O sangue escorrido sob a mesa de jantar ainda parecia manchar a pele de Natália, um lembrete físico de que o castelo de cartas dos Silva era feito de dor e carne. Na suíte master, o silêncio da madrugada pesava como uma lápide de mármore branco.
Matheus dormia de bruços sobre os lençóis de linho egípcio, com o braço esticado no colchão onde minutos antes ela estivera deitada. A respiração dele era pausada e profunda, o ritmo perfeito de um predador que recarrega as energias antes da próxima caçada.
Natália deslizou para fora da cama com a precisão cirúrgica de uma gata selvagem. Seus pés desposaram o piso de madeira nobre importada sem emitir o menor som, ignorando o frio gélido que subia do assoalho.
O relógio de parede marcou exatamente meia-noite e meia quando ela alcançou a parede oculta atrás do painel de carvalho escuro. Ali repousava o cofre biométrico pessoal de Matheus, a caixa-forte que guardava os segredos mais sujos e lucrativos da dinastia.
O coração de Natália martelava contra as costelas como um prisioneiro tentando arrebatar as grades da cela. Seus dedos tremiam levemente, mas ela os obrigou a se firmar enquanto pressionava o polegar esquerdo contra o leitor de retina e digital adaptado.
Um clique abafado ecoou na penumbra e a pesada porta de aço blindado abriu-se com um suspiro pneumático. O cheiro de papel envelhecido e metal frio invadiu suas narinas, misturando-se à fragrância de sândalo que parecia seguir Matheus por toda parte.
Lá dentro, havia pastas pretas rotuladas com códigos corporativos e maços de dinheiro estrangeiro que desafiavam a imaginação. Mas o que prendeu seus olhos foi uma pasta de couro cor de vinho, marcada com um traço grosso de caneta vermelha em formato de cruz.
Com os dedos gelados, ela puxou o arquivo para fora e o abriu sob a luz fraca que vazava da fresta da varanda. As primeiras páginas eram relatórios financeiros de cinco anos atrás, detalhando a aquisição forçada de patentes farmacêuticas de médio porte.
O nome da empresa estampado no cabeçalho do contrato fê-la parar de respirar instantaneamente. Era a empresa de sua verdadeira família, a modesta startup de biotecnologia que seus pais haviam erguido com o suor de uma vida inteira.
Abaixo da assinatura falsificada de seu falecido pai, constava a rubrica de aprovação final, autorizada e assinada pelo próprio punho do clã Silva. O peso daquela constatação desabou sobre seus ombros como uma avalanche de concreto armado, esmagando cada grama de ar de seus pulmões.
"Eles não apenas roubaram o nosso futuro, eles assinaram a execução com total impunidade", pensou ela, sentindo as lágrimas de ódio arderem em seus olhos recém-esculpidos.
Mas a maior crueldade ainda estava guardada no fundo daquela pasta maldita. Entre as cópias dos processos arquivados e as ordens de despejo, havia um pequeno pedaço de papel autocolante de cor amarela.
O bilhete trazia a caligrafia inconfundível de Matheus, traçada com linhas firmes e angulares. As palavras escritas ali cortaram sua alma com a precisão de um bisturi:
"Perdoe-me, amor"
.
"O que você está procurando,
amor
?", uma voz fria e sussurrada roçou a sua orelha esquerda na escuridão absoluta.
Uma mão calejada e firme fechou-se ao redor do pulso de Natália com força implacável, paralisando seus movimentos no mesmo instante. O choque térmico daquele toque a fez soltar um gemido abafado, enquanto o arquivo escorregava de seus dedos e caía no chão de madeira.
O calor do corpo de Matheus colou-se às suas costas, a respiração dele batendo quente contra a curva de seu pescoço. Ele não parecia um homem que acabara de acordar; parecia um caçador que esperava pacientemente a presa cair na armadilha.
"Você acha mesmo que eu deixaria o cofre mais importante da minha vida aberto por mero descuido?", murmurou Matheus, os lábios roçando levemente a pele sensível da orelha dela enquanto apertava ainda mais o pulso trêmulo.
Natália engoliu em seco, tentando recuperar a compostura fria que a definira desde o dia em que saiu da mesa de cirurgia de Siqueira. "Eu estava apenas... verificando se você dormia de verdade, Matheus", ela respondeu, usando a voz de Elisa com uma pitada calculada de desafio.
Uma risada baixa, rouca e sombria vibrou no peito dele, pressionado contra as costas dela. "Mentir para mim com os documentos da sua verdadeira família espalhados pelo chão é um desperdício de talento dramático, Natália", rebateu ele, pronunciando o nome real dela com uma naturalidade aterrorizante.
O sangue de Natália congelou nas veias, transformando-se em gelo puro. Ela virou a cabeça bruscamente para encará-lo na penumbra, os olhos azuis arregalados de pânico genuíno.
"Do que você está falando?", ela sibilou, tentando puxar o braço de volta sem sucesso. "Você está delirando por causa do uísque."
Matheus virou-a com um movimento fluido e autoritário, prensando-a contra a porta aberta do cofre de aço. Seus olhos em tom de uísque âmbar brilhavam na obscuridade com uma intensidade febril e dolorosa.
"Eu soube quem você era no segundo em que você entrou na minha cobertura com aquele vestido vermelho e a pálpebra esquerda tremendo", confessou Matheus, a voz carregada de uma devoção doentia que desafiava toda a lógica. "Siqueira tem uma dívida impagável com os meus fundos de hedge há anos; ele me vendeu o seu dossiê médico antes mesmo de você acordar da anestesia."
As palavras caíram sobre Natália como uma sentença de morte. Todo o seu plano de infiltração, as noites de estudo das memórias de Elisa e a ilusão de controle haviam sido uma farsa monumental diante dos olhos daquele homem.
"Se você sabia de tudo... por que não me entregou para a polícia, ou por que não me matou?", perguntou ela, a voz falhando pela primeira vez, traindo a armadura de gelo que vestia.
Matheus ergueu a mão livre, os dedos longos e quentes acariciando a bochecha recém-operada de Natália com uma suavidade quase sacrílega. "Porque eu passei os últimos cinco anos morrendo lentamente por ter deixado o meu pai destruir a única coisa pura que existia na minha vida", sussurrou ele, aproximando os lábios perigosamente dos dela.
"E quando você apareceu, vestida com a pele de um fantasma e os olhos cheios de ódio para me matar, eu entendi", continuou ele, encostando a testa na dela. "Eu não queria a Elisa de volta. Eu queria a mulher corajosa e implacável que ousou desafiar o império dos Silva para vingar a própria família."
"Você é completamente insano", murmurou Natália, sentindo o ar faltar enquanto o peito dele colava-se ao seu.
"Insano seria deixar você ir embora agora", retrucou Matheus antes de capturar os lábios dela em um beijo feroz, desesperado e sem trégua.
A resistência de Natália desmoronou em segundos, consumida pelo calor daquele toque que misturava culpa, traição e uma paixão violenta demais para ser contida.
Suas mãos subiram para o colarinho da camisa dele, puxando-o para mais perto enquanto o mundo exterior despencava ao redor.