A chuva torrencial despencava sem piedade sobre a pista escura do aeródromo de Lisboa, lavando o asfalto e transformando a fuligem dos destroços em riachos escuros.
Inês mantinha os braços firmes, com a pistola apontada diretamente para o peito do Ministro da Justiça, cujos olhos frios brilhavam sob a penumbra da tempestade.
"Baixa essa arma, Inês, pois estás prestes a cometer o maior erro da tua vida contra a própria família", sibilou o Ministro com um sorriso cortante e venenoso.
"A única família que eu tive foi destruída pelas tuas mãos e pela tua ganância insaciável de poder", retorquiu Inês, com a voz firme cortando o som da chuva.
O Ministro deu um passo cauteloso para a frente, tentando usar a manipulação psicológica que dominara o estado durante décadas inteiras. "Os teus pais não eram santos, miúda; eles tentaram roubar o cofre do sindicato e pagaram o preço exato pela sua própria traição", mentiu ele cinicamente.
"Eles apenas tentaram expor a vossa rede de corrupção antes de serem eliminados pelos vossos assassinos de aluguer", gritou Inês, sentindo o dedo comprimir levemente o gatilho.
Um som de metal retorcido e passos arrastados ecoou dos escombros do carro aríete logo atrás dela, atraindo a atenção de ambos. Matheus emergiu cambaleante do meio do ferro fumegante, com o ombro sangrando profusamente e o terno arruinado, mas exibindo um sorriso mortal nos lábios.
"Nunca subestimes a resiliência daqueles que já não têm absolutamente nada a perder, Ministro", disse Matheus com uma voz rouca e desafiadora, postando-se lado a lado com Inês.
O Ministro da Justiça olhou para os dois, percebendo pela primeira vez que a imensa fortuna e o poder político que acumulou não podiam salvá-lo daquele acerto de contas. "Vocês acham mesmo que vão sair daqui vivos e impunes depois de destruírem um jato do estado?", gaguejou ele, perdendo a compostura habitual.
"Nós não queremos impunidade, nós queremos apenas a justiça poética que vocês negaram a centenas de inocentes", declarou Inês com uma serenidade cortante.
Antes que o Ministro pudesse alcançar a arma escondida no seu casaco de grife, um estampido seco rompeu o ar da pista de pouso. A bala perfurou o ombro do político corrupto, fazendo-o tombar de joelhos sobre o asfalto encharcado com um grito de dor estrangulada.
Inês baixou levemente a pistola fumegante, olhando nos olhos do homem intocável que agora gemia na lama como um verme comum. "Isto é por todas as memórias falsas e por todas as vidas que roubaste para alimentar o teu império", sussurrou ela.
O som ensurdecedor de dezenas de sirenes da Polícia Federal irrompeu subitamente pelos portões secundários do perímetro do aeródromo. Viaturas camufladas invadiram a pista a toda a velocidade, saltando sobre os escombros e cercando o local com luzes vermelhas e azuis a girar na neblina.
Agentes federais incorruptíveis saltaram das viaturas com armas em punho, bloqueando todas as saídas e isolando a área em poucos segundos. "Parados! Ninguém se mova, a Polícia Federal está no comando da operação!", gritou o oficial encarregado, avançando com cautela.
O Ministro da Justiça foi imobilizado e algemado no asfalto pelos agentes federais, vendo o seu império desmoronar-se sob a chuva implacável de Lisboa. A justiça finalmente alcançava os intocáveis, encerrando o ciclo de terror que sufocara a capital durante tantos anos.
Inês olhou para os agentes a garantirem a cena, sentindo o peso invisível de décadas de mentiras evaporar-se de vez de seus ombros. Ela virou-se lentamente, deixando cair a arma fumegante no chão molhado da pista de aterrissagem.
Sem olhar para trás e sem mais nenhuma palavra por dizer, Inês atirou-se diretamente para os braços ensanguentados de Matheus. Ele acolheu-a com firmeza contra o seu peito, apertando-a com toda a força enquanto a chuva lavava o sangue e as lágrimas de ambos.
Eles estavam finalmente livres, abraçados sob a tempestade na pista de pouso, prontos para recomeçar longe de todas as sombras.