Depois da reunião em que Vitória apresentou documentos contra Clara, o ambiente dentro da mansão Vasconcelos nunca mais foi o mesmo.
Margarida não acreditava completamente nas acusações.
Ela conhecia o filho.
Conhecia o coração de Daniel.
Mas também sabia que os documentos apresentados por Vitória poderiam criar dúvidas na família.
Clara sentia isso todos os dias.
Cada corredor daquela casa parecia lembrar que ela era uma estranha.
Ela estava cercada por luxo.
Mas se sentia completamente sozinha.
Lucas era a única coisa que fazia Clara continuar firme.
Todas as noites, depois de colocar o filho para dormir, ela ficava alguns minutos olhando para ele.
Pensava em Daniel.
Pensava no homem que ela amou.
E em tudo que nunca conseguiu entender.
Por que ele desapareceu?
Por que não voltou?
Por que deixou que ela acreditasse que tinha sido abandonada?
Naquela noite, uma forte chuva caiu sobre São Paulo.
A mansão ficou silenciosa.
Clara não conseguia dormir.
Então decidiu caminhar pela casa.
Sem perceber, seus passos a levaram até o antigo quarto de Daniel.
A porta estava entreaberta.
Ela ficou parada por alguns segundos.
Sentia como se estivesse invadindo um lugar sagrado.
Mas Margarida havia dito uma vez:
"Esse quarto sempre pertenceu ao Daniel. E agora você também tem o direito de conhecer a história dele."
Clara entrou lentamente.
O quarto permanecia exatamente como ele havia deixado.
Nada parecia ter mudado.
A cama arrumada.
Os livros organizados na estante.
Uma guitarra antiga encostada perto da janela.
Uma jaqueta sobre a cadeira.
Fotografias espalhadas pela mesa.
Era como se Daniel pudesse entrar pela porta a qualquer momento.
Clara passou os dedos pela guitarra.
Um sorriso triste apareceu em seu rosto.
"Você nunca aprendeu a tocar isso direito."
Sua voz saiu baixa.
"Mas insistia em dizer que um dia faria uma música para mim."
As lágrimas começaram a cair.
Ela pegou uma fotografia.
Era uma imagem de Daniel sorrindo.
Sem terno.
Sem aparência de empresário.
Apenas ele.
O homem que ela conheceu na Vila Madalena.
O homem que tomava café com ela em uma pequena cafeteria.
O homem que dizia que queria uma vida simples.
Clara apertou a fotografia contra o peito.
"Por que você não me contou?"
Naquele momento, ela percebeu algo estranho.
Uma das tábuas do chão estava levemente levantada.
Ela se aproximou.
Abaixou-se.
Passou os dedos pela madeira.
A tábua não estava presa completamente.
Seu coração começou a bater mais rápido.
Com cuidado, Clara levantou a madeira.
E encontrou um pequeno espaço escondido.
Dentro havia uma caixa de cedro.
Antiga.
Coberta por poeira.
Mas perfeitamente protegida.
Ela ficou alguns segundos olhando para aquilo.
Alguma coisa dentro dela dizia que aquela caixa tinha uma resposta.
Com as mãos tremendo, Clara retirou o objeto.
Quando abriu, seu coração parou.
Dentro havia dezenas de envelopes.
Todos tinham o mesmo nome escrito na frente.
Clara.
Ela levou a mão à boca.
"Não..."
A letra era inconfundível.
Era de Daniel.
Ela conhecia aquela escrita.
Conhecia cada detalhe.
Cada traço.
Cada maneira como ele escrevia seu nome.
Clara sentou no chão.
As mãos começaram a tremer.
Ela pegou o primeiro envelope.
Na frente estava escrito:
"Minha querida Clara."
Ela abriu.
O papel estava um pouco envelhecido.
Mas as palavras continuavam claras.
"Se você está lendo esta carta, provavelmente eu não estou mais neste mundo."
Clara parou de respirar.
Seus olhos ficaram cheios de lágrimas.
Ela continuou.
"Eu queria ter encontrado uma forma de te contar tudo pessoalmente. Queria olhar nos seus olhos e explicar cada decisão que tomei."
As lágrimas começaram a cair sobre o papel.
Daniel continuava escrevendo para ela mesmo depois de partir.
"Mas eu tive medo."
"Medo de ver a dor no seu rosto."
"Medo de ser lembrado como alguém que trouxe sofrimento para a sua vida."
Clara levou a mão ao coração.
Porque pela primeira vez ela começava a entender.
Daniel não tinha ido embora porque deixou de amar.
Ele tinha ido embora porque estava sofrendo.
Ela abriu outra carta.
Depois outra.
E outra.
Cada página revelava uma parte de Daniel que ela nunca conheceu.
Ele falava sobre os dias no hospital.
Sobre os exames.
Sobre o medo de morrer jovem.
Sobre a culpa de não conseguir dar a ela a vida que prometeu.
Ele escreveu sobre Lucas.
Mesmo sem nunca ter segurado o filho nos braços.
"Eu imagino que nosso bebê deve ter seus olhos."
Clara fechou os olhos.
O choro ficou mais forte.
"Eu queria estar presente em cada momento."
"Queria ensinar ele a andar."
"Queria ouvir sua primeira palavra."
"Queria ver você sorrindo segurando nosso filho."
Ela apertou as cartas contra o peito.
Durante três anos, ela acreditou que Daniel tinha abandonado ela.
Mas agora descobria que ele tinha amado até o último momento.
Ela passou horas lendo.
Cada carta parecia uma conversa interrompida.
Cada palavra parecia trazer Daniel de volta.
Em uma delas, ele escreveu:
"Clara, se algum dia você achar que eu não te amei, por favor, lembre-se de tudo que vivemos."
"Você foi a melhor parte da minha vida."
"Eu só queria proteger você da minha doença."
Clara chorava tanto que mal conseguia enxergar.
Ela colocou as cartas ao lado.
Respirou fundo.
Então encontrou um envelope diferente.
Era o último.
Mais grosso.
Mais envelhecido.
Parecia ter sido aberto várias vezes.
Ela ficou olhando para ele.
Sentia medo.
Como se aquele papel pudesse mudar tudo.
Finalmente abriu.
As primeiras palavras fizeram seu coração acelerar.
"Minha querida Clara."
"Se esta for a última carta que você lê, significa que eu não consegui cumprir a promessa de voltar para você."
Ela fechou os olhos.
Mas continuou.
"Eu deixei estas cartas com uma pessoa em quem confiei."
Clara parou.
Seu coração começou a bater mais forte.
Ela continuou lendo.
"Eu pedi que ela entregasse tudo a você caso algo acontecesse comigo."
"Eu pedi que ela explicasse toda a verdade."
"Eu pedi que ela cuidasse de você e do nosso filho."
As mãos de Clara começaram a tremer.
Ela sentiu uma sensação estranha.
Como se uma nova dor estivesse surgindo.
Então leu a última parte.
"Eu entreguei estas cartas para Vitória, para que ela entregasse a você."
O mundo pareceu parar.
Clara ficou imóvel.
Vitória.
O nome daquela mulher parecia ecoar dentro do quarto.
Ela olhou para todas as cartas espalhadas pelo chão.
Depois para o envelope em suas mãos.
A mulher que dizia não conhecê-la.
A mulher que questionava sua presença naquela casa.
A mulher que fazia todos acreditarem que Clara era uma oportunista.
Ela sempre soube.
Clara levantou lentamente.
Seu rosto já não mostrava apenas tristeza.
Mostrava choque.
Porque agora existia uma pergunta que ela precisava responder.
Por que Vitória Montenegro Ferraz escondeu as cartas de Daniel durante todos aqueles anos?