Beatriz não fez as malas.
Sentou-se no sofá do hall, cruzou as pernas e telefonou para três desembargadores, dois empresários e um senador. Nenhum deles podia anular um registro de imóvel válido diante de uma oficial de justiça.
— Isso é temporário — avisou a Valentina. — Quando Álvaro derrubar essa fraude, você volta para o apartamento de onde saiu.
— Não foi fraude. Foi o Leonardo.
O nome do filho abriu uma rachadura na máscara.
— Meu filho não faria isso comigo.
— Talvez conhecesse você melhor do que nós duas imaginávamos.
Vicente coordenou a troca das fechaduras. Encontrou dois seguranças ainda leais a Beatriz tentando retirar caixas do escritório. Dentro delas havia contratos, discos rígidos e o livro-caixa pessoal de Leonardo.
Valentina mandou guardar tudo.
No escritório, o cofre ficava atrás de uma pintura de Augusto Vasconcelos, fundador da empresa. A chave girou. Um leitor azul acendeu.
Valentina encostou o polegar.
A porta se abriu.
Havia uma pasta vermelha, um pendrive e um envelope com seu nome. As mãos dela tremeram ao reconhecer a letra do marido.
"Val,
se você está lendo isto, eu falhei em voltar para casa.
Minha mãe e Álvaro desviam dinheiro da Vasconcelos Urbanismo há anos. Quando descobri, ameaçaram tirar você e nossa filha de mim. Não confie na polícia antes de falar com a promotora Helena Siqueira. Não confie no conselho. E, por mais absurdo que pareça, confie em Vicente.
Perdoe-me por tentar resolver sozinho.
L."
Valentina terminou a carta chorando em silêncio.
Vicente olhava pela janela.
— Ele sabia que era menina — ela disse.
— Sabia.
— Eu queria contar no jantar daquela noite.
Vicente tirou do cofre uma pequena caixa. Dentro havia uma pulseira de bebê gravada com o nome "Lívia".
— Ele escolheu o nome?
— Disse que queria sugerir. Não queria roubar de você a decisão.
Valentina apertou a pulseira contra o peito.
O pendrive continha planilhas, gravações e cópias de transferências para empresas fantasmas. A pasta vermelha guardava o testamento. Leonardo deixava suas ações em fideicomisso para a filha ainda não nascida. Até Lívia completar vinte e cinco anos, Valentina exerceria os direitos de voto.
Quarenta e dois por cento da Vasconcelos Urbanismo.
Somados aos oito por cento que Leonardo transferira para a esposa, Valentina controlava metade da empresa. Um acordo assinado pelo avô garantia voto de desempate ao herdeiro direto mais jovem.
Lívia, antes mesmo de nascer, controlava o império.
Era por isso que Beatriz queria eliminá-la.
O celular de Valentina tocou. Número desconhecido.
— Senhora Valentina? Aqui é do laboratório GenCore. Recebemos uma solicitação de exame pré-natal em seu nome.
— Eu não solicitei exame nenhum.
— O pedido veio do escritório Mendes e Associados. Investigação de paternidade.
Valentina sentiu o sangue ferver.
Naquela tarde, a imprensa recebeu documentos alegando que Leonardo era estéril e que o bebê de Valentina não podia ser dele. Programas de fofoca cercaram a mansão. Beatriz apareceu diante das câmeras com óculos escuros.
— Eu só quero saber a verdade — declarou. — Se a criança for do meu filho, será acolhida. Mas uma família não pode ser chantageada por uma mentira.
Valentina assistiu à entrevista do escritório.
— Ela quer me obrigar a fazer o exame — disse.
— Faça — respondeu Vicente.
Ela virou para ele.
— Você também duvida?
— Não. Quero que ela acredite que venceu.
Vicente colocou sobre a mesa uma cópia do prontuário médico de Leonardo. O documento sobre esterilidade era falso. A assinatura do médico pertencia a um homem morto havia quatro anos.
— Se fizermos o exame pelo laboratório escolhido por Álvaro, eles vão falsificar o resultado — explicou. — E, quando publicarem, mostramos a coleta adulterada, o prontuário falso e o teste verdadeiro, acompanhado pela Justiça.
Valentina olhou para as câmeras do lado de fora.
— Ela quer um espetáculo.
— Então dê um final que ela nunca esqueça.