A escuridão do leilão clandestino rompeu-se em disparos secos quando as luzes se apagaram e o pânico engoliu a elite corrupta de Lisboa. Apoiados na coluna de mármore maciço, Matheus agarrou firmemente a mão de Inês e a puxou com força pelas portas de serviço.
Eles fugiram pelas entranhas e catacumbas esquecidas do palácio, onde o cheiro de mofo e pedra úmida se misturava ao suor da adrenalina. A saída das catacumbas lançou-os diretamente para as trilhas lamacentas da floresta de Sintra sob uma tempestade furiosa.
A chuva fustigava-lhes o rosto, e o som de botas táticas batendo contra as pedras anunciava que o Esquadrão da Morte os caçava de perto. "Eles estão a encurtar a distância, Matheus!", gritou Inês, ofegante, com o vestido de seda colado às pernas pela lama densa.
"Não abrande o passo, miúda, ou seremos alvos fáceis para os rifles deles", retorquiu Matheus com a voz rouca, ignorando a dor no ombro esquerdo.
Os mercenários de Duarte irromperam pela clareira como uma alcofa de cães de caça, disparando rajadas de fuzil que estilhaçavam os troncos ao redor. Lascas de madeira e folhas picadas voavam pelo ar, transformando o refúgio natural numa zona de guerra aberta e implacável.
"Precisamos de cobertura, e agora!", exclamou Inês, sentindo o cheiro acre da pólvora misturar-se ao perfume da terra molhada.
"Ali, atrás daquele antigo mausoléu de pedra!", apontou Matheus, empurrando-a com força para a estrutura tumular em ruínas.
Eles desabaram contra a alvenaria fria e coberta de musgo, arfando pesadamente e trocando olhares carregados de adrenalina pura. Matheus espiou a esquina da ruína, disparando os últimos cartuchos da sua pistola contra a vanguarda inimiga até ouvir o estalido metálico do cão a bater no vazio.
"A minha munição esgotou-se, Inês", murmurou ele, com um sorriso irónico e tenso nos lábios. "Parece que cheguei ao fim do meu estoque."
Um dos mercenários avançou corajosamente pela lama, erguendo o fuzil de assalto diretamente para o peito de Matheus. Inês viu a morte refletida naqueles olhos frios e, num sobressalto de pura sobrevivência e lealdade feroz, agiu sem hesitar.
Ela atirou-se sobre o fuzil pesado que jazia no chão ao lado de um mercenário ferido momentos antes, agarrando o cano de metal com ambas as mãos. "Ninguém toca nele!", gritou Inês, engatilhando a arma com precisão mecânica e descarregando uma rajada furiosa contra o atacante.
O mercenário tombou pesadamente na lama, neutralizado pela coragem inesperada daquela mulher. Os demais perseguidores recuaram um passo, surpreendidos pelo fogo de cobertura implacável que varria a clareira.
Matheus puxou-a de volta para a segurança relativa do mausoléu, com os olhos de âmbar brilhando numa mistura profunda de choque e pura devoção. "Onde é que aprendeste a disparar um fuzil de assalto com essa perfeição toda?", perguntou ele, segurando-a pelos ombros trêmulos.
"O meu pai biológico treinou-me para sobreviver a monstros como estes, mesmo que a minha memória tenha demorado a lembrar-se", respondeu Inês, com a respiração descompassada.
A barreira de gelo e desconfiança que os mantinha separados ruiu por completo naquele instante de trégua forçada. Matheus puxou-a para si com força, colando os seus lábios aos dela num beijo feroz, desesperado e febril que sabia a chuva, fumaça e pólvora.
Inês cedeu ao impacto daquele abraço, enlaçando os braços ao redor do pescoço dele e devolvendo a intensidade do beijo com a mesma fome. "Se morrermos aqui esta noite, que seja ao menos com a verdade entre nós", sussurrou ela contra a boca dele.
"Nós não vamos morrer, Inês, eu juro-te", prometeu Matheus, antes de desviar o olhar para o corpo do mercenário caído perto deles.
O rádio comunicador tático preso ao colete do inimigo morto emitiu um chiado estático antes de uma voz metálica ecoar pela clareira escura. "Atenção ao esquadrão, o cofre do Alentejo já está completamente vazio, repito, o alvo principal foi limpo."
Inês arregalou os olhos verdes, sentindo o sangue gelar nas veias com a informação transmitida pelas ondas inimigas. "Eles já chegaram lá primeiro... o nosso destino final já foi saqueado", murmurou ela com desespero.
O som de passos pesados e recarga de armamento pesado voltou a aproximar-se rapidamente através da vegetação encharcada. "Eles vão cercar-nos e bombardear este local se ficarmos aqui mais um segundo", constatou Matheus, avaliando o terreno lamacento.
Avistando a grelha enferrujada de um antigo dreno de escoamento de águas pluviais logo abaixo da estrutura de pedra, Matheus não teve dúvidas. "Agarra-te a mim, fecha os olhos e não respires por nada deste mundo", ordenou ele, apontando para o tubo subterrâneo.
Matheus puxou Inês para baixo, mergulhando com ela na lama espessa do dreno exatamente no milésimo de segundo em que uma granada de morteiro explodia com um estampido ensurdecedor contra a parede do mausoléu.
O impacto da explosão descarregou uma onda de choque ensurdecedora que sacudiu as paredes estreitas e úmidas do dreno subterrâneo. A água lamacenta e fétida da enxurrada misturava-se ao suor e à fuligin na pele de Inês, que tossia sufocada pelo cheiro acre da pólvora.
"Continua a avançar e não pares por nada, miúda!", gritou Matheus por cima do estrondo abafado da tempestade que ainda rugia lá fora.
Ele agarrou-a pela cintura com o braço bom, arrastando-a com força através do cano de concreto estreito e escuro. As botas escorregavam na lama acumulada, mas a urgência absoluta de escapar daquela câmara de morte os impulsionava para a frente.
Pouco a pouco, o fedor sufocante de esgoto foi substituído pelo ar fresco e úmido da vegetação rasteira da serra de Sintra. Eles emergiram do outro lado do dreno, desabando desordenadamente sobre um barranco íngreme coberto de musgo e samambaias encharcadas.
Inês puxava o ar desesperadamente para os pulmões, sentindo o peito arder enquanto limpava a lama dos olhos com as costas da mão. "Estás ferida?", perguntou Matheus, verificando rapidamente o corpo dela com mãos firmes e autoritárias.
"Estou inteira, mas o rádio daquele mercenário... ouviste o que ele disse sobre o cofre do Alentejo?", questionou Inês, com a voz trêmula pela exaustão. "Se o cofre já foi esvaziado, significa que toda esta nossa corrida pode ser uma armadilha perfeita."
Matheus levantou-se com dificuldade, ajudando-a a pôr-se de pé enquanto escutava atentamente os ruídos ao redor. "Significa apenas que Duarte e os seus capangas estão a tentar apagar as últimas provas antes de nós chegarmos lá", afirmou ele com o maxilar travado.
A chuva começava finalmente a dar tréguas, transformando-se numa garoa fina que envolvia a encosta da montanha numa neblina densa. Ao longe, o ronco abafado de um motor de alta cilindrada indicava que o veículo de fuga que Matheus havia preparado estava à espera.
"Onde é que deixaste o carro?", perguntou Inês, cruzando os braços para tentar conter o frio intenso que congelava o seu vestido de seda.
"A cerca de quinhentos metros daqui, escondido entre os eucaliptos na antiga estrada florestal", respondeu Matheus, puxando-a pela mão. "Mas teremos de avançar a pé e em absoluto silêncio, pois eles sabem que escapamos."
Enquanto caminhavam pela trilha lamacenta, a mente de Inês processava cada fragmento das revelações que pontuavam a sua vida. "Tu disseste que o meu pai biológico me treinou antes de desaparecer, mas eu não me lembro de absolutamente nada", confessou ela.
Matheus olhou para ela de soslaio, suavizando ligeiramente a expressão dura do rosto sob a penumbra das árvores. "Porque a tua mente bloqueou o trauma profundo daquela noite para te proteger de uma dor que seria insuportável", explicou ele.
"E tu?", insistiu Inês, parando por um instante e olhando-o fixamente nos olhos âmbar. "Como é que sabes tanto sobre mim, sobre o meu pai e sobre esta rede criminosa?"
Matheus desviou o olhar por uma fração de segundo, encarando a neblina que cobria as copas dos pinheiros. "Porque o teu pai era o meu comandante direto nas operações secretas antes de ser traído pelos próprios aliados", revelou ele com amargura.
As palavras caíram como um peso morto entre eles, esclarecendo o vínculo invisível que os unia desde o primeiro segundo no Bairro Alto. "Então tu estiveste lá... na noite em que tudo aconteceu?", perguntou Inês, sentindo a respiração prender-se na garganta.
"Sim, eu estava lá, e a única coisa certa que fiz na minha vida foi desobedecer à ordem de eliminar a criança que chorava no armário", sussurrou Matheus.
Inês sentiu as lágrimas misturarem-se à água da chuva em seu rosto, percebendo que a proteção daquele homem vinha de uma dívida de sangue antiga. Ela apertou a mão dele num gesto mudo de trégua e de aceitação mútua.
Eles alcançaram a estrada florestal, onde um velho sedan cinzento aguardava camuflado sob ramos espessos de pinheiro. Matheus destravou as portas rapidamente, empurrando Inês para o banco do passageiro antes de ocupar o lugar do condutor.
O motor rugiu com força ao primeiro toque na ignição, rompendo o silêncio da serra com um ronco agressivo e encorajador. "Pronta para deixar este inferno de mentiras para trás?", perguntou Matheus, engatilhando a marcha com determinação.
"Acelera de uma vez, temos um cofre vazio para reabrir com as nossas próprias regras", retorquiu Inês, com os olhos verdes brilhando com uma nova resolução.
O carro disparou pela estrada de terra batida, levantando lama e cascalho enquanto rasgava a neblina na direção das planícies do Alentejo. Atrás deles, a serra de Sintra desaparecia na bruma, mas o verdadeiro perigo estava apenas a começar.