A névoa química do gás paralisante dissipou-se lentamente, deixando um rastro de dormência e queimação na garganta de Inês. Ela abriu os olhos com extrema dificuldade, sentindo o peso esmagador da falta de oxigénio a comprimir-lhe o peito.
O visor digital no teto da abóbada continuava a implacável contagem decrescente, enquanto o ar na câmara blindada se tornava rarefeito e pesado. Inês tentou mexer os braços, mas os músculos pareciam feitos de chumbo após a exposição ao agente químico.
Matheus moveu-se ao lado dela no chão de pedra, soltando um gemido abafado de dor enquanto forçava o próprio corpo a erguer-se. "Inês... estás bem?", perguntou ele com a voz rouca, a respiração sibilante e entrecortada.
"O ar está a acabar, Matheus... sinto que os meus pulmões estão a congelar", sussurrou ela, com os olhos verdes brilhando em lágrimas de pura exaustão.
Matheus apoiou as costas contra a parede de aço da porta trancada, avaliando o painel elétrico de controle parcialmente exposto pela explosão. "Nós não vamos morrer enterrados nesta tumba de traidores, eu recuso-me", murmurou ele com uma determinação feroz nos olhos âmbar.
Ele levantou-se cambaleante, arrastando os pés pelo chão de lajes até alcançar a caixa de fusíveis industrial cravada na parede lateral. Com as mãos nuas e sem hesitar por um único segundo, ele cravou os dedos nas bordas de metal oxidado e arrancou a tampa à força.
Fios elétricos grossos e faiscantes expuseram-se num emaranhado perigoso, sibilando energia pura sob alta voltagem na atmosfera rarefeita. "Matheus, o que estás a fazer? Vais eletrocutar-te vivo!", gritou Inês, tentando levantar-se para o impedir.
"É a única forma de fritar o sistema de travamento magnético antes que o oxigénio acabe de vez", retorquiu ele sem olhar para trás. Ele agarrou os cabos principais com as palmas das mãos nuas, ignorando o impacto imediato da corrente elétrica a rasgar-lhe os tecidos.
Uma descarga de faíscas violentas iluminou a penumbra do cofre, banhando o rosto de Matheus em clarões brancos e sádicos. Um grito de dor extrema rasgou a garganta dele, enquanto o cheiro a carne queimada e ozono começava a impregnar o ar confinado.
"Solta isso, por amor de Deus, solta!", suplicou Inês, rastejando pelo chão e agarrando-se à cintura dele para o afastar dos fios.
"Se eu soltar... morremos os dois aqui", balbuciou Matheus, com as veias do pescoço saltadas e o suor misturado a sangue escorrendo pela pele.
A corrente elétrica continuava a sacudir violentamente o corpo dele, mas a sua determinação cega sobrepunha-se a qualquer limite físico humano. "Eu não posso perder-te, Inês... não depois de ter passado anos a proteger-te nas sombras", confessou ele num delírio febril.
As defesas emocionais de ambos ruíram por completo sob o peso daquela asfixia iminente e da dor insuportável. "Porque é que fizeste tudo isto por mim, Matheus?", chorou Inês, colando o rosto contra o peito dele, sentindo o calor febril da pele marcada por choques.
"Porque tu és a única coisa pura que me restou neste mundo de merda", sussurrou ele, com os olhos âmbar perdendo o foco devido à falta de ar. "Eu amo-te, Inês... desde o primeiro dia em que te vi chorar naquele armário."
Inês sentiu o coração disparar no peito, encontrando naquelas palavras a força desesperada para continuar a respirar. "Eu também te amo, Matheus... não me deixes morrer aqui sozinha", soluçou ela, apertando-o com o resto das forças que lhe restavam.
Com um último rugido de pura fúria e desespero, Matheus canalizou toda a energia restante e fechou o curto-circuito definitivo com as próprias mãos calejadas. O painel elétrico explodiu numa chuva de faíscas cegantes, desarmando o sistema magnético com um estalido ensurdecedor.
Aproveitando o momento em que a estrutura de aço cedeu parcialmente, Matheus desferiu um pontapé brutal com a bota contra a porta blindada. A imensa placa de metal estilhaçou-se para fora, voando pelos ares antes de desabar estrondosamente contra o corredor de pedra.
O ar fresco invadiu o cofre de imediato, fazendo com que ambos caíssem desordenadamente para a frente, fora da câmara da morte. Matheus desabou sobre o piso de lajes, puxando Inês para os seus braços enquanto ambos ofegavam e tossiam violentamente.
"Conseguimos... nós conseguimos", sussurrou Inês, afundando o rosto no pescoço dele e chorando de alívio.
Antes que pudessem recuperar o fôlego por completo, um alto-falante camuflado no teto do corredor subterrâneo ativou-se com um chiado estridente. Uma risada fria, cínica e conhecida ecoou pelas paredes de pedra, fazendo o sangue de ambos gelar instantaneamente.
"Magnífico espetáculo de sobrevivência, meu caro Matheus, mas as ratinhas nunca conseguem escapar do labirinto", zombou a voz inconfundível do comissário Duarte vinda da superfície.
"Duarte...", rosnou Matheus, ajudando Inês a levantar-se enquanto os seus olhos procuravam a origem do som na penumbra.
"O vosso tempo acabou, e o verdadeiro jogo vai começar lá em cima", concluiu a voz antes de o alto-falante desligar-se com um estalido seco.