Olhei para o vidro do café.
São Paulo seguia do lado de fora.
Carros.
Gente.
Buzinas.
Uma cidade inteira vivendo normalmente enquanto eu descobria que minha vida talvez tivesse sido montada sobre uma mentira.
Lívia falou mais baixo.
"Helena, eu vou te perguntar uma coisa e preciso que você responda sem pensar no que seria bonito."
"Pergunta."
"Você quer salvar seu casamento ou descobrir a verdade?"
Não hesitei.
"Quero saber com quem estou dormindo."
Lívia me observou por alguns segundos.
Então pegou o celular.
"Eu conheço alguém."
"Advogado?"
"Não."
"Quem?"
"Gabriel Nogueira."
O nome não significava nada para mim.
"Aposentado?"
"Ex-investigador de crimes financeiros."
"Polícia?"
"Já foi."
"E agora?"
"Investigador particular."
"Ele é bom?"
"É insuportável."
"Isso não responde."
"Então sim."
Dois dias depois, encontrei Gabriel em um escritório discreto na Bela Vista.
Ele não parecia em nada com o homem sujo que, meses depois, apareceria no estacionamento.
Barba aparada.
Camisa azul.
Postura reta.
Olhos atentos.
Lívia fez as apresentações.
Gabriel não perdeu tempo.
"Você suspeita de fraude e adultério?"
"Suspeito de uma coisa."
"Qual?"
"Que as duas suspeitas podem ser a mesma história."
Ele ficou em silêncio.
Depois abriu um bloco.
"Então vamos separar sentimento de prova."
Durante as semanas seguintes, eu virei especialista em fingir.
Fazia jantar.
Respondia mensagens.
Escolhia móveis para o quarto de Sofia.
Perguntava a Eduardo sobre o trabalho.
Ele mentia.
Eu sorria.
Eduardo dizia que Vanessa estava em reuniões.
Gabriel mandava fotos dos dois saindo de restaurantes.
Eduardo dizia que passaria a noite com investidores.
Gabriel registrava o carro dele entrando no condomínio de Vanessa no Itaim Bibi.
Eu nunca confrontei.
Nunca fiz cena.
Nunca perguntei onde ele tinha dormido.
Quanto mais confortável Eduardo ficava, mais descuidado se tornava.
Três semanas depois, Gabriel me chamou.
"Tenho material."
Fui ao escritório de Lívia.
Gabriel colocou um envelope pardo sobre a mesa.
"Antes de abrir, eu preciso dizer uma coisa."
"O quê?"
"O que tem aqui vai mudar a forma como você vê seu marido."
"Essa parte já mudou."
"Não tanto quanto você pensa."
Abri o envelope.
Primeira foto.
Eduardo e Vanessa saindo de um restaurante.
Segunda.
Os dois entrando no carro dela.
Terceira.
Vanessa segurando o braço dele.
Quarta.
Um beijo.
Meu peito apertou.
Não chorei.
Continuei.
Quinta.
Os dois em uma cafeteria.
Nada demais.
Sexta.
Vanessa entregando uma pasta preta para Eduardo.
Parei.
Aproximei a fotografia.
Havia uma folha parcialmente exposta.
No topo, uma expressão legível.
TRANSFERÊNCIA INTERNACIONAL.
Olhei para Gabriel.
"O que é isso?"
Ele puxou outra foto.
Mais próxima.
Abaixo do título, havia um nome.
Uma instituição financeira estrangeira.
E um valor.
Meu sangue gelou.
Gabriel falou baixo.
"Helena, acho que o caso não é só sobre o seu casamento."
PARTE 4
A Esposa Que Não Sabia de Nada
Depois que Gabriel colocou as fotografias sobre a mesa, minha vida se dividiu em duas.
De dia, eu continuava sendo a esposa de Eduardo Duarte.
À noite, eu investigava o homem com quem dormia.
Eu acordava cedo, preparava café, respondia mensagens da minha mãe sobre o enxoval de Sofia e perguntava a Eduardo se ele queria jantar em casa.
Ele quase sempre dizia que não sabia.
"Depende das reuniões."
Eu sorria.
"Claro."
Aprendi rápido que fingir normalidade era mais difícil do que descobrir uma fraude de milhões.
Na primeira semana, quase estraguei tudo três vezes.
A primeira foi quando Eduardo deixou o notebook aberto na bancada da cozinha.
Eu passei por ele e vi o nome de Vanessa em uma conversa.
Minha mão chegou a parar.
Eduardo estava no banheiro.
Eu poderia ter lido.
Mas não li.
Gabriel tinha sido claro.
"Se você quer prova, não pode começar a agir como esposa traída."
Eu odiava aquela frase.
Mas ele tinha razão.
A segunda vez foi numa quinta-feira.
Eduardo voltou para casa com o mesmo perfume no paletó.
Vanessa.
Eu já não precisava imaginar.
Sabia.
Ele me beijou na testa.
"Dia longo."
"Imagino."
"Você está bem?"
"Estou."
"Tem certeza?"
"Tenho."
Ele ficou me olhando por um segundo.
Meu coração bateu mais forte.
Então Sofia se mexeu.
Coloquei a mão na barriga.
Eduardo sorriu.
"Ela está chutando?"
"Está."
Ele se ajoelhou diante de mim.
Encostou o rosto na minha barriga.
"Papai está aqui."
Eu quase afastei a mão dele.
Quase.
Mas não fiz isso.
A terceira vez foi pior.
Eu estava organizando o quarto de Sofia quando ele apareceu na porta.
Tinha escolhido um papel de parede claro, uma poltrona perto da janela e um berço de madeira branca.
Eduardo olhou ao redor.
"Está ficando bonito."
"Você gostou?"
"Gostei."
Ele entrou.
Pegou um pequeno vestido que minha mãe tinha comprado.
"É tão pequeno."
"Recém-nascido é pequeno."
"Eu sei."
Ele riu.
Por um instante, parecia o homem com quem eu tinha me casado.
Foi isso que quase me destruiu.
Porque monstros são mais fáceis de combater quando parecem monstros o tempo todo.
Eduardo não parecia.
Às vezes ele parecia cansado.
Às vezes gentil.
Às vezes colocava a mão na minha lombar quando eu levantava devagar.
Às vezes perguntava se eu tinha tomado as vitaminas.
E depois saía para encontrar Vanessa.
Eu precisava lembrar disso.
Toda noite.
Enquanto ele dormia, eu descia até meu escritório.
Lívia e Gabriel me mandavam documentos por um sistema criptografado.
Eu analisava contratos.
Notas fiscais.
Cadastros empresariais.
Fluxos bancários.
Oito empresas.
O mesmo padrão.
Serviços difíceis de comprovar.
Valores altos.
Aprovações fora do horário.
E cada vez mais conexões entre elas.
Foi Lívia quem encontrou Renato Albuquerque.
Ela me ligou numa terça-feira.
"Você está sozinha?"
"Estou."
"Eduardo?"
"Academia."
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Então abre o arquivo que eu mandei."
Abri.
O nome apareceu na tela.
Renato de Albuquerque Filho.
"Quem é?"
"Você não reconhece o sobrenome?"
Meu estômago apertou.
"Vanessa."
"É o irmão dela."
Rolei a página.
Renato era sócio majoritário da Prime Health Operações.
Uma das oito empresas.
A mesma Prime Health que tinha recebido mais de R$ 7 milhões da VittaSul em pouco mais de um ano.
Fiquei em silêncio.
Lívia perguntou:
"Helena?"
"Estou aqui."
"Você sabia que ela tinha irmão?"
"Não."
"Eduardo sabia."
"Como você sabe?"
"Porque tem um contrato assinado por Vanessa como consultora e validado pela presidência da VittaSul."
Meu peito apertou.
"Ela aprovou contrato com empresa do próprio irmão?"
"Formalmente, não."
"Como assim?"
"Ela aparece como responsável pela análise estratégica. A aprovação final vem de outro setor."
"Eduardo."
"Em alguns casos."
"Em outros?"
"Marcelo."
Parei.
Marcelo Tavares.
Diretor financeiro.
Um dos primeiros funcionários da VittaSul.
Homem discreto.
Casado.
Dois filhos.
Trabalhava conosco havia quase dez anos.
"Não."
Lívia suspirou.
"Helena."
"Marcelo não faria isso."
"Você disse a mesma coisa sobre Eduardo."
A frase me atingiu.
"Marcelo não é Eduardo."
"Talvez não."
"Ele ficou com a empresa quando quase quebramos."
"Isso não prova nada."
"Eu confio nele."
"Então descubra se deveria."
Naquela noite, Eduardo chegou cedo.
Trouxe comida japonesa.
Eu quase ri da ironia.
"Comemoração?"
"Não posso levar jantar para minha esposa?"
"Pode."
Ele abriu as embalagens.
"Sem peixe cru para você."
"Obrigada."
Sentamos à mesa.
Eduardo serviu meu prato.
Eu olhava para as mãos dele.
As mesmas mãos que tinham assinado contratos falsos.
"Como está a empresa?"
Ele levantou os olhos.
"Por quê?"
"Curiosidade."
"Desde quando você pergunta?"
"Eu sempre perguntei."
"Não desse jeito."
Sorri.
"Talvez eu esteja com saudade."
Eduardo riu.
"Saudade de compliance?"
"Não exagera."
Ele tomou vinho.
"Está tudo bem."
"Marcelo ainda trabalha até tarde?"
Eduardo parou por uma fração de segundo.
"Às vezes."
"Ele sempre foi dedicado."
"Demais."
"Você confia nele?"
Eduardo mastigou antes de responder.
"Confio no trabalho."
"Não na pessoa?"
"Empresa grande não funciona com confiança pessoal."
Aquilo me surpreendeu.
"Você não dizia isso antes."
"Antes a VittaSul tinha vinte funcionários."
"Agora tem mais de quatrocentos."
"Exatamente."
Ele sorriu.
"Você ficou longe muito tempo."
A frase veio leve.
Mas era uma lâmina.
"Talvez."
Eduardo apoiou a mão sobre a minha.
"Helena."
"Hum?"
"Você não precisa se preocupar com essas coisas."
"Que coisas?"
"Empresa."
"Eu não estou preocupada."
"Ótimo."
Ele apertou minha mão.
"Agora sua prioridade é Sofia."
Olhei para ele.
"Claro."
Dois dias depois, Gabriel me mandou outro relatório.
Vanessa havia participado diretamente da negociação de pelo menos cinco contratos.
Ela não aparecia como sócia.
Nunca assinava como beneficiária.
Sempre estava um passo antes do dinheiro.
Reuniões.
Recomendações.
Pareceres internos.
Chamadas privadas.
O suficiente para influenciar.
Não o suficiente para aparecer de imediato.
"Ela sabe o que está fazendo", Gabriel disse.
Estávamos no escritório de Lívia.
"Quanto?"
"Essa é a pergunta."
"Você acha que ela sabe de toda a estrutura?"
"Não tenho certeza."
Lívia fechou uma pasta.
"Mas ela sabe que o irmão recebe dinheiro da VittaSul."
"Isso já basta."
Gabriel balançou a cabeça.
"Para provar conflito de interesse, ajuda."
"Para fraude?"
"Precisamos mais."
Eu me levantei devagar.
Minha barriga já começava a pesar.
"Então vamos conseguir."
Gabriel me observou.
"Você está dormindo?"
"Não muito."
"Comendo?"
"Sim."
"Você precisa reduzir."
"Não."
"Helena."
"Eu tenho seis semanas, talvez menos, antes de Sofia nascer."
"Exatamente."
"Então não vou perder tempo."
Lívia me olhou.
"Você ainda não confrontou Eduardo."
"Não."
"Nem Vanessa."
"Não."
"Ele não suspeita?"