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《O Último Tango em Lisboa》Capítulo 4

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"Ainda tens dúvidas sobre quem realmente puxou o gatilho naquela noite?", perguntou Matheus com a voz grave, sem desviar os olhos da estrada escura.

"As tuas respostas ainda não limpam o sangue nas tuas mãos, Matheus, mas precisamos destas chaves se quisermos apanhar os verdadeiros monstros", respondeu Inês, ajustando o tecido do vestido de seda que agora cobria suas roupas.

O veículo parou diante da fachada decrépita de um palácio abandonado na zona histórica de Lisboa, cujos portões ocultavam o submundo mais elitista da capital. Ali funcionava o leilão dos desgraçados, um antro onde os intocáveis negociavam fortunas roubadas e segredos de estado.

Matheus entregou-lhe uma máscara de seda negra bordada com fios dourados, cobrindo a metade superior do seu rosto de forma impecável. "Lembra-te do plano, Inês; és a condesa de Alverca, fria, intocável e dona de um capital ilimitado", instruiu ele, ajeitando o seu próprio terno de grife.

"Eu sei perfeitamente como interpretar o papel de alguém que não tem nada a perder", retorquiu ela, ajeitando o decote do vestido vermelho-sangue que contrastava com sua pele pálida.

Eles atravessaram a entrada principal sob o olhar avaliador de seguranças armados que verificavam identidades falsificadas com precisão cirúrgica. O salão de baile principal exibia uma opulência decadente, com lustres de cristal estilhaçados e centenas de figuras mascaradas circulando em silêncio sepulcral.

"Mantém os olhos abertos e sorri para os lados, pois há atiradores em cima das varandas de veludo", murmurou Matheus, colando o corpo ao dela num gesto calculado de intimidade.

Inês sentiu a mão firme de Matheus deslizar para a sua cintura, ancorando-a com uma possessividade elétrica que a fez prender a respiração. "Estás a exagerar no teatro, meu caro marido", sussurrou ela, erguendo o queixo com desafio.

"Num antro de lobos, a única forma de sobrevivência é pareceres o predador mais perigoso da sala", respondeu ele junto à sua orelha, o hálito quente enviando arrepios por sua espinha.

Eles ocuparam um dos camarotes privados no segundo andar, tendo uma visão panorâmica perfeita do pódio onde o leiloeiro iniciava a disputa pelos lotes encriptados. O primeiro item em exibição era um servidor portátil contendo os registros bancários offshore das contas controladas pelo governo.

"Senhoras e senhores, abrimos as licitações para o lote zero-zero-sete com o valor inicial de cinco milhões de euros", anunciou o leiloeiro com uma voz untuosa.

Inês levantou a placa de prata sem hesitar, atraindo imediatamente os olhares curiosos de vários magnatas sentados nas primeiras filas. "Dez milhões", declarou ela com uma clareza cortante que ecoou por todo o salão silencioso.

Um magnata idoso com um terno impecável olhou para o camarote dela com evidente irritação e levantou a mão desdenhosamente. "Quinze milhões", retorquiu o bilionário corrupto, tentando intimidar a misteriosa condesa recém-chegada.

Inês sorriu friamente, adotando a postura corporativa implacável que o próprio sistema havia cravado em sua mente sem ela saber. "Vinte milhões, e sugiro que poupe a sua voz para quando perder o leilão, senhor", disparou ela, provocando murmúrios de surpresa na plateia.

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O bilionário engoliu em seco, derrotado pela audácia fria daquela mulher mascarada que não pestanejava diante de somas astronómicas. O martelo bateu três vezes e o lote foi arrematado, garantindo-lhes o acesso direto aos códigos de rastreio de Duarte.

"Belo golpe de mestre, minha cara condesa", elogiou Matheus, embora os seus olhos estivessem fixos na multidão abaixo com um sobressalto de alerta. "Parece que começaste a gostar de brincar com o fogo dos tubarões."

"Aprendi com o melhor professor de cinismo que esta cidade já produziu", retrucou Inês, mantendo o sorriso elegante colado aos lábios.

No centro da multidão no piso inferior, um homem de terno cinzento ajustava o colarinho com gestos lentos e calculados. Era Duarte, o comissário reformado, que discursava em voz baixa com outros figurões enquanto desfrutava de uma taça de champanhe.

"Vês o alvo principal ali em baixo, perto da fonte seca?", apontou Matheus discretamente com o queixo. "Duarte está a coordenar a venda do resto dos arquivos do estado."

"Ele tem exatamente o mesmo ar de falso salvador que o Álvaro tinha quando me contava histórias na oficina", murmurou Inês, sentindo a raiva queimar-lhe o peito.

"Mantém a calma, ainda não é o momento de confrontá-lo diretamente, precisamos de descarregar os dados para o nosso próprio terminal", avisou Matheus, puxando-a ligeiramente para mais perto.

Enquanto fingiam trocar carícias apaixonadas típicas de um casal da alta sociedade, Matheus conectava um pequeno dispositivo de transferência à rede privada do leilão. A barra de progresso no visor escondido na manga do vestido de Inês começou a avançar rapidamente.

"Faltam trinta porcento para concluir o download", sussurrou ela, monitorizando os segundos com o canto dos olhos.

"Acelera o processo, sinto um cheiro de pólvora nesta sala que não me agrada nada", rosnou Matheus, tensionando cada músculo do seu corpo sob o tecido caro do terno.

Foi então que Inês notou um detalhe perturbador entre os VIPs que observavam o leilão a partir das sombras da varanda lateral. Um homem alto, vestindo luvas escuras e um casaco de gola alta, ajustava o punho da camisa esquerda.

Na sua mão direita brilhava o reflexo exato de um anel de prata queimada idêntico àquele que Matheus encontrara no estúdio. Era o mesmo símbolo do assassino mascarado que negara tréguas ao seu mentor na noite fatídica do Bairro Alto.

"Matheus, olha para a varanda à esquerda", murmurou Inês, com a voz subitamente tensa e presa na garganta. "O homem com o anel de prata... ele está ali, a olhar diretamente para nós."

Matheus desviou o olhar para o ponto indicado, e o seu maxilar travou instantaneamente com uma fúria assassina mal disfarçada. "Eles já sabiam que íamos vir, isto foi uma armadilha desde o início", constatou ele com uma frieza cortante.

"O download está a terminar, faltam apenas cinco segundos", avisou ela, batendo levemente com os dedos na palma da mão dele.

O som de um silenciador abafado sibilou contra os painéis de madeira do teto do salão de baile. Uma faísca de gesso estilhaçado caiu sobre o ombro de Matheus, anunciando o início da emboscada no meio da festa.

As luzes do salão de baile piscaram violentamente duas vezes antes de se apagarem por completo, mergulhando a elite corrupta no pânico e na escuridão total. Gritos de horror e o som de copos de cristal a estilhaçarem-se ecoaram por toda a sala de festas.

Matheus envolveu com força a cintura de Inês com o braço, puxando-a para a protecção de uma coluna de mármore maciço. Ele colou os lábios junto ao cabelo dela, sussurrando com urgência: "Fomos descobertos, miúda; agora começa a verdadeira dança."

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