Valentina não contou a Vicente sobre a ordem final da mensagem. Mostrou apenas a fotografia.
Ele ficou imóvel tempo demais.
— Você sabia? — perguntou ela.
— Não.
— Olha pra mim.
Vicente obedeceu.
— Se eu soubesse que Leonardo estava vivo, teria levado você até ele.
— Mesmo se ele tivesse pedido o contrário?
— Principalmente se tivesse pedido o contrário.
A imagem continha poucos detalhes: parede verde-clara, suporte de soro, parte de uma placa com o número 307. Helena rastreou o arquivo até uma clínica desativada em Cotia, registrada em nome de uma empresa ligada a Álvaro.
Foram à noite com dois investigadores. O prédio parecia vazio, mas um gerador funcionava nos fundos. No terceiro andar, encontraram remédios, prontuários sem nomes e uma cama ainda quente.
O quarto 307 estava vazio.
Sobre o travesseiro havia a aliança de Leonardo.
Valentina reconheceu o risco na parte interna, feito quando ele deixara o anel cair na lua de mel.
— Ele esteve aqui.
Um barulho veio do corredor. Vicente empurrou Valentina para trás da parede quando um tiro quebrou o vidro da porta. Os investigadores correram. O atirador escapou pela escada de serviço.
No chão, deixara um celular descartável. Havia um único vídeo.
Leonardo aparecia sentado numa cadeira, muito magro, mas consciente.
— Val, se você recebeu isto, não acredite em ninguém só porque diz estar me protegendo. Minha mãe não agiu sozinha. Existe alguém no conselho acima de Álvaro. Alguém que assina como "V". Proteja a Lívia. Não tente me procurar sem Helena.
O vídeo terminava quando uma sombra entrava no quarto.
Valentina voltou a imagem quadro a quadro. Na mão da pessoa havia o mesmo relógio antigo que Vicente usava.
Ela levantou os olhos.
O pulso dele estava vazio.
— Cadê seu relógio?
Vicente olhou para a própria mão.
— Perdi na mansão.
— Quando?
— No dia da queda.
— Por que não falou?
— Porque era um relógio.
Valentina mostrou o quadro congelado. Helena se aproximou.
Vicente não tentou tocar no celular.
— Esse relógio foi de Leonardo — explicou. — Ele me deu quando assumi a segurança. Existem dois iguais. O outro ficou com o irmão dele.
— Leonardo não tinha irmão — disse Valentina.
— Tinha. Beatriz apagou o nome dele da família.
Vicente contou que vinte e oito anos antes Beatriz tivera gêmeos. Leonardo crescera como herdeiro; o segundo menino, nascido com uma cardiopatia, fora entregue à irmã de Beatriz e registrado como filho dela. O nome era Victor Vasconcelos.
— Por quê?
— O pai de Leonardo deixou no estatuto que o primogênito herdaria o voto de controle. Os meninos nasceram com quatro minutos de diferença. Victor foi o primeiro.
— Então Leonardo nunca foi o verdadeiro herdeiro.
— Legalmente, Victor nem existe como Vasconcelos.
Helena cruzou os braços.
— E agora alguém assina como V.
Na manhã seguinte, Valentina entrou na reunião do conselho decidida a suspender Beatriz. Antes que pudesse falar, um homem ocupou a cadeira da presidência.
Tinha o rosto de Leonardo.
Mais duro, mais velho, com uma cicatriz no queixo. Mas o mesmo rosto.
— Meu nome é Victor — disse. — E eu vim buscar o que minha mãe roubou de mim.
Beatriz, sentada ao lado, não parecia surpresa.