O cheiro acre de óleo queimado e graxa industrial substituíra para sempre o perfume de jasmim e a frieza dos cristais do Leblon. Seis meses haviam se passado desde que Natália deixara para trás o asfalto impecável da Avenida Paulista e os escombros do império dos Silva.
As torres de vidro e os ternos de grife agora pertenciam a uma realidade tão distante que pareciam parte de um delírio febril. Na periferia industrial de São Paulo, a vida tinha o peso real do ferro, do suor e do trabalho braçal.
Sua oficina mecânica favorita ficava em uma rua de paralelepípedos esburacados onde o sol raramente cortava a neblina de fumaça e poeira. Era um galpão espaçoso e abarrotado de peças enferrujadas, motores abertos e ferramentas espalhadas por bancadas de madeira maciça.
Natália estava agachada sob o chassi de um Opala antigo de 1978, com as mãos completamente manchadas de graxa preta até os cotovelos. Ela apertava um parafuso teimoso do cárter com uma chave de boca, sentindo a musculatura dos braços queimar com o esforço físico.
"Menina, larga esse ferro um pouco e vem tomar um gole de café antes que esfrie na garrafa", a voz rouca e acolhedora de Seu Juca ecoou do fundo do galpão.
Seu Juca era o proprietário da oficina, um senhor de cabelos brancos ralos, mãos calejadas por quatro décadas de graxa e um coração maior do que o próprio peito. Ele limpava as mãos em um trapo sujo enquanto olhava para Natália com uma ponta de orgulho paterno nos olhos cansados.
Natália deslizou para fora debaixo do carro sobre um carrinho de rodinhas, empurrando os cabelos rebeldes para trás com o dorso da mão suja. Ela esboçou um sorriso sincero, mostrando os dentes brancos em contraste com a boca borrada de graxa.
"Já estou indo, Seu Juca, só preciso terminar de apertar este retentor para o cliente não voltar reclamando amanhã", ela respondeu, tirando os óculos de proteção e apoiando-os na testa.
"Cliente nenhum vai reclamar do seu serviço, Natália, porque você mexe nesses motores melhor do que muito marmanjo criado à base de cerveja barata", resmungou o velho com carinho, estendendo-lhe um copo americano fumegante.
Natália aceitou o café forte e amargo, sentindo o calor líquido descer pela garganta e espalhar-se por seu peito. Aquela rotina dura, suada e honesta era a única coisa que mantinha sua mente em paz após o colapso do Protocolo Mnemosine.
As lembranças da verdadeira Elisa ainda apareciam de vez em quando como ecos distantes de um rádio mal sintonizado. Mas já não doíam; eram apenas ruídos de fundo em uma mente que finalmente pertencia inteiramente a ela mesma.
"O mundo lá fora continua girando rápido demais para quem prefere consertar o que quebrou com as próprias mãos", comentou Seu Juca, observando a rua cinzenta através da porta aberta do galpão.
"Deixe que o mundo gire, Seu Juca", retrucou Natália, dando mais um gole no café. "Aqui dentro, pelo menos sabemos exatamente qual peça está com defeito e como consertá-la."
O som abafado de um motor esportivo de alta cilindrada cortou o barulho do tráfego distante da avenida principal. Era um ronco grave, inconfundível e potente que fez os pelos dos braços de Natália se arrepiarem instantaneamente.
O veículo desacelerou suavemente ao se aproximar da entrada da oficina, estacionando bem em frente ao portão de ferro aberto. Natália estreitou os olhos contra a claridade, sentindo o coração dar um salto violento contra as costelas.
A placa dianteira do carro esportivo brilhou sob a luz fraca da tarde paulistana. Era exatamente a mesma combinação alfanumérica do veículo que Matheus dirigira na noite em que se conheceram.
A porta do motorista abriu-se com um estalo suave, revelando a silueta alta de Matheus. Ele vestia uma camiseta cinza simples, calças jeans gastas e botas de trabalho cobertas de poeira da estrada.
Não havia mais vestígios do herdeiro bilionário que usava ternos de grife e guardava segredos em cofres blindados. Ele parecia mais leve, livre das amarras do clã Silva e completamente transformado pela liberdade que conquistara.
Os olhos em tom de uísque âmbar de Matheus encontraram os de Natália na penumbra da oficina. Um sorriso lento e genuíno brotou em seus lábios, iluminando seu rosto marcado pelas intempéries dos últimos meses.
Seu Juca olhou para o carro importado na porta, depois para Natália, e ergueu uma sobrancelha com curiosidade desconfiada. "E pa parece que temos um cliente novo e bem exigente querendo dar uma olhada no motor", murmurou o velho, cruzando os braços.
Natália não conseguiu dizer uma única palavra; sua garganta parecia fechada pelo misto de saudade e incredulidade. Ela permaneceu parada ao lado do Opala antigo, segurando o copo de café com os dedos trêmulos.
Matheus desligou o motor, fechou a porta com um movimento fluido e caminhou para dentro do galpão com passos firmes. Ele parou a poucos metros dela, respirando fundo o cheiro familiar de graxa, metal e suor que definia o novo mundo dela.
"Achei que você pudesse estar precisando de alguém para apertar alguns parafusos por aqui", Matheus disse com a voz rouca e calorosa, desabotoando os punhos da camisa e dobrando as mangas até os cotovelos.
Seu Juca pigarreou discretamente, olhando de um para o outro com um sorriso divertido sob o bigode branco. "Olha aqui, rapaz, aqui nós não aceitamos playboy que tem medo de sujar as unhas de graxa", advertiu o velho com falsa severidade.
Matheus desviou o olhar de Natália por um segundo e encarou o patriarca da oficina com um respeito inédito. "Pode deixar, Seu Juca, eu aprendi a trabalhar duro faz tempo", respondeu ele, abaixando-se para pegar uma chave inglesa pesada que estava caída no chão de cimento.
Natália sentiu um nó de emoção pura apertar sua garganta, enquanto um sorriso irresistível desenhava-se em seu rosto pela primeira vez em muito tempo. Ela cruzou os braços sujos de graxa sobre o peito e ergueu o queixo com um desafio afetuoso.
"Se você estragar a regulagem deste carburador, Matheus, vai ter que dormir na rua", ela avisou, com a voz firme mas carregada de uma profunda ternura.
Matheus aproximou-se mais, parando bem na sua frente, sem se importar com a mancha preta que transferiu para a bota dele. "Aceito o risco, desde que o meu salário seja um copo desse café horrível e um sorriso seu", murmurou ele, encostando a testa na dela por um breve segundo.