.
Admitia uma parte pequena para deslegitimar o resto.
"Eu errei no casamento."
Silêncio.
"Mas erro conjugal não é fraude."
Augusto olhou para ele.
"Você está dizendo que os bloqueios foram retaliação?"
"Sim."
Lívia virou o rosto para mim.
Eu continuei quieta.
Eduardo seguiu.
"Ela descobriu Vanessa."
Pausa.
"Entrou em trabalho de parto."
Pausa.
"E, num momento de estresse extremo, acionou mecanismos que não compreendia plenamente."
Foi a última vez que ele tentou me transformar em alguém menor.
Eu coloquei Sofia no berço hospitalar.
Ajustei a manta.
Depois olhei para a câmera.
"Terminou?"
Eduardo fechou a boca.
"Helena."
"Eu perguntei se terminou."
Augusto falou:
"Você terá sua vez."
"Eu sei."
Olhei para Eduardo.
"Eu só quero ter certeza de que ele terminou."
Eduardo passou a língua pelos lábios.
"Por enquanto."
"Ótimo."
Cliquei no notebook.
"Vou compartilhar minha tela."
Lívia não falou.
Gabriel também não.
A primeira planilha apareceu.
Oito nomes.
MedTrans Brasil Soluções Térmicas.
Prime Health Operações.
BioAxis Consultoria.
LogCare Serviços Integrados.
E outras quatro.
Augusto franziu a testa.
"O que é isso?"
"Oito fornecedores da VittaSul."
Eduardo falou imediatamente.
"Fornecedores reais."
"Vamos descobrir."
Cliquei.
A primeira ficha apareceu.
"MedTrans recebeu mais de R$ 2 milhões."
"Prestou serviço."
"Qual?"
"Transporte refrigerado."
"Quantos veículos?"
Silêncio.
"Eduardo?"
Ele não respondeu.
"Zero."
Cliquei.
"Dois funcionários registrados."
Outro clique.
"Sede administrativa numa sala comercial sem estrutura logística."
Augusto se inclinou para a tela.
"Isso foi verificado?"
Gabriel respondeu.
"Sim."
Eduardo entrou.
"Isso não prova ausência de terceirização."
"Correto", eu disse.
Cliquei novamente.
"Por isso temos as notas."
Quarenta e três documentos apareceram.
"Essas notas foram cruzadas com os registros operacionais."
Augusto aproximou o rosto.
"Quarenta e três?"
"Alteradas ou sem comprovação suficiente."
Eduardo bateu na mesa.
"Isso é interpretação."
"Então vamos aos valores."
Abri outra planilha.
"R$ 46,8 milhões."
Silêncio.
Até Eduardo parou.
A representante da seguradora falou.
"Valor total identificado?"
"Até agora."
"Até agora?"
"Sim."
Augusto olhou para Eduardo.
"Você sabia?"
"Eu sabia dos pagamentos."
"Dos R$ 46,8 milhões?"
"Não dessa forma."
"Qual forma?"
"Helena está somando contratos diferentes para criar impacto."
Eu cliquei.
"Ótimo."
Apareceram fluxos bancários.
"Então vamos separar."
Mostrei empresa por empresa.
Data por data.
Pagamentos da VittaSul.
Transferências subsequentes.
Contas intermediárias.
Instituições financeiras.
Rotas.
O rosto de Eduardo começou a mudar.
Não muito.
Mas eu conhecia aquele rosto.
Conhecia cada pequeno músculo dele.
Ele estava assustado.
Augusto perguntou:
"Quem preparou essa análise?"
"Eu."
Eduardo riu.
"Claro."
"Com apoio."
"De quem?"
Gabriel apareceu mais perto da câmera.
"Meu."
Eduardo ficou imóvel.
Gabriel falou:
"Gabriel Nogueira."
"Eu sei quem você é."
"Imagino."
Augusto olhou para ele.
"Qual seu papel?"
"Investigação financeira independente."
"Contratado por?"
"Helena Duarte."
Eduardo apontou.
"Está vendo?"
Augusto ignorou.
"Tem documentação?"
Gabriel respondeu.
"Tem."
"Completa?"
"Rastreável."
A seguradora entrou.
"Nós recebemos parte."
Eduardo olhou para ela.
"Parte?"
"Sim."
"O quê?"
"Relatórios preliminares."
"Sem minha autorização?"
Ela respondeu friamente.
"Não precisávamos."
Eduardo recostou.
Eu continuei.
"Agora Prime Health."
A ficha apareceu.
Renato de Albuquerque Filho.
O rosto de Augusto mudou.
"Albuquerque?"
"Sim."
"Parente de Vanessa?"
"Irmão."
Eduardo levantou a voz.
"Isso não quer dizer nada."
"Eu concordo."
Ele parou.
"Então por que está mostrando?"
"Porque Vanessa participou da análise estratégica do contrato."
Cliquei.
O documento apareceu.
Assinatura digital.
Parecer.
Encaminhamento.
"Depois, a empresa do irmão dela recebeu milhões."
A seguradora anotou alguma coisa.
Eduardo falou:
"Conflito de interesse é diferente de fraude."
"Correto."
Cliquei novamente.
"Por isso não parei aí."
Apareceram transferências internacionais.
Uma para instituição intermediária.
Outra para conta vinculada no exterior.
Outra para Luxemburgo.
Augusto não escondia mais a preocupação.
"Quem autorizou?"
"Em parte, Eduardo."
Ele respondeu imediatamente.
"Rotina financeira."
"Em parte, Marcelo."
Todos olharam para a tela dele.
Marcelo parecia querer desaparecer.
Eduardo aproveitou.
"Exatamente."
Virou-se para Marcelo.
"Você aprovou."
Marcelo não respondeu.
"Marcelo."
Silêncio.
Eduardo insistiu.
"Você sabe que aprovou."
Marcelo levantou os olhos.
"Não."
A palavra foi pequena.
Mas tudo parou.
Eduardo franziu a testa.
"Como?"
Marcelo respirou fundo.
"Eu não aprovei."
"Não começa."
"Eu não aprovei algumas dessas notas."
"Seu token está lá."
"Eu sei."
"Então aprovou."
"Não."
Eduardo olhou para Augusto.
"Ele está nervoso."
Marcelo fechou os olhos.
Quando abriu, havia alguma coisa diferente.
Talvez cansaço.
Talvez vergonha.
Talvez coragem.
"Helena me mostrou uma nota."
Meu peito apertou.
Ele continuou.
"Prime Health."
Eduardo falou:
"Marcelo."
Ele ignorou.
"R$ 1,2 milhão."
Augusto perguntou:
"E?"
Marcelo respirou.
"Minha assinatura eletrônica aparece como aprovação."
"Mas?"
"Eu nunca aprovei."
Eduardo bateu na mesa.
"Isso é mentira."
Marcelo virou para a câmera.
"Não é."
"Você está tentando salvar seu emprego."
"Não."
"Então por quê?"