Beatriz negou a ordem. Disse que as iniciais podiam pertencer a qualquer pessoa. Na manhã seguinte, apareceu na varanda de casa, diante de jornalistas, segurando uma fotografia de Leonardo criança.
— Estão me impedindo de conhecer minha neta — chorou. — Sou uma mãe que perdeu um filho e uma avó privada do único pedaço que restou dele.
As redes sociais se dividiram. Vídeos antigos de Beatriz em hospitais infantis voltaram a circular. Pessoas que não conheciam Valentina a chamaram de interesseira.
— Ela entende de imagem — disse Leonardo, assistindo da cama.
— Então vamos mostrar a imagem inteira.
Valentina não publicou o vídeo do empurrão. Guardou para o tribunal. Em vez disso, convocou funcionários antigos da mansão. Uma cozinheira contou que Beatriz mandara jogar fora os remédios de Leonardo. Um motorista revelou ter levado Álvaro à garagem. Teresa apresentou o relatório médico que confirmava as marcas no pulso de Valentina.
Mesmo assim, Beatriz mantinha seguidores fiéis.
Vicente encontrou a peça que faltava no antigo livro-caixa: pagamentos mensais a um abrigo religioso no interior. O primeiro depósito começara vinte e oito anos antes, no mês em que Victor nascera.
Foram até lá. A irmã Lúcia, tia de Beatriz e mãe adotiva de Victor, ainda vivia. Entregou uma caixa com cartas.
Em uma delas, Beatriz escrevera:
"Se o menino algum dia tentar usar o nome Vasconcelos, diga que morreu no parto. Augusto não pode descobrir que o primogênito vive."
Outra carta, recente, era pior:
"Leonardo sobreviveu. Mantenha Victor convencido de que fui eu quem ordenou o resgate. Assim, os irmãos brigarão entre si e nenhum olhará para Valéria."
Beatriz sabia que Leonardo estava vivo desde o começo. Manipulara Victor, Valéria e Álvaro ao mesmo tempo, deixando cada um acreditar que controlava o plano.
No conselho da empresa, Valentina apresentou as cartas e exigiu auditoria total. Victor esperava ser nomeado presidente por direito de primogenitura.
— Você prometeu corrigir o que fizeram comigo — disse.
— Corrigir não é entregar uma empresa a outro homem só por causa do sangue — respondeu Valentina. — Você participou de uma falsa morte, escondeu Leonardo e me deixou acreditar que era viúva.
— Eu salvei a vida dele.
— E destruiu a minha durante seis meses.
O conselho elegeu uma executiva independente. Valentina manteve o voto de controle, mas recusou a presidência operacional.
Victor saiu furioso.
Naquela noite, Leonardo voltou à mansão em cadeira de rodas. Parou diante da escada e ficou em silêncio.
— Foi aqui? — perguntou.
Valentina assentiu.
Ele segurou a mão dela.
— Eu devia ter contado tudo.
— Devia.
— Você consegue me perdoar?
— Ainda não.
A honestidade doeu mais do que uma mentira, mas Leonardo aceitou.
Um choro veio do quarto. Os dois subiram pelo elevador. Diante do berço, ele pegou Lívia pela primeira vez.
— Eu achei que nunca faria isso — disse.
Valentina observou pai e filha. Ainda o amava. Mas amor não apagava abandono, mesmo quando disfarçado de proteção.
O interfone tocou.
Beatriz estava no portão, sem tornozeleira.
— Como ela saiu de casa? — perguntou Leonardo.
Vicente verificou o sistema.
— Ela não saiu. A tornozeleira continua enviando sinal da residência.
Beatriz havia cortado o dispositivo e o colocado no tornozelo de outra mulher.
No portão, ela segurava um controle remoto.
— Abram — ordenou pelo interfone. — Ou a garagem explode com todos vocês dentro.