O vento úmido e quente de Santa Teresa chicoteava os cabelos de Natália enquanto ela aterrissava agachada sobre o piso de lajotas da área de serviço. O som abafado das sirenes de emergência misturava-se ao eco dos disparos que pontuavam os andares inferiores do casarão histórico.
Ela ergueu o olhar, mantendo a empunhadura da pistola firme contra o peito, pronta para avançar pelo corredor de serviço. Mas a escuridão do corredor foi cortada pelo feixe implacável de uma lanterna tática que cegou sua visão por um segundo.
Sérgio Silva emergiu das sombras com uma calma aterrorizante, vestindo o terno de veludo manchado de suor e sangue fresco. Na mão direita, o revólver cromo apontava diretamente para o peito de Natália com precisão cirúrgica.
"Você realmente achou que uma carcaça cirúrgica e um rostinho emprestado seriam suficientes para me enganar, garota?", o patriarca sibilou com um sorriso cínico. O cano da arma não tremia nem por um milímetro.
Natália recuou um passo, sentindo as costas baterem contra a pesada porta de carvalho do escritório privativo. "Do que você está falando?", ela perguntou, forçando a voz de Elisa a soar firme e impenetrável.
"Eu sabia quem você era desde o primeiro minuto em que cruzou a porta da minha casa", Sérgio riu secamente, avançando com passos curtos e calculados. "O laboratório de Siqueira é financiado pelas minhas contas offshore. Eu recebi o seu dossiê genético antes mesmo de você abrir os olhos na mesa de cirurgia."
Natália sentiu o estômago despencar, mas seus dedos mantiveram a arma firmemente apontada para o rosto dele. "Se você sabia de tudo... por que me deixou chegar até aqui?", ela sibilou com ódio puro e irreprimível.
"Porque eu queria ver até onde a vaidade dos meus inimigos e a loucura do meu próprio filho iriam", respondeu o velho, destravando o cão do revólver com um estalo metálico. "Mas agora a brincadeira acabou. Diga adeus à sua vingança, Natália."
No monitor do computador, ao fundo da sala escura, a barra de progresso do upload continuava subindo de forma inexorável. O marcador marcou noventa e cinco, noventa e oito, e finalmente atingiu cem por cento.
Um bipe sutil ecoou na sala, disparando um pacote de dados criptografados diretamente para as caixas de entrada de todos os procuradores federais em Brasília. Os segredos mais sujos e criminosos dos Silva estavam agora salvos e livres no mundo.
Sérgio percebeu o bipe e o sangue sumiu de seu rosto, substituído por uma fúria cega e incontrolável. "Sua maldita!", ele berrou, levantando o braço para puxar o gatilho.
Antes que a bala pudesse perfurar o peito de Natália, a pesada porta de mogno explodiu em milhares de estilhaços de madeira. Matheus atravessou o batente como uma força da natureza, lançando-se diretamente sobre o próprio pai.
O impacto derrubou Sérgio no chão, fazendo a arma voar para longe e bater contra a estante de livros. O som dos socos secos e brutais ecoou pela sala enquanto pai e filho trocavam golpes com uma fúria animal.
Natália assistiu, paralisada pelo horror e pela dor, enquanto o homem que ela jurara destruir sangrava para protegê-la. Matheus desferiu um golpe certeiro no rosto do pai, abrindo-lhe o supercílio.
Sérgio tentou revidar, cravando os dedos no braço do filho, mas Matheus parecia imune à dor. Com uma frieza mecânica e assustadora, o herdeiro segurou o pulso do pai e aplicou uma torção implacável.
"Você acha que vai me destruir por causa dessa impostora?", Sérgio cuspiu sangue, tentando se desvencilhar do aperto de ferro do filho. "Eu sou o dono de tudo o que você vê!"
"Você não é dono de mais nada", Matheus retrucou com a voz fria como o gelo, aplicando ainda mais pressão sobre a articulação do pai.
Um estalo seco de osso quebrado ressoou na sala, seguido pelo grito de dor estrangulado de Sérgio. Matheus nem sequer piscou, desferindo mais um golpe implacável que apagou o velho de vez.
O patriarca desabou para trás contra o sofá de veludo vermelho, o corpo estatelado e imóvel. Matheus ofegava pesadamente, com o rosto cortado e o sangue escorrendo pela camisa social rasgada.
Lá fora, o som de dezenas de sirenes de polícia engoliu a noite de Santa Teresa, aproximando-se rapidamente dos portões de ferro. Sérgio abriu os olhos lentamente, tossindo sangue e começando a rir de forma histérica e descontrolada.
"Você acha que venceu, garoto?", Sérgio riu da própria desgraça, olhando fixamente para o filho com ódio nos olhos. "O império não cai só porque alguns arquivos vazaram na internet."
Matheus aproximou-se do pai com passos lentos, a expressão vazia de qualquer resquício de afeto filial. "O império já está morto, senhor. E nós somos os coveiros."
As portas principais do casarão cederam com estrondo sob o peso das fardas da Polícia Federal. Holofotes intensos invadiram as janelas, cortando a penumbra com fachos brancos e implacáveis.
Natália abaixou a arma lentamente, sentindo o peso dos anos de mentiras desabar sobre seus ombros. Ela olhou para Matheus, que estendeu a mão ensanguentada em sua direção sem hesitar um segundo sequer.
"Acabou", disse ela, aceitando o toque dele com a certeza de que o futuro seria uma incógnita perigosa.
"Apenas começou", corrigiu Matheus, puxando-a para junto de si enquanto os agentes invadiam a sala.