O sedan cinzento derrapou suavemente sobre o cascalho da entrada principal, parando nas sombras projetadas pelos muros calcinados da Quinta do Alentejo. O ar da planície alentejana trazia um cheiro denso e nauseabundo de cinzas recentes, carne queimada e destruição deliberada.
Inês abriu a porta do passageiro com cautela extrema, sentindo o vento gélido da madrugada açoitar-lhe o rosto enquanto apoiava os pés no chão poeirento. "Eles chegaram aqui muito antes de nós, Matheus", sussurrou ela, apontando para as pilastras principais da fachada que agora desabavam em brasas fumegantes.
Matheus saiu do lado do condutor, sacando a pistola sobressalente com um movimento rápido e fluido enquanto perscrutava os cantos escuros do pátio arruinado. "Isto não foi apenas um ataque de represália, foi uma queima de arquivo em massa executada por profissionais", constatou ele com a voz gélida.
Eles avançaram juntos através dos salões outrora suntuosos da herdade, onde tapeçarias valiosas jaziam reduzidas a cinzas e os móveis de carvalho estilhaçavam-se sob os pés. No centro do salão principal, uma escadaria de ferro forjado descia em caracol para as profundezas da terra, exalando um ar gélido e fétido.
"O acesso à cave principal está aberto, mas há algo de errado no silêncio lá em baixo", murmurou Matheus, acendendo a pequena lanterna tática presa ao cano da arma.
Inês seguiu-o de perto, mantendo a sua própria arma firme enquanto descia os degraus de metal que rangiam sob o peso de ambos. À medida que avançavam para o complexo subterrâneo, a claridade fria da lanterna revelou um cenário de horror indescritível que fez o estômago de Inês revirar.
Nas abóbadas seculares da adega, os corpos dos líderes rivais do sindicato de Lisboa jaziam pendurados pelas pernas em ganchos de ferro, tal como animais num matadouro clandestino. O sangue fresco ainda gotejava pesadamente sobre o piso de lajes de pedra, formando poças escuras que refletiam o facho de luz.
"Eles eliminaram a própria concorrência antes que pudessem negociar com as autoridades", disse Matheus, analisando as marcas de execução sumária nas nucas dos cadáveres.
Inês engoliu em seco, contendo o impulso de vomitar enquanto desviava o olhar daquela macabra galeria de traidores. "O cofre mestre onde Álvaro guardava os registos financeiros tem de estar mais à frente, no fundo do corredor blindado", lembrou ela com a voz trêmula.
Eles correram pelo corredor secundário até alcançarem uma imensa porta de aço reforçado, cujo painel eletrónico digital ainda emitia uma luz azulada e intermitente. No pedestal de comando à entrada, jazia o livro-razão principal encadernado em couro enegrecido, aberto exatamente na página das transações confidenciais.
Inês aproximou-se da mesa de comando, estendendo a mão para folhear as páginas do manuscrito que detalhava o império de corrupção. "Está tudo aqui, Matheus; os nomes dos ministros, os números das contas offshore e as ordens de assassinato assinadas por Duarte", confirmou ela, pasmada.
No entanto, ao lado do livro-razão, um pequeno visor de escaneamento biométrico pulsa com uma luz vermelha exigindo identificação imediata para descarregar o arquivo digital completo. Na base do leitor, uma etiqueta metálica trazia uma inscrição macabra gravada a laser:
Apenas o sangue do herdeiro desbloqueia o destino
.
Inês olhou para o visor, depois para os seus próprios dedos, sentindo um calafrio mortal descer pela espinha. "O Álvaro disse-me uma vez que este cofre só abria com a chave genética da família... Ele sabia de tudo isto desde o início", sussurrou ela, com a voz desfeita em pânico.
Matheus percebeu a intenção dela no mesmo segundo e deu um passo rápido em sua direção, segurando-lhe o pulso com uma força desesperada. "Não faças isso, Inês, para imediatamente", ordenou ele, com os olhos âmbar arregalados de puro pavor.
"Se eu não escanear a minha impressão digital agora, nunca vamos conseguir provar nada a ninguém", argumentou ela, tentando puxar o braço de volta.
"Isso não é apenas um cofre de documentos, miúda, é uma armadilha genética programada para ativar os protocolos de contingência do sindicato", gritou Matheus, apertando-lhe o pulso com mais força. "O teu querido mentor planeou esta porcaria de armadilha para te atrair aqui desde o primeiro dia em que te acolheu no estúdio!"
As palavras de Matheus caíram como um golpe físico devastador sobre o peito de Inês. "Mentira... ele amava-me, ele era a única família que me restava...", soluçou ela, com as lágrimas a turvarem-lhe a vista.
"Ele vendeu-te a tua própria identidade em troca de proteção, e agora quer usar-te para fechar o ciclo", retorquiu Matheus, colando a testa à dela num apelo desesperado. "Escolhe-me a mim, esquece esta droga de dossiê, vamos embora daqui agora mesmo."
Inês olhou fundo nos olhos daquele homem que cruzara o inferno para salvá-la, sentindo o amor e o terror lutarem violentamente em sua mente. No entanto, antes que pudesse responder ou afastar-se da consola, o seu polegar esquerdo roçou acidentalmente a placa de vidro do leitor biométrico.
Um bipe eletrónico estridente ecoou imediatamente por toda a abóbada subterrânea, confirmando a leitura da impressão digital com um brilho verde intenso. O visor exibiu uma mensagem fria e impessoal:
Identidade confirmada. Sujeito 04 validado com sucesso
.
Inês olhou para o próprio polegar manchado de um leve vestígio de sangue seco no leitor, percebendo com horror absoluto que fora geneticamente construída para abrir aquela tumba. "Eu sou apenas a chave... fui criada para abrir a porta aos meus próprios carrascos", sussurrou ela, com a voz completamente esvaziada de esperança.
Antes que Matheus pudesse puxá-la para longe do console, um mecanismo hidráulico maciço ativou-se com um estrondo ensurdecedor nas costas deles. A imensa porta de aço blindado da adega desabou pesadamente sobre o batente, selando a saída com um travamento automático irreversível.
"A porta trancou-se sozinha!", exclamou Matheus, correndo para o painel de emergência e desferindo um pontapé violento contra o metal maciço.
Um temporizador digital de contagem decrescente acendeu-se no teto da abóbada, exibindo números vermelhos implacáveis:
48:00:00 horas até à depleção total de oxigénio
.
"Nós fomos trancados aqui dentro para morrer lentamente à medida que o ar for consumido", constatou Matheus, voltando-se para Inês com o maxilar completamente travado pela fúria.
Inês, tomada por um acesso de desespero e raiva cega contra o destino que tentava esmagá-la, agarrou um pesado castiçal de ferro que estava sobre a mesa. "Eu recuso-me a morrer nesta câmara de tortura!", gritou ela, desferindo um golpe brutal contra o painel de vidro de emergência do sistema de ventilação.
O vidro estilhaçou-se com um estalido estridente, mas o impacto acionou imediatamente um circuito secundário de segurança oculto nas condutas. Um assobio agudo e mecânico cortou o ar da sala, seguido por colunas de gás incolor que começaram a expelir vapores densos pelas grelhas do teto.
"Inês, afasta-te daí agora mesmo!", rugiu Matheus, atirando-se sobre ela para cobrir-lhe o rosto com a gola do próprio casaco.
Era tarde demais, pois o agente paralisante letal já começava a impregnar a atmosfera da adega, fazendo com que a visão de ambos turvasse rapidamente. Enlaçados no chão de pedra fria, com o som do alarme a ecoar no teto, eles sucumbiram à névoa química que descia para devorá-los vivos.