Vicente acionou o protocolo de evacuação. Teresa pegou Lívia. Leonardo recusou-se a sair sem Valentina.
— Desta vez você vai fazer o que eu mandar — ela disse. — Leva nossa filha.
— E você?
— Vou impedir sua mãe de apertar esse botão.
Beatriz entrou quando o portão de serviço abriu para os seguranças. Caminhou até o hall como se ainda fosse dona da casa. Usava o mesmo perfume de flores brancas e carregava o controle na mão direita.
— Sozinha — exigiu ao ver Vicente.
Valentina desceu até o primeiro degrau.
— Você já perdeu, Beatriz.
— Eu perdi quando deixei homens fracos decidirem o futuro desta família.
— Você perdeu quando confundiu família com propriedade.
Beatriz riu.
— Você fala bonito porque nunca construiu nada.
— Construí uma filha dentro do corpo que você tentou quebrar.
A velha apertou o controle pela metade.
— Um passo e todos morrem.
Valentina ergueu as mãos.
— O que você quer?
— O testamento original e uma declaração renunciando aos votos de Lívia.
— Em troca de quê? De você tentar matar a gente outra vez amanhã?
— Em troca de sua filha crescer.
Leonardo apareceu no corredor, apoiado em muletas.
— Mãe.
Beatriz perdeu o ar.
Por mais que soubesse que ele estava vivo, vê-lo pareceu romper alguma coisa.
— Você devia ter ficado morto — sussurrou.
Leonardo parou.
Valentina viu a dor atravessar o rosto dele e morrer ali mesmo.
— Era isso que eu precisava ouvir — disse.
Uma luz vermelha piscou no lustre. Helena acompanhava tudo pelas câmeras reservas. A casa fora esvaziada; a garagem não continha explosivos. Vicente descobrira que o controle acionava apenas um dispositivo de fumaça colocado para criar pânico.
— Acabou — disse Valentina.
Beatriz percebeu a armadilha. Jogou o controle e correu para a escada, puxando uma pequena pistola da bolsa.
Vicente avançou. Ela apontou para Valentina.
— Você tirou meu filho, minha casa e meu nome.
— Não. Você entregou tudo quando tentou matar sua neta.
Beatriz puxou o gatilho.
Não houve disparo. Vicente havia retirado o carregador quando ela fora detida no portão; deixara a arma para que a ameaça ficasse registrada.
Policiais entraram por todos os lados.
Helena algemou Beatriz no mesmo degrau de onde ela empurrara Valentina.
— A senhora está presa por tentativa de homicídio, sequestro, fraude processual, associação criminosa e obstrução da Justiça.
Beatriz olhou para Leonardo.
— Você vai deixar que façam isso com sua mãe?
Ele se aproximou devagar.
— Minha mãe morreu quando desejou que minha filha morresse.
Beatriz foi levada sem conseguir manter a postura. Do lado de fora, as câmeras transmitiram sua prisão ao vivo.
Álvaro aceitou delação. Valéria tentou culpar os irmãos. Victor entregou os registros da clínica em troca de redução de pena. As versões se chocaram até formar uma verdade única: Beatriz havia iniciado o desvio, ordenado a sabotagem e usado os outros para manter as mãos aparentemente limpas.
Antes do julgamento, Valentina recebeu uma última carta dela.
"Você acha que Lívia herdou tudo. Ainda existe uma cláusula que Leonardo não conhecia. Quando ela completar um ano, você vai descobrir quem realmente venceu."
No rodapé havia o símbolo do antigo brasão da família e uma data futura.
Valentina levou a carta a Helena.
— É mais uma ameaça?
A promotora examinou o papel contra a luz.
— Não. É um código de acesso bancário.
Helena pediu que ninguém digitasse o código em um computador da empresa. Um perito montou uma máquina isolada. O acesso exigia duas respostas: o primeiro sobrenome de Augusto e o horário exato do nascimento do primogênito.
Victor forneceu o próprio horário. O sistema recusou.
— Ela falsificou a certidão — lembrou Valentina. — Para os documentos, Leonardo nasceu primeiro.
Usaram o horário de Leonardo. A tela abriu.
Além da conta, havia um vídeo de Augusto Vasconcelos, gravado pouco antes de morrer.
— Se isto foi aberto, Beatriz falhou em manter a família unida ou alguém finalmente teve coragem de enfrentá-la. Permiti coisas imperdoáveis porque confundia continuidade com honra. Não deixo este arquivo para proteger meu nome. Deixo para destruí-lo antes que outra geração pague por ele.
Augusto listava terras tomadas, obras com laudos falsos, subornos e acordos para calar famílias. Confessava também que soubera da existência de Victor e Vicente. Não os reconhecera para impedir uma guerra sucessória.
— Ele chama abandono de prevenção — disse Vicente.
Leonardo assistia em silêncio.
— Foi assim que os homens desta família aprenderam a amar. De longe, escondendo e escolhendo pelo outro.
Valentina fechou o vídeo.
— Então a gente começa desaprendendo.