《O Jogo dos Duplos: Execução em Nome do Amor》Capítulo 7

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O amanhecer sobre o Rio de Janeiro pintou a linha do horizonte com tons de cinza metálico e rosa pálido. A garoa fina que caía sobre a Baía de Guanabara parecia lavar o sangue e a poeira de uma noite que mudou a história do país para sempre.

Nos portões da cobertura no Leblon, viaturas da Polícia Federal estacionavam em fila indiana. Os repórteres de todas as emissoras do Brasil se amontoavam na calçada, gritando perguntas sem respostas sobre a queda definitiva do clã Silva.

A delegada Carla Ramos liderava a força-tarefa anticorrupção com uma eficiência gélida e impecável. Com os cabelos presos em um coque rigoroso e o distintivo reluzindo na lapela do blazer cinza, ela subiu direto para o vigésimo andar.

Sua mente afiada e incorruptível não conseguia deixar de lado uma pulga atrás da orelha. A precisão cirúrgica com que o vazamento de dados atingira o topo da pirâmide corporativa parecia boa demais para ser obra do acaso.

Carla empurrou a porta da varanda envidraçada, encontrando Natália sozinha diante da imensidão do oceano. O vento forte da manhã fustigava os longos cabelos cor de castanho da jovem, que vestia apenas uma camisa social larga e desabotoada.

"O sol está nascendo bonito hoje, senhorita Guedes", Carla comentou com um tom polido, mas carregado de desconfiança profissional. "Ou prefere que eu a chame pelo seu nome verdadeiro, Natália?"

Natália nem sequer piscou, mantendo o olhar fixo nas ondas revoltas que batiam contra as pedras da orla. "Os jornais já decidiram quem eu sou, delegada, e os mortos raramente se importam com detalhes burocráticos", respondeu ela com a voz fria.

Carla deu dois passos à frente, cruzando os braços sobre o peito com um sorriso cético. "O vazamento de dados que derrubou os servidores dos Silva chegou aos nossos computadores com uma criptografia militar indetectável", argumentou a investigadora.

"E por uma coincidência cósmica fascinante, você estava bem no centro do olho do furacão corporativo", continuou Carla, estreitando os olhos. "Acha mesmo que os tribunais vão acreditar que foi apenas um acaso romântico?"

Natália virou-se lentamente para encará-la, os olhos em tom de azul-topázio brilhando com uma exaustão profunda. "A justiça neste país costuma ser cega, delegada, mas os arquivos que mandamos para a sua caixa de entrada enxergam perfeitamente bem", rebateu ela sem vacilar.

"Eles enxergam tanto que já expediram mandados de prisão para meio conselho de administração", reconheceu Carla com um suspiro pesado. "Mas o meu trabalho é descobrir quem puxou a corda dos fantoches, e você tem marcas demais de agulha e segredos embaixo dessa pele nova."

"Algumas cicatrizes nunca desaparecem, independentemente de quem pague a cirurgia", disse Natália com um meio-sorriso melancólico. Carla ponderou por um instante, avaliando o peso daquela confissão velada antes de dar meia-volta em direção à sala principal.

"A imprensa vai acampar aqui embaixo por semanas, senhorita Guedes, e os promotores vão querer interrogá-la outra vez", avisou a delegada antes de sumir pela porta do elevador privativo. "Esteja pronta."

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O silêncio desabou novamente sobre a varanda assim que os passos de Carla desapareceram. Natália voltou a olhar para o horizonte, sentindo uma pontada aguda latejar no fundo de sua têmpora esquerda.

O Protocolo Mnemosine cobrava o seu preço definitivo agora que a adrenalina da vingança havia evaporado. Ela fechou os olhos e percebeu, com um pavor gélido, que as memórias de Elisa não iam mais embora.

O cheiro de jasmim da infância de Elisa, o toque do piano e as risadas em Campos do Jordão misturavam-se permanentemente às suas próprias lembranças de infância na periferia de São Paulo. Ela já não sabia onde terminava Natália e onde começava o fantasma que ela mesma ressuscitara.

"Você vai carregar essa multidão na cabeça para o resto da vida", pensou ela, sentindo o peso insuportável de habitar um corpo que pertencia a duas mulheres ao mesmo tempo.

Um som sutil de passos descalços no piso de madeira quebrou o fluxo de seus pensamentos atormentados. Matheus apareceu na fresta da porta da varanda, vestindo calças escuras e com o peito nu marcado por curativos e hematomas da luta da véspera.

Ele não disse nada, aproximando-se em silêncio com a cautela de quem temia que qualquer palavra pudesse espantar aquela miragem. Seus olhos em tom de uísque âmbar encontraram os dela com uma ternura desesperada.

Matheus estendeu a mão e colocou sobre a mesinha de centro da varanda uma xícara de cerâmica fumegante. "Eu fiz café para você", disse ele com a voz ainda rouca e cansada. "Com duas colheres de açúcar, do jeito que você gosta, e não do jeito que a Elisa tomava."

Natália olhou para a xícara, sentindo um nó doloroso apertar-se em sua garganta seca. "Como você sabe qual é o meu gosto para o café?", perguntou ela num sussurro frágil.

"Porque eu passei os últimos meses decorando cada detalhe insignificante sobre a verdadeira mulher que habitava por trás da máscara", respondeu Matheus, dando um passo à frente para tocar sua mão fria. "Não me importa se o seu cérebro está cheio de memórias que não são suas, Natália. Eu amo a mulher que está respirando bem aqui na minha frente."

Natália engoliu em seco, afastando a mão dele com um movimento brusco que o fez congelar. "Você não entende, Matheus", disse ela, a voz trêmula de frustração e dor. "Eu ganhei a guerra, mas perdi a mim mesma no processo."

"Então vamos reconstruir o resto juntos, do zero", insistiu ele, tentando aproximar-se novamente. "Nós destruímos o império deles. Agora podemos ser quem quisermos."

Natália balançou a cabeça negativamente, dando mais um passo em direção ao parapeito de vidro que dava para o abismo do oceano. "Nenhum de nós vai conseguir fugir dos fantasmas que criamos", murmurou ela com uma convicção dolorosa.

Ela levou as mãos aos lóbulos das orelhas e desabotoou os pesados brincos de diamantes que herdara junto com a identidade de Elisa. O brilho gélido das gemas refletia a luz do sol nascente pela última vez.

"Adeus, Elisa", sussurrou Natália para o vento, abrindo os dedos.

Os brincos despencaram em queda livre do vigésimo andar, cortando o ar antes de desaparecerem para sempre nas ondas revoltas que batiam com força contra as pedras da Baía de Guanabara lá embaixo.

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