Gabriel olhou para o casaco velho no banco traseiro.
Fazia parte de uma cobertura usada dias antes.
"Tenho uma ideia."
"Gabriel."
"Vou tirar ela de lá."
Foi assim que o homem que encontrei atrás da coluna apareceu vestido como alguém que dormia na rua.
Não para me enganar.
Para continuar invisível.
E funcionou.
Até Vanessa aparecer.
Ela tinha recebido uma mensagem de Eduardo.
Não uma ordem para me machucar.
Apenas uma confirmação.
Eu estava no estacionamento.
Sozinha.
Vanessa deveria verificar se eu permanecia ali tempo suficiente para Eduardo seguir sem imprevistos.
Mas Vanessa já não era racional quando o assunto era Sofia.
Para ela, minha filha significava mais uma promessa adiada.
Mais uma razão para Eduardo dizer "depois".
Mais uma prova de que, apesar de tudo que ele dizia na cama dela, eu continuava sendo a esposa.
Então ela entrou naquele estacionamento querendo confirmar uma coisa.
E saiu do controle.
Quando o salto vermelho pressionou meu joelho, quando ela cuspiu no meu rosto e anunciou Paris, Vanessa acreditava que estava destruindo a última parte da minha dignidade.
Na verdade, estava produzindo prova.
Agora estávamos de volta ao mesmo ponto.
A luz verde da câmera piscava no peito de Gabriel.
Vanessa estava pálida.
"Desliga isso."
Gabriel não se mexeu.
"Não."
"Você não tinha direito de me gravar."
"Isso você discute com seu advogado."
"Apaga."
"Não."
Vanessa avançou.
Gabriel recuou.
"Não encosta."
"Me dá essa câmera."
"Vanessa."
Ela virou para mim.
O telefone ainda estava em sua mão.
"Você fez isso de propósito."
"Eu não mandei você me agredir."
"Você me provocou."
"Eu estava tendo um bebê."
"Você sabia que ele estava aqui."
"Sabia."
"Você armou tudo."
"Não."
"Mentira!"
Ela apontou para Gabriel.
"Esse homem estava esperando."
"Ele estava me protegendo."
"De mim?"
"De Eduardo."
Vanessa parou.
O nome atingiu algum lugar sensível.
"Eduardo nunca machucaria você."
Olhei para o chão.
"Ele me deixou aqui."
Vanessa apertou os lábios.
"Porque você mereceu."
Gabriel deu um passo.
"Chega."
Então ouvimos.
Sirene.
Distante.
Mas clara.
Vanessa virou a cabeça.
Outra sirene respondeu.
Mais perto.
"Você chamou a polícia?"
Gabriel não respondeu.
Ela olhou para mim.
"Foi o relógio."
Eu mantive silêncio.
Vanessa avançou.
"Me dá."
Ela agarrou meu braço.
Dessa vez, eu reagi.
Minha mão fechou em torno do pulso dela.
Forte.
Vanessa arregalou os olhos.
Não esperava resistência.
Nem eu sabia que ainda tinha força.
"Solta."
"Não."
"Você está me machucando."
Quase ri.
"Você achou que a dor me deixaria fraca."
Vanessa tentou puxar o braço.
Apertei mais.
"Solta!"
Olhei diretamente para ela.
"Só me fez parar de perder tempo."
A sirene ficou mais alta.
Luzes vermelhas e azuis começaram a refletir nas paredes de concreto.
Vanessa puxou o braço com violência e conseguiu se soltar.
Olhou para a rampa.
Depois para Gabriel.
Depois para mim.
"Eu não vou ser presa por sua causa."
"Então não devia ter feito nada que pudesse levar você à prisão."
"Você vai pagar por isso."
"Entra na fila."
Passos ecoaram no andar superior.
Vozes.
"Polícia!"
Vanessa pegou a bolsa.
Gabriel percebeu.
"Não corre."
Ela recuou.
"Não chega perto de mim."
"Fica onde está."
"Vai para o inferno."
Vanessa virou e começou a correr em direção à saída lateral.
Ao mesmo tempo, do outro lado de São Paulo, Eduardo chegava ao setor de aviação privada.
O carro preto parou diante do terminal.
Ele desceu olhando para o celular.
Três alertas bancários.
Dois cartões bloqueados.
Uma transferência congelada.
Eduardo ligou para Vanessa.
Nada.
Ligou novamente.
Nada.
Um funcionário se aproximou.
"Senhor Duarte?"
"Sim."
"Seu voo está sendo preparado."
Eduardo soltou o ar.
Pela primeira vez naquela noite, pareceu acreditar que ainda conseguiria sair.
Pegou a mala.
Olhou para a pista.
O avião estava ali.
Tão perto.
Então dois homens de terno atravessaram a porta de vidro do terminal.
Atrás deles, um policial uniformizado.
Eduardo ainda não tinha percebido.
Mas eles já sabiam exatamente quem estavam esperando.
PARTE 7
Ninguém Vai Para Paris
Vanessa correu.
O som dos saltos vermelhos explodiu pelo estacionamento enquanto as luzes da viatura riscavam as paredes de concreto.
"Senhora, pare!"
Ela não parou.
Apertou a bolsa contra o corpo e correu em direção à rampa lateral.
"Eu mandei parar!"
Um dos policiais desceu dois degraus de uma vez.
Vanessa tentou mudar de direção.
Não conseguiu.
Outro agente apareceu pela passagem lateral.
Ela freou bruscamente.
Olhou para um lado.
Depois para o outro.
Gabriel permanecia perto de mim.
"Acabou", ele disse.
Vanessa virou.
"Você cala a boca."
Sua voz já não tinha a mesma segurança.
O policial mais próximo se aproximou devagar.
"Senhora, coloque a bolsa no chão."
"Eu não fiz nada."
"Coloque a bolsa no chão."
"Eu sou vítima."
Gabriel ergueu uma sobrancelha.
Vanessa apontou para mim.
"Foi ela."
Eu ainda estava sentada no chão.
Apoiada contra a coluna.
Suada.
Com o joelho latejando.
A barriga dura.
Gabriel olhou para mim.
"Não fala."
Eu assenti.
Vanessa continuou.
"Ela armou tudo."
O policial olhou para ela.
"Armou o quê?"
"Isso."
Vanessa abriu os braços.
"O investigador. A câmera. O dinheiro. Tudo."
"Que dinheiro?"
Vanessa percebeu o erro.
Parou.
Gabriel quase sorriu.
O agente insistiu.
"Que dinheiro?"
"Eu não sei."
"Você acabou de falar."
"Estou nervosa."
"Então vamos por partes."
Ele apontou para a bolsa.
"No chão."
Vanessa finalmente obedeceu.
Colocou a bolsa devagar.
"Eu quero meu advogado."
"Você pode ligar."
"Agora."
"Assim que a situação estiver controlada."
Vanessa olhou para mim.
"Você está gostando disso."
Eu quase ri.
Não tinha energia para gostar de nada.
Outra contração começou.
Fechei os olhos.
Gabriel se agachou perto de mim.
"Respira."
"Eu estou."
"Não está."
Puxei o ar.
"Quatro."
Ele contou.
"Um. Dois. Três. Quatro."
Soltei.
"Seis."
A dor ficou mais forte.
Minha mão agarrou o tecido do casaco dele.
"Está mais perto."
"Quanto?"
"Não sei."
"Helena."
"Eu não sei."
O policial virou a cabeça.
"Chamem os paramédicos agora."
Vanessa começou a falar mais alto.
"Ela está fazendo isso para parecer vítima."
O policial olhou para ela.
"Ela está em trabalho de parto."
"Eu sei."
"Então por que você não ajudou?"
Vanessa ficou em silêncio.
Gabriel levantou o rosto.
"Boa pergunta."
Ela apontou para ele.
"Você me provocou."
"Eu não chutei ninguém."
"Você avançou."
"Para ajudar uma mulher grávida."
"Você estava me ameaçando."
Gabriel tocou o canto ferido da boca.
"Com meu rosto?"
O outro policial pegou a bolsa de Vanessa.
"Senhora, vamos precisar que permaneça aqui."
"Eu não vou ficar em lugar nenhum."
"Vai."
"Você não sabe quem eu sou."
"Não importa."
"Importa, sim."
"Agora não."
Vanessa olhou para o telefone.
"Eu preciso falar com Eduardo."
O policial estendeu a mão.
"Pode ligar depois."
"Não encosta no meu celular."
Gabriel falou baixo.
"Ela já falou bastante nele."
Vanessa congelou.
O policial olhou para ele.
"Você gravou?"
Gabriel abriu o casaco.
Mostrou a câmera.
"Desde que ela entrou."
Vanessa ficou vermelha.
"Isso é ilegal."
"Você já falou."
"Você me armou."
"Também já falou."
O policial se aproximou de Gabriel.
"Tem como preservar o arquivo?"
"Sim."
"Sem editar?"
"Sim."
"Entrega voluntariamente?"
"Entrego."
Vanessa começou a rir.
Um riso nervoso.
"Vocês são ridículos."
Ninguém respondeu.
Gabriel retirou o dispositivo com cuidado.
"Tem gravação contínua."
"Desde quando?"
"Antes dela aparecer."
"Áudio?"
"Áudio e vídeo."
Vanessa respirou fundo.
"Isso não prova nada."
Gabriel olhou para ela.
"Mostra você chutando."
Ela ficou em silêncio.
"Mostra você impedindo ajuda."
Silêncio.
"Mostra ameaça."
O rosto dela mudou.
"Eu estava com raiva."
"Mostra o salto no joelho dela."
Vanessa apertou os lábios.
"Ela me provocou."
Gabriel ergueu a câmera.
"E mostra você dizendo que Eduardo sabia."
O policial virou imediatamente.
"Sabia o quê?"
Vanessa não respondeu.
Meu coração acelerou.
Gabriel continuou.
"Que Helena estava ali."
"Eu não disse isso."
"Disse."
"Você está distorcendo."
"Está gravado."
O policial olhou para mim.
"Seu marido deixou você aqui?"
Abri os olhos.
"Sim."
"De propósito?"
"Sim."
"Tem certeza?"
Respirei.
"Tenho."
Outra dor começou.
Mais forte.
"Ela precisa sair daqui agora", Gabriel disse.
As sirenes dos paramédicos ecoaram pela rampa.
Vanessa olhou para a saída.
Talvez ainda estivesse pensando em fugir.
O policial percebeu.
"Não tenta."
"Eu não vou."
"Ótimo."
Do outro lado de São Paulo, Eduardo Duarte ainda acreditava que tinha alguns minutos.
O terminal de aviação privada parecia calmo demais para alguém cuja vida começava a desmoronar.
Ele colocou a mala no chão.
Olhou para o telefone.
Tentou ligar para Vanessa.
Nada.
De novo.
Nada.
Depois ligou para o advogado.
"Atende."
Chamou.
Chamou.
Caixa postal.
Eduardo desligou.
Ligou para outro número.
"Alô?"
"Augusto?"
"Eduardo?"
"Preciso que você autorize uma liberação."
"Que liberação?"
"Conta corporativa."
"Agora?"
"Sim."
"Que conta?"
"Reserva."
Silêncio.
"Eduardo, o financeiro me ligou."
O rosto dele endureceu.
"Por quê?"
"Tem bloqueio."
"Erro bancário."
"Não parece."
"É."
"Você está onde?"
Eduardo olhou ao redor.
"Em reunião."
Augusto ficou em silêncio.
"Que reunião?"
"Depois eu explico."
"Eduardo."
"Eu ligo."
"Não desliga."
Eduardo encerrou.
Respirou fundo.
Um funcionário do terminal se aproximou.
"Senhor Duarte."
"Sim."
"Precisamos confirmar a forma de pagamento de uma taxa adicional."
"Use o cartão."
"Foi recusado."
Eduardo fechou os olhos.
"Passa de novo."
"Já tentamos."
"Então usa o outro."