《O Jogo dos Duplos: Execução em Nome do Amor》Capítulo 10

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A garoa fina de São Paulo insistia em cair sobre a Vila Madalena, transformando as luzes de neon dos bares e pastelarias em manchas borradas de cor contra o cinza do asfalto.

Era uma daquelas noites em que a umidade parecia penetrar nos ossos, mas, ali, sob o toldo da pequena pastelaria de Dona Marta, o frio perdia qualquer autoridade.

Matheus e Natália estavam sentados em uma mesa de fórmica gasta, o vapor subindo de dois pratos de pastéis de queijo recém-saídos da fritura. O ambiente era o oposto absoluto da frieza marmórea da cobertura no Leblon ou da tensão claustrofóbica da mansão em Santa Teresa.

"Cuidado, esse queijo está derretendo o próprio prato", avisou Natália, rindo enquanto soprava o pastel com gestos exagerados. A risada que escapou de seus lábios não tinha nada da máscara de Elisa; era um som límpido, vibrante e desprovido de qualquer peso.

Matheus observava-a com uma intensidade que parecia incapaz de se saciar, seus dedos ainda sujos dos resquícios de graxa da tarde na oficina.

"Eu não me importo de queimar a língua se o pastel estiver bom o suficiente para justificar o risco", respondeu ele, mergulhando o primeiro pedaço no molho de pimenta caseiro.

Dona Marta, a proprietária da pastelaria, surgiu de trás do balcão com um pano de prato pendurado no ombro e as mãos na cintura. Ela olhou para a camisa de Matheus, agora salpicada de pequenas gotas de óleo e poeira industrial, com uma expressão de reprovação exagerada.

"Moço, você está arruinando essa camisa bonita, dá para ver de longe que isso não é roupa de quem vive no meio de graxa e motor", Dona Marta comentou em tom de censura bem-humorada.

"E você, menina, pare de sujar o rosto dele, que o coitado já parece perdido o bastante só de olhar para você."

Matheus soltou uma gargalhada genuína, um som que Natália raramente ouvira em todos os meses em que conviveram no auge da guerra contra os Silva.

Ele passou a mão pelo cabelo, desarrumando-o ainda mais com uma naturalidade que beirava o sacrilégio para o antigo herdeiro corporativo.

"Não se preocupe, Dona Marta, a camisa é o menor dos meus problemas hoje", respondeu Matheus, lançando um olhar cúmplice para Natália. "O que importa é que o pastel está muito melhor do que qualquer banquete que eu já comi nos últimos dez anos."

"Pois então coma e fique quieto, porque daqui a pouco o dono da oficina chega para me perguntar por que vocês estão aqui em vez de estarem consertando aquele câmbio do Opala", a dona do estabelecimento brincou antes de voltar para a cozinha.

Natália apoiou o queixo nas mãos, observando a rua movimentada lá fora, onde os limpadores de para-brisa dos carros insistiam em um ritmo hipnótico e constante. Pela primeira vez em toda a sua vida consciente, a mente de Natália não estava calculando riscos, antecipando traições ou analisando sinapses em colapso.

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O silêncio confortável entre eles não era tenso ou carregado de segredos, mas sim uma pausa merecida em uma sinfonia que finalmente atingira o acorde final. "Você se lembra de quando o plano era apenas nos destruirmos?", ela perguntou, a voz quase um sussurro sob o barulho da chuva contra o toldo.

Matheus parou de comer e segurou a mão dela sobre a mesa, os dedos calejados entrelaçando-se nos dela com uma firmeza que era um bálsamo para as feridas antigas. "Eu prefiro esquecer tudo o que aconteceu antes de estarmos aqui nesta mesa", ele disse com uma seriedade suave. "Tudo o que aconteceu antes serviu apenas para nos trazer até este momento, mesmo que o caminho tenha sido feito de estilhaços."

Na parede atrás do balcão, a pequena televisão da pastelaria exibia as notícias da noite em volume baixo. O apresentador, com uma dicção pomposa, falava sobre a liquidação formal e definitiva de todos os ativos farmacêuticos do império Silva.

Imagens do leilão dos galpões de pesquisa e o fechamento das contas offshore da família passavam como um filme de ficção científica desbotado. "Eles estão vendendo até os tapetes, ao que parece", notou Matheus, olhando para a tela sem demonstrar uma única gota de pesar.

"Aquele império foi construído sobre o nada, e agora está voltando para o nada", respondeu Natália com uma indiferença que a surpreendeu. O nome Silva, que antes soava como um trovão de terror em seus ouvidos, agora parecia apenas uma palavra vazia, desprovida de qualquer poder sobre sua existência.

"Nós destruímos tudo, Natália", ele reforçou, apertando a mão dela uma vez mais. "Não sobrou nada, não restou nenhuma ponta solta para que eles possam se vingar, e nenhum fantasma pode nos alcançar neste lado da cidade."

"E o meu fantasma?", ela perguntou, os olhos azuis encontrando os dele com uma dúvida persistente. "Eu ainda sinto que, em alguns dias, Elisa sussurra coisas na minha mente quando estou distraída."

Matheus inclinou-se sobre a mesa, ignorando o burburinho dos outros clientes que entravam para fugir da chuva. "Quando isso acontecer, você olha para mim, ou olha para as suas mãos sujas de graxa, ou pensa no motor daquele Opala", ele aconselhou com uma paciência infinita. "Você é Natália Ferreira. O resto é apenas poeira, e nós sabemos como limpar a poeira muito bem."

O clima de aconchego da pequena pastelaria parecia expandir-se, criando uma redoma protetora contra o mundo exterior. Eles eram dois náufragos que haviam encontrado terra firme, e não importava se a terra era um galpão de oficina empoeirado ou um canto de rua na Vila Madalena.

"Eu me sinto estranhamente leve", ela confessou, sentindo uma paz inédita florescer em seu peito. "Como se, pela primeira vez, eu não estivesse interpretando um papel."

"Esse é o peso da verdade, querida", ele respondeu, sorrindo de um jeito que fazia seu rosto parecer anos mais jovem. "A verdade é cansativa, mas é a única coisa que não precisa ser consertada depois de algum tempo."

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Dona Marta passou por eles novamente, trazendo mais dois refrigerantes de garrafa de vidro, acompanhados de dois copos de plástico. "Ouvir vocês dois falando parece música de novela", ela disse, deixando as bebidas e voltando para seus afazeres com uma leveza que os fez rir novamente.

Matheus pegou a garrafa, abriu-a com destreza e encheu os copos, o som borbulhante da bebida gasosa completando o cenário. "Nós poderíamos ser personagens de uma novela, só que o nosso final não foi trágico como eles queriam", comentou ele.

"O nosso final ainda está sendo escrito, eu acho", Natália corrigiu, observando as bolhas subindo no copo de vidro. "E, honestamente, eu não me importo com o que vem depois desta noite."

"Eu também não", ele concordou, levantando seu copo em um brinde silencioso. "À noite, ao pastel e ao fato de que, amanhã, temos um motor para montar."

Eles brindaram, os copos chocando-se com um som cristalino que parecia romper a névoa da cidade. O conforto daquela rotina simples, onde o maior problema era o câmbio de um carro antigo e a temperatura do café, era o troféu mais valioso que eles poderiam ter conquistado.

Eles terminaram de comer sem pressa, desfrutando da presença um do outro em um silêncio que falava muito mais do que qualquer plano de vingança jamais falara. A chuva lá fora começou a diminuir, deixando apenas um brilho úmido nos paralelepípedos da rua.

Dona Marta começou a desligar as luzes da vitrine, um sinal claro de que o expediente estava chegando ao fim. Eles levantaram-se, pagaram a conta com um aperto de mão e uma gorjeta generosa, e caminharam em direção à calçada.

O ar estava fresco, limpo e revigorante após a tempestade, e as luzes da cidade pareciam brilhar com uma nitidez nova. Matheus parou ao lado do carro e, ao notar um pequeno borrão de graxa que Natália não havia limpado na bochecha, estendeu a mão.

Com o polegar, ele limpou a mancha com uma lentidão deliberada, a pele dele aquecendo o rosto dela sob a brisa noturna. O gesto era tão simples, tão carregado de uma intimidade cotidiana, que ela sentiu as lágrimas ameaçarem brotar, não por dor, mas por gratidão.

Ele aproximou o rosto, a distância entre os dois encurtando-se até que o resto do mundo desaparecesse por completo. O beijo foi suave, demorado e preenchido por uma doçura que eles haviam esquecido que existia.

Ali, no meio da rua, sob o céu limpo de São Paulo e com o peso da vingança enterrado seis meses no passado, eles não eram mais caçadores ou presas. Eram apenas duas pessoas quebradas que haviam decidido que, se fosse para continuar vivendo, seria um ao lado do outro.

Matheus afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, um sorriso satisfeito cruzando seus lábios. "Ainda temos o Opala para terminar amanhã", ele lembrou, a voz carregada de uma felicidade simples.

"Ainda temos o Opala", Natália repetiu, sentindo que, pela primeira vez em muito tempo, o futuro não era uma ameaça, mas uma promessa.

E, enquanto caminhavam pela rua silenciosa em direção ao galpão da oficina, a vida seguia seu curso, sem espelhos, sem fantasmas e, acima de tudo, sem medo. A noite de São Paulo os abraçou como se eles sempre tivessem pertencido àquela simplicidade, e, pela primeira vez, eles acreditaram que talvez, apenas talvez, tivessem razão.

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