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《A Menina Que Só Queria Pão》Parte 8

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Mariana não conseguiu tirar os olhos da fotografia.

Rafael estava ali.

Vivo.

De pé diante de uma oficina, três meses depois da data em que, segundo sua mãe, ele já estava morto.

Ela virou a fotografia novamente.

A data continuava igual.

Não havia engano.

"Isso é impossível."

Antônio Batista permaneceu em silêncio.

Helena se aproximou.

"Você tem certeza de que essa data está correta?"

"Absoluta."

"Quem tirou a fotografia?"

"Eu."

Mariana ergueu os olhos.

"Então meu pai sobreviveu ao acidente?"

Antônio assentiu.

"Sobreviveu."

"Por quanto tempo?"

O velho respirou fundo.

"Alguns meses."

Mariana sentiu uma raiva que ainda não sabia contra quem direcionar.

"Minha mãe mentiu para mim."

"Talvez não."

"Ela sempre disse que ele morreu antes de eu nascer."

Antônio apoiou as mãos sobre a mesa.

"Talvez Isabela realmente acreditasse nisso."

"Como?"

"Porque Rafael também acreditava em uma mentira."

Helena franziu a testa.

"Que mentira?"

Antônio olhou para Mariana.

"Que Isabela tinha ido embora do Brasil."

Mariana ficou imóvel.

"Ela nunca saiu do Brasil."

"Eu sei disso agora."

"Quem contou isso para ele?"

Antônio abriu outra pasta.

"Essa é a pergunta que você precisa responder."

Dentro havia um endereço antigo em Santos.

Pertencia a Célia Oliveira, mãe de Rafael.

"Depois do acidente, dona Célia levou Rafael para o litoral."

"Por quê?"

"Ele estava com medo."

"Dos Montenegro?"

Antônio não respondeu.

Não precisava.

Horas depois, Mariana e Helena seguiam pela Rodovia dos Imigrantes em direção a Santos.

Nenhuma das duas falava.

Mariana mantinha a fotografia de Rafael sobre as pernas.

Helena olhava para ela de vez em quando.

"Você não precisa se culpar."

Mariana riu sem humor.

"Eu não estou me culpando."

"Está com raiva da sua mãe."

"Eu nem sei mais do que estou com raiva."

Ela olhou pela janela.

"Passei a vida acreditando que meu pai tinha morrido antes de eu nascer."

"Isabela pode ter acreditado nisso."

"Todo mundo pode ter acreditado em tudo."

Mariana apertou a fotografia.

"Esse é o problema."

Helena permaneceu em silêncio.

Mariana continuou:

"Minha mãe mentiu sobre o nome."

"Para se proteger."

"Mentiu sobre a família."

"Talvez também para se proteger."

"E sobre meu pai?"

Helena não respondeu.

Mariana virou o rosto.

"Quantas mentiras uma pessoa pode contar antes de você começar a perguntar se conhecia ela de verdade?"

"Você conhecia."

"Conhecia Laura."

A voz de Mariana falhou.

"Talvez eu nunca tenha conhecido Isabela."

Helena sentiu a dor naquela frase.

"Talvez nem eu tenha conhecido completamente."

Mariana olhou para ela.

Pela primeira vez, as duas pareciam estar do mesmo lado da pergunta.

Chegaram a Santos no início da tarde.

O endereço ficava no bairro do Marapé.

A antiga casa de dona Célia ainda existia, mas pertencia a outra família.

Uma mulher que morava na residência ao lado observou Helena e Mariana perguntarem pelo nome dos antigos moradores.

Ela abriu o portão.

"Vocês estão procurando dona Célia Oliveira?"

Mariana se aproximou.

"A senhora conheceu ela?"

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"Conheci."

A mulher devia ter quase oitenta anos.

Chamava-se dona Lourdes.

Quando Mariana explicou quem era, Lourdes ficou vários segundos sem falar.

"Filha do Rafael?"

"Sim."

"Meu Deus."

A velha segurou o rosto de Mariana entre as mãos.

"Você tem os olhos dele."

Mariana quase chorou.

"Por favor, eu preciso saber o que aconteceu."

Lourdes convidou as duas para entrar.

Sentaram em uma pequena varanda.

"Rafael chegou aqui muito machucado."

"Depois do acidente?"

"Sim."

"Quando?"

Lourdes pensou.

"Foi no fim daquele ano."

"Ele estava consciente?"

"Às vezes."

Mariana apertou os dedos.

"Disseram que ele morreu na estrada."

"Não morreu."

Lourdes balançou a cabeça.

"Quebrou costelas, machucou a perna, bateu a cabeça. Ficou internado primeiro."

"Em qual hospital?"

"Na época, dona Célia dizia que era melhor ninguém saber."

Helena perguntou:

"Por quê?"

"Porque o rapaz estava apavorado."

"Com quem?"

Lourdes olhou para ela.

"Com gente poderosa de São Paulo."

Helena baixou os olhos.

Mariana perguntou:

"Ele falava da minha mãe?"

"Todo dia."

A resposta veio sem hesitação.

"Isabela."

Mariana sentiu um nó na garganta.

"Ele sabia que ela estava grávida?"

Lourdes assentiu.

"Sabia."

Mariana fechou os olhos.

Seu pai sabia que ela existiria.

"Ele procurou por ela?"

"Até não conseguir mais."

"Como assim?"

"Mandou cartas."

Mariana abriu os olhos.

"Cartas?"

"Telefonou para conhecidos. Pediu ajuda. Tentou descobrir onde ela estava."

"E encontrou?"

"Não."

Lourdes ficou séria.

"Depois chegou uma carta."

Helena se inclinou.

"De Isabela?"

"Era o que todos acreditaram."

Mariana sentiu o coração acelerar.

"O que dizia?"

"Que ela tinha ido embora."

"Para onde?"

"Portugal."

Mariana balançou a cabeça.

"Minha mãe nunca morou em Portugal."

"Eu sei."

Lourdes levantou.

Entrou na casa.

Voltou com uma pequena caixa de metal.

"Depois que dona Célia morreu, algumas coisas ficaram comigo."

Abriu.

Retirou uma cópia amarelada.

Mariana leu.

A carta dizia que Isabela tinha deixado o Brasil.

Dizia que não queria mais contato.

E pedia que Rafael esquecesse tudo.

Mariana balançou a cabeça.

"Minha mãe nunca escreveria isso."

Helena analisou a folha.

"Essa não é a letra dela."

"Tem certeza?"

"Eu reconheceria a letra de Isabela em qualquer lugar."

Mariana ficou gelada.

"Então alguém escreveu isso."

Lourdes assentiu.

"Rafael acreditou."

"E minha mãe?"

"Também recebeu alguma coisa."

Mariana se virou.

"Como sabe?"

"Porque meses depois dona Célia recebeu uma mulher aqui."

"Quem?"

"Isabela."

Mariana levantou da cadeira.

"Minha mãe esteve nesta casa?"

"Esteve."

"Quando?"

"Rafael já não estava aqui."

"Onde ele estava?"

Lourdes respirou fundo.

"Tinha voltado para São Paulo."

"Por quê?"

"Para procurar Isabela."

Mariana passou a mão pelos cabelos.

"Então eles estavam procurando um ao outro."

"Sim."

"E não se encontraram?"

"Não."

"Por quê?"

Lourdes abriu outra parte da caixa.

"Porque Isabela chegou acreditando que Rafael estava morto."

Mariana perdeu a cor.

Helena levantou.

"Quem disse isso a ela?"

"Ela trouxe documentos."

"Que documentos?"

"Uma cópia de certidão de óbito. Um relatório do acidente. Até uma declaração de reconhecimento."

Mariana sentiu o corpo gelar.

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"Era falso."

"Sim."

"Quem entregou?"

Lourdes ficou em silêncio.

"Por favor."

A velha respirou fundo.

"Isabela disse que os documentos chegaram através de um advogado ligado à família dela."

Helena segurou a cadeira.

"Qual advogado?"

"Não lembro."

"Algum nome?"

Lourdes fechou os olhos.

"Não era advogado, exatamente."

Mariana esperou.

"Era um homem da empresa."

Helena sentiu o coração acelerar.

"Como ele se chamava?"

Lourdes olhou para ela.

"Montenegro."

O silêncio caiu.

Helena empalideceu.

"Augusto?"

"Não."

A resposta veio imediatamente.

Mariana olhou para Helena.

"Então quem?"

Lourdes tentou lembrar.

"Era irmão dele."

Helena se levantou tão rápido que a cadeira caiu.

"Otávio."

Lourdes apontou.

"Esse."

Mariana sentiu o sangue desaparecer do rosto.

"Otávio Montenegro?"

Helena assentiu devagar.

"Pai de Eduardo."

Tudo começou a se encaixar de uma forma assustadora.

Otávio trabalhava diretamente com Augusto.

Tinha acesso aos documentos do Grupo Montenegro.

Conhecia investigadores.

Advogados.

Funcionários.

E, depois que Isabela desapareceu, foi ele quem dizia estar ajudando Helena nas buscas.

"Não."

Helena levou a mão à testa.

"Otávio me entregava relatórios."

Mariana olhou para ela.

"Que relatórios?"

"Sobre Isabela."

"Eles diziam o quê?"

"Que não havia pistas."

Mariana ficou em silêncio.

Helena entendeu antes que ela precisasse dizer.

Durante anos, o homem encarregado de ajudá-la a encontrar Isabela talvez fosse exatamente quem garantia que as duas nunca se encontrassem.

Mariana voltou para Lourdes.

"E Rafael?"

A velha baixou os olhos.

"Depois que voltou para São Paulo, não soubemos mais dele por algum tempo."

"Ele morreu?"

"Eu não sei."

Mariana sentiu o coração disparar.

"Como assim?"

"Não existe corpo que eu tenha visto."

"Mas existe certidão?"

"Existem papéis."

Lourdes olhou diretamente para ela.

"Depois de tudo que você descobriu, ainda confia em papéis?"

Mariana não respondeu.

Na volta para São Paulo, Helena ficou quase todo o caminho em silêncio.

Quando o carro entrou em Jardim Europa, já era noite.

Eduardo esperava na sala.

"Vocês foram para Santos?"

Helena parou.

"Como você sabe?"

Ele hesitou.

"Marcelo comentou."

Helena observou o sobrinho por alguns segundos.

"Seu pai conhecia Rafael."

Eduardo endureceu.

"Meu pai conhecia centenas de pessoas."

"Ele enviou documentos para Isabela."

"Você não sabe disso."

"Sabemos."

Eduardo olhou para Mariana.

"Quem contou?"

Mariana respondeu:

"Uma pessoa que ainda está viva."

Eduardo ficou calado.

Helena não discutiu mais.

Subiu as escadas.

Passou pelo quarto de Isabela.

Parou.

Uma lembrança antiga tinha acabado de voltar.

Poucos meses depois do desaparecimento da filha, Augusto trocara o cofre do escritório.

Dissera que era por segurança.

Depois da morte dele, Helena nunca conseguira abrir um compartimento interno.

Na época, não se importou.

Agora, importava.

Ela entrou no antigo escritório de Augusto.

Mariana foi atrás.

Helena retirou um quadro da parede.

Atrás dele havia um cofre embutido.

Digitou uma combinação.

Nada.

Tentou a data de casamento.

Errado.

Depois olhou para a pulseira de Mariana.

I.M.

Helena fechou os olhos.

Digitou a data de nascimento de Isabela.

Um clique.

A porta abriu.

Mariana se aproximou.

Dentro havia documentos antigos, joias e uma pequena caixa de madeira.

Helena retirou a caixa.

Estava pesada.

Colocou sobre a mesa.

Abriu.

E parou de respirar.

Dezenas de envelopes estavam empilhados.

Alguns amarelados.

Outros ainda fechados.

Helena pegou o primeiro.

Reconheceu imediatamente a letra.

"Não..."

Mariana se aproximou.

"São da minha mãe?"

Helena pegou outro.

Depois outro.

Todos tinham o mesmo destinatário.

Helena Montenegro Vasconcelos.

Suas mãos começaram a tremer.

"Ela escreveu para mim."

Mariana olhou para a caixa lotada.

Helena começou a chorar.

"Durante todos esses anos..."

Retirou mais uma carta.

Depois outra.

Havia dezenas.

Cartas de Isabela que Helena jamais recebera.

Vinte e dois anos de palavras escondidas dentro do cofre de Augusto.

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