A porta blindada do cofre de Matheus ainda guardava o eco daquela confissão sussurrada na penumbra da suíte no Leblon. Mas a calmaria forçada de São Paulo desabou de forma brutal nas primeiras horas da manhã seguinte, destruindo qualquer resquício de trégua.
O céu da capital paulista fechou-se em um tom de chumbo carregado e opressor, pesando sobre as torres de vidro da Avenida Paulista como uma lousa de cemitério.
Uma tempestade tropical desabou sem aviso prévio, transformando o asfalto em um rio revolto de água barrenta e desespero.
Natália precisava de respostas reais e tangíveis, e não de promessas sussurradas sobre arquivos mortos ou declarações de uma devoção doentia.
Ela fugiu da cobertura antes que Matheus abrisse os olhos, buscando refúgio temporário nos subterrâneos úmidos de uma das garagens de transbordo da corporação.
O barulho ensurdecedor da chuva batendo nas claraboias de vidro blindado abafava o som de seus passos apressados sobre o piso de concreto polido. Mas ela não estava sozinha naquele labirinto de pilares de sustentação e sombras industriais.
O reflexo cortante dos faróis de um carro de luxo cortou a penumbra de repente, rebatendo nas paredes úmidas. A silueta alta de Matheus emergiu da cortina de neblina d'água com passos decididos e implacáveis.
Ele havia seguido cada movimento seu desde o momento em que ela pisara fora do elevador privativo na noite anterior. A respiração de ambos condensava-se no ar frio e úmido do subsolo enquanto ficavam a poucos centímetros de distância.
As armaduras corporativas e os ternos de grife haviam sido deixados para trás na noite anterior, substituídos por roupas encharcadas e pela urgência crua de quem não tinha mais para onde correr. A discussão civilizada evaporou instantaneamente no ar rarefeito do subsolo.
"Você achou mesmo que conseguiria sumir nas ruas de São Paulo sem que eu soubesse, Natália?", a voz de Matheus cortou o barulho ensurdecedor da tempestade com uma precisão cirúrgica.
"Cale a boca, Matheus!", ela gritou, perdendo totalmente o controle da compostura calculada que mantinha há semanas.
Pela primeira vez desde que saíra da mesa de cirurgia de Siqueira, a máscara perfeita de Elisa Guedes desabou por completo. A voz verdadeira de Natália, trêmula de raiva reprimida e exaustão acumulada, cortou o ar como uma lâmina afiada.
"Você acha que eu sou apenas mais um brinquedo que o seu império pode comprar ou descartar à vontade?", ela sibilou com fúria cega, os punhos cerrados ao lado do corpo.
Lágrimas invisíveis misturavam-se à água da chuva que escorria por seu rosto, lavando a maquiagem e a farsa.
"Eu não estou brincando, e você sabe disso muito bem, Natália!", retrucou ele, dando um passo agressivo em sua direção e fechando o cerco.
"Então me diga a verdade de uma vez por todas!", ela desafiou, os olhos azuis faiscando de ódio e desespero. "De quem é essa vingança que você acha que está controlando? De Elisa ou minha?"
O silêncio pesou entre eles por uma fração de segundo, quebrado apenas pelo som da água desabando lá fora. Eles sabiam que estavam jogando uma partida mortal, onde o blefe final significava a destruição mútua.
"A sua vingança é minha", Matheus rosnou, a voz carregada de uma intensidade possessiva e irracional. "E eu vou queimar cada centavo da minha família para ver você vencer essa guerra."
Antes que ele pudesse continuar o interrogatório, ela o puxou com força pela gola da camisa encharcada. Natália o beijou com fúria cega para calar de vez aquela insistência que ameaçava desestruturar sua sanidade.
Era um beijo sem doçura, um ato de guerra travado com dentes, lábios machucados e o desespero de dois náufragos. Matheus respondeu com uma violência desesperada e incontida, puxando-a contra o seu corpo com tanta força que os ossos pareciam estalar.
O gosto de sangue misturou-se à água da chuva quando ela mordeu o lábio dele em um acesso de rebeldia pura. Do outro lado da rua, sob a espessa cortina d'água da Avenida Paulista, uma silueta observava tudo de perto.
A luz fraca de um painel de moto iluminou brevemente um capacete escuro e reflexivo. Era Thiago, o ex-contato hacker de Natália conhecido no submundo como O Fantasma.
Thiago mexia impaciente na tela de um notebook portátil apoiado no tanque de sua BMW preta, monitorando o progresso da invasão aos servidores dos Silva. Ele não tinha o menor interesse no romance trágico dos dois; ele só queria o dinheiro e a conclusão do hack.
Um aviso vermelho piscando na tela de seu celular indicava que o prazo estava esgotando perigosamente. Se Natália não finalizasse a extração dos dados nas próximas horas, ele mesmo vazaria a verdadeira identidade dela para os jornais.
Na garagem subterrânea, o beijo de Matheus tornou-se ainda mais voraz, ignorando o perigo invisível que os espreitava na calçada oposta. Ele provou o gosto da chuva e do sangue na boca dela, selando um pacto de sangue sob o temporal inclemente.
"Eles estão nos observando", sussurrou Natália contra a boca dele, sentindo o arrepio do perigo iminente na nuca.
"Deixe que olhem", respondeu Matheus, sem soltá-la um centímetro sequer, aprofundando o abraço enquanto a chuva continuava a lavar os pecados daquela cidade impiedosa.
"Você não entende o risco que estamos correndo com essa gente", ela murmurou contra o peito dele, sentindo a rigidez da musculatura.
"Eu entendo perfeitamente", retrucou ele com uma firmeza aterrorizante. "Cada segundo ao seu lado é um risco que vale a pena correr, mesmo que isso custe o meu sobrenome."
"Não diga besteiras, nós podemos morrer se Thiago perder a paciência", ela alertou, referindo-se veladamente ao hacker.
"Então morreremos juntos e queimaremos o resto", respondeu ele com um sorriso sombrio e febril.
Do outro lado da rua, Thiago fechou a tampa do notebook com um estalo seco, irritado com a demora. A moto rugiu na chuva, partindo em disparada para o coração da cidade.
O tempo estava oficialmente esgotado para os dois. Natália afastou-se levemente, respirando com dificuldade, os olhos brilhando com a certeza de que o ponto de não retorno havia sido cruzado.
"Precisamos terminar o que começamos", disse ela com uma frieza renovada, limpando o sangue do lábio.
"Até o fim", concordou Matheus, segurando firmemente a mão dela, pronto para marchar em direção ao próprio inferno.