O motor do sedan cinzento rugiu com fúria quando Inês engatou a primeira marcha, arrancando a toda a velocidade para longe da Quinta do Alentejo. A estrada de terra batida sumia para trás enquanto ela empurrava o ponteiro do acelerador implacavelmente contra o assoalho.
"Aguenta-te firme, Matheus, não ouses desfalecer agora", ordenou ela, olhando de relance para o banco do passageiro.
Matheus respirava com extrema dificuldade, com a cabeça tombada para o lado e o sangue a jorrar livremente do ferimento no ombro. "O Voo 404... vai descolar da pista privada de Lisboa... tens de o alcançar a todo o custo", balbuciou ele com a voz fraca.
A distância até à capital portuguesa estendia-se por mais de cento e quarenta quilómetros de asfalto sinuoso e implacável. Inês agarrou o volante com ambas as mãos, convertendo-se numa força da natureza determinada a manter o homem que amava vivo.
"Eu não vou deixar-te morrer, ouviste?", gritou ela, cortando as curvas da autoestrada a uma velocidade vertiginosa e louca.
O painel de instrumentos tremia violentamente sob a exigência extrema daquele motor forçado ao limite absoluto de suas capacidades. A paisagem alentejana fundia-se num borrão cinzento enquanto o ponteiro da velocidade cravava-se perigosamente nos cento e oitenta quilómetros por hora.
Matheus soltou um gemido abafado, perdendo a consciência por breves segundos antes de forçar os olhos a abrirem-se novamente. "Inês... a tua mão... estás a tremer", murmurou ele, tentando esticar os dedos para tocar no braço dela.
"Estou perfeitamente concentrada, apenas fecha os olhos e guarda o teu fôlego para quando chegarmos lá", retorquiu ela, com os olhos verdes fixos na estrada.
As torres de iluminação do aeródromo privado de Lisboa começaram a desenhar-se no horizonte distante através da neblina da manhã. No centro da pista asfaltada, um jato executivo luxuoso já acionava as turbinas principais, preparando-se para iniciar a corrida de descolagem.
"Eles vão escapar... o jato já está a movimentar-se para a cabeceira da pista", alertou Matheus, tossindo fracamente e suando frio.
Inês cerrou os dentes com uma fúria indomável, avistando os portões de segurança de ferro reforcado que bloqueavam o acesso direto ao tarmac. "Ninguém vai escapar a esta justiça hoje", sibilou ela, engolindo o nó de pânico que ameaçava travar-lhe a garganta.
Ela pisou o acelerador ainda mais fundo, transformando o veículo danificado num verdadeiro aríete metálico de alta velocidade. "Segura-te bem ao painel, Matheus!", gritou ela segundos antes de o carro colidir estrondosamente contra os portões de segurança.
O impacto estilhaçou as trancas de ferro em milhares de fragmentos brilhantes, enviando faíscas para todos os lados num cenário caótico. O capô do sedan amassou-se por completo, mas a carcaça continuou a avançar com inércia letal diretamente para a pista de aterrissagem.
O jato executivo já acelerava a dezenas de metros de distância, levantando poeira e rugindo com a potência máxima de suas turbinas. Inês manobrou o carro com precisão cirúrgica, interceptando a rota de decolagem da aeronave em movimento.
"O que estás a fazer?", tentou perguntar Matheus, arregalando os olhos ao perceber a loucura tática que ela planeava executar.
"Vou parar este avião com as nossas próprias regras", declarou ela, guinando o volante com toda a força para o lado esquerdo.
Com um estrondo ensurdecedor de metal contra metal, o sedan espatifou-se violentamente contra o trem de aterrissagem principal do jato. O impacto arrancou a roda do avião, desestabilizando a aeronave e forçando os pilotos a acionarem os travões de emergência com urgência.
O jato derrapou perigosamente pela pista molhada antes de imobilizar-se por completo, com a fuselagem fumegante e danificada. O carro de Inês jazia totalmente destruído, transformado num monte de ferro retorcido e fumegante no meio do asfalto.
O silêncio tenso instalou-se na pista por breves instantes, quebrado apenas pelo som abafado do motor do avião a desligar-se lentamente. A porta da cabine do jato executivo abriu-se com um estalido hidráulico, deitando uma escada retrátil sobre o asfalto.
Inês empurrou a porta deformada do carro com o ombro, rastejando para fora dos escombros fumegantes com a pistola firmemente na mão. Uma figura elegante e intocável emergiu do interior da aeronave, ajustando os punhos do terno com uma serenidade perturbadora.
As nuvens fecharam-se de repente no céu cinzento, e as primeiras gotas de uma chuva torrencial começaram a despencar sobre o tarmac. A água fria misturava-se ao sangue e à fuligem na pele de Inês, parecendo um batismo de fogo e purificação.
O homem que descia os degraus virou o rosto para encará-la, revelando traços que fizeram o coração de Inês parar por um segundo. Era o Ministro da Justiça, o homem considerado oficialmente morto num acidente de viação há uma década, mas que afinal liderava todo o sindicato nas sombras.
"Impressionante persistência para uma simples restauradora de livros, minha cara neta espiritual", disse o Ministro com um sorriso cínico nos lábios.
Inês engorgetou a arma com o polegar, apontando o cano diretamente para o peito daquele que orquestrara toda a sua tragédia familiar. "O espetáculo terminou, Mestre, e agora vais pagar por cada mentira que destruiu a minha vida", declarou ela com uma voz gélida.