A ligação de Carolina Mendes deixou Helena sem conseguir dormir naquela noite.
Durante horas, ela ficou sentada na pequena sala da Casa das Letras olhando para o celular.
A mensagem era simples.
Mas carregava um peso enorme.
Vitória não tinha se aproximado de Eduardo por acaso.
No começo, Helena tentou acreditar que tudo tinha sido apenas uma traição emocional.
Uma aproximação errada.
Uma mulher que apareceu no momento em que seu casamento estava fragilizado.
Mas agora existia outra possibilidade.
Talvez Vitória tivesse planejado tudo.
Na manhã seguinte, Helena encontrou Carolina em uma cafeteria próxima ao centro histórico de Paraty.
A mulher parecia nervosa.
Ela olhava para os lados constantemente.
Como se tivesse medo de alguém descobrir aquela conversa.
Helena sentou em frente a ela.
"Você disse que precisava me contar algo sobre Vitória."
Carolina respirou fundo.
"Eu trabalhei na Fundação Vasconcelos por sete anos."
Helena permaneceu em silêncio.
"Eu vi coisas que ninguém percebeu."
"Que coisas?"
Carolina segurou a xícara de café.
"No começo, Vitória parecia apenas uma funcionária dedicada."
"Ela fazia tudo para impressionar Eduardo."
Helena sentiu um aperto no peito.
Mas não interrompeu.
"Ela estudava cada detalhe da vida dele."
Carolina continuou.
"Sabia os horários dele."
"Sabia quais eventos ele frequentava."
"Sabia quais assuntos deixavam Eduardo mais vulnerável."
Helena abaixou os olhos.
Porque aquela informação doía.
Não porque descobria algo novo.
Mas porque confirmava que ela não estava imaginando tudo.
"Quando ela começou a trabalhar com a Fundação?"
Carolina respondeu:
"Pouco depois de você começar a se afastar dos eventos da empresa."
Helena levantou o olhar.
"Eu me afastei porque estava tentando engravidar."
Carolina ficou sem jeito.
"Eu sei."
Fez uma pausa.
"E Vitória sabia também."
A frase deixou Helena imóvel.
"Como assim?"
Carolina abriu uma pasta pequena que carregava na bolsa.
Dentro havia cópias de alguns documentos.
"Ela tinha acesso a informações internas."
Helena pegou os papéis.
E começou a ler.
Eram relatórios da Fundação.
Convites de eventos.
Registros de reuniões.
Nada parecia ilegal.
Mas havia algo estranho.
Vitória havia criado uma sequência de eventos onde Eduardo e ela sempre apareciam juntos.
Jantares.
Viagens.
Entrevistas.
Tudo organizado para fortalecer a imagem dos dois como uma dupla.
Helena sentiu a respiração pesar.
"Ela construiu uma imagem."
Carolina confirmou.
"Sim."
"Uma imagem onde ela era a mulher que estava ao lado dele."
Helena fechou a pasta.
Durante meses, ela se perguntou se tinha sido substituída.
Agora percebia algo diferente.
Vitória não apenas apareceu.
Ela criou espaço para entrar.
Enquanto isso, em São Paulo, Eduardo recebia uma ligação de Teresa.
Ela pediu que ele fosse até a mansão.
Quando chegou, encontrou sua mãe na biblioteca.
Mas havia outra pessoa na sala.
Um advogado da família.
Eduardo percebeu imediatamente que aquilo era sério.
"O que aconteceu?"
Teresa colocou alguns documentos sobre a mesa.
"Precisamos falar sobre Vitória."
Eduardo ficou em silêncio.
O nome dela ainda trazia desconforto.
O advogado abriu uma pasta.
"Fizemos uma análise dos últimos anos da Fundação."
Eduardo olhou para os documentos.
"E?"
O homem respirou fundo.
"Encontramos movimentações que precisam ser investigadas."
Eduardo franziu a testa.
"Que tipo de movimentações?"
"Projetos aprovados pela Fundação que beneficiavam empresas ligadas a pessoas próximas de Vitória."
O silêncio tomou conta da sala.
Eduardo pegou alguns papéis.
Cada página parecia revelar uma nova peça de um quebra-cabeça.
Eventos financiados pela Fundação.
Contratos de comunicação.
Parcerias estratégicas.
Tudo parecia ter um caminho.
E esse caminho terminava em pessoas próximas a Vitória.
"Ela usou a Fundação?"
O advogado respondeu:
"Existem fortes indícios."
Eduardo passou a mão pelo rosto.
Durante meses, ele acreditou que o maior erro tinha sido se envolver emocionalmente com outra pessoa.
Agora percebia que talvez tivesse colocado dentro da própria família alguém com outros interesses.
Teresa olhou para o filho.
"Você confiou nela."
Eduardo respondeu baixo:
"Eu confiei porque queria acreditar que alguém me entendia."
Sua mãe ficou séria.
"Esse foi o problema."
Ele olhou para ela.
"Eu estava tão distante de Helena que qualquer pessoa que prestasse atenção em mim parecia especial."
A frase doeu.
Porque era verdade.
Vitória havia ocupado um espaço que ele mesmo deixou vazio.
Naquela tarde, Eduardo chamou Vitória para uma conversa.
Ela chegou ao escritório acreditando que ainda conseguiria controlar a situação.
Entrou sorrindo.
"Você queria falar comigo?"
Eduardo estava sentado atrás da mesa.
Mas dessa vez ele não parecia o homem que ela conhecia.
Não havia admiração.
Não havia dúvida.
Apenas decepção.
"Quero entender algumas coisas."
Vitória percebeu o tom.
"Sobre o quê?"
Ele colocou alguns documentos sobre a mesa.
"Sobre a Fundação."
O rosto dela mudou levemente.
"Você está investigando meu trabalho?"
"Estou tentando descobrir a verdade."
Vitória cruzou os braços.
"Depois de tudo que fiz por você?"
Eduardo olhou para ela.
"Essa frase é exatamente o problema."
Ela ficou em silêncio.
"Você sempre fala sobre o que fez por mim."
Ele levantou alguns documentos.
"Mas nunca falou sobre o que fez pela empresa."
Vitória respirou fundo.
"Eu estava ajudando você."
Eduardo respondeu:
"Ou tentando se aproximar de mim?"
Pela primeira vez, Vitória perdeu o controle.
"Você acha que Helena era perfeita?"
Eduardo ficou sério.
"Não mude de assunto."
Ela riu de forma amarga.
"Agora você defende ela?"
Eduardo não respondeu.
E aquele silêncio foi suficiente.
Vitória entendeu.
Helena ainda estava presente na vida dele.
Mesmo longe.
Mesmo sem responder.
Mesmo sem voltar.
A raiva tomou conta dela.
"Você vai se arrepender disso."
Eduardo levantou os olhos.
"É uma ameaça?"
Vitória recuperou o sorriso.
"Não."
Fez uma pausa.
"É um aviso."
Ela saiu do escritório.
Mas Eduardo sabia.
Aquilo não tinha terminado.
Naquela noite, Teresa recebeu uma nova informação.
Uma análise dos documentos revelou algo ainda mais grave.
Vitória não estava apenas tentando conquistar Eduardo.
Ela estava tentando garantir uma posição dentro do patrimônio da família.
Ela queria acesso às decisões.
Aos investimentos.
Ao futuro da Vasconcelos Participações.
Quando Eduardo recebeu a notícia, ficou em silêncio.
Porque finalmente percebeu o tamanho do erro.
Ele não tinha apenas colocado seu casamento em risco.
Ele tinha colocado a própria família em perigo.
Enquanto isso, em Paraty, Helena recebia uma mensagem de Carolina.
Uma única frase.
Mas suficiente para fazer seu coração acelerar:
"Helena, existe uma parte dessa história que Eduardo ainda não sabe."
Ela olhou para a tela.
Antes que pudesse responder, chegou uma segunda mensagem.
E dessa vez o conteúdo revelava que o segredo envolvendo Vitória poderia destruir não apenas a relação deles...
Mas também o futuro do filho que Helena carregava.