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《A Menina Que Só Queria Pão》Parte 6

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Três dias depois, ninguém na mansão Montenegro conseguia fingir que a vida continuava normal.

O fragmento encontrado entre os papéis queimados tinha sido guardado por Helena em um cofre.

A carta de Isabela continuava desaparecida.

E Mariana finalmente havia tomado uma decisão.

Faria o exame de DNA.

Não por Eduardo.

Não por Carolina.

Nem pelo patrimônio dos Montenegro.

Ela precisava saber quem tinha sido sua mãe antes de se tornar Laura Oliveira.

Na manhã da coleta, Helena acompanhou Mariana até um laboratório particular em São Paulo.

As duas quase não conversaram.

Quando a enfermeira chamou o nome de Mariana, Helena segurou sua mão.

"Você não precisa fazer isso se não quiser."

Mariana olhou para ela.

"Preciso."

"Por causa deles?"

"Por minha causa."

Helena soltou sua mão.

Mariana respirou fundo.

"Passei vinte e três anos acreditando em uma história. Agora descobri que talvez metade dela fosse mentira."

"Isabela devia ter motivos."

"Eu sei."

Mariana baixou os olhos.

"Mas entender os motivos não muda o fato de que eu não sei quem sou."

A coleta foi simples.

O difícil veio depois.

A espera.

Durante três dias, Mariana permaneceu na mansão, mas recusou roupas novas, cartão de crédito, motorista e qualquer tentativa de Helena de lhe oferecer conforto além do necessário.

Carolina observava tudo.

Eduardo também.

Na manhã em que o resultado chegou, Marcelo Nogueira telefonou para Helena.

"O laboratório enviou o laudo."

Helena ficou em silêncio.

"Helena?"

"Eu ouvi."

"Quer que eu vá até aí?"

"Sim."

"Tem certeza?"

"Quero todos presentes."

Pouco antes do meio-dia, a família se reuniu na sala principal.

Mariana ficou perto da janela.

Helena sentou no sofá.

Eduardo permaneceu de pé.

Carolina escolheu uma poltrona distante, com os braços cruzados.

Marcelo chegou alguns minutos depois carregando uma pasta de couro.

Era advogado da família havia quase trinta anos.

Conhecera Augusto.

Conhecera Isabela.

E, quando viu Mariana pela primeira vez, parou no meio do salão.

Ela percebeu.

"Por que está me olhando assim?"

Marcelo demorou a responder.

"Desculpe."

"Você conheceu minha mãe?"

"Conheci."

Mariana se aproximou.

"Bem?"

"Desde que ela era criança."

"Então diga."

Marcelo franziu a testa.

"Dizer o quê?"

"Se eu pareço com ela."

O advogado olhou para Helena.

Depois voltou para Mariana.

"Quando você entrou, por um segundo achei que estivesse vendo Isabela aos vinte e poucos anos."

Mariana baixou os olhos.

Carolina soltou o ar com impaciência.

"Podemos acabar logo com isso?"

Helena virou o rosto.

"Ninguém está obrigando você a ficar."

"Eu faço parte desta família."

Mariana respondeu antes de Helena.

"É justamente isso que estamos tentando descobrir sobre mim."

Carolina ficou calada.

Marcelo colocou a pasta sobre a mesa.

"Recebi o resultado diretamente do laboratório."

Helena olhou para o envelope branco.

Não conseguiu tocar.

Mariana percebeu.

"Você não vai abrir?"

Helena balançou a cabeça.

"Não consigo."

"Por quê?"

"Porque esperei vinte e dois anos por alguma coisa que me dissesse onde minha filha estava."

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Sua voz começou a falhar.

"Agora tenho medo até de um pedaço de papel."

Eduardo se aproximou.

"Se preferir, eu abro."

"Não."

Helena respondeu imediatamente.

Mariana olhou para o envelope.

Então caminhou até a mesa.

"Eu abro."

Ninguém falou.

Ela pegou o documento.

Seus dedos tremiam.

Rasgou lentamente a borda.

Retirou as folhas.

Por alguns segundos, os números não fizeram sentido.

Mariana leu novamente.

Helena levantou.

"O que diz?"

Mariana continuou olhando.

"Mariana?"

Ela levou a mão à boca.

As lágrimas surgiram antes que conseguisse falar.

"Noventa e nove vírgula nove por cento."

Helena parou.

"O quê?"

Mariana levantou os olhos.

"Compatibilidade de parentesco."

O rosto de Helena se desfez.

Marcelo respirou fundo.

Carolina ficou completamente imóvel.

Eduardo apertou os dedos.

Mariana continuou:

"O laudo confirma vínculo biológico compatível entre avó materna e neta."

Helena começou a chorar.

"Você é filha dela."

Mariana não conseguiu responder.

"Você é filha da minha Isabela."

Helena atravessou a sala.

Parou diante dela.

Por um instante, pareceu ter medo de abraçá-la.

Mariana percebeu.

E foi ela quem deu o último passo.

Helena a envolveu nos braços.

O choro veio forte.

Sem elegância.

Sem preocupação com quem estava olhando.

"Minha neta."

Mariana fechou os olhos.

Aquelas duas palavras doeram mais do que esperava.

Ela tinha uma avó.

Sua mãe tinha tido uma mãe.

A mulher que morreu dizendo que não possuía família tinha deixado para trás alguém que passara vinte e dois anos procurando por ela.

"Por que ela não voltou?"

Mariana perguntou entre lágrimas.

Helena apertou o abraço.

"Eu não sei."

"Por que ela não me trouxe?"

"Eu não sei."

"Ela sabia que você procurava?"

Helena chorou ainda mais.

"Eu não sei, minha filha."

Mariana se afastou um pouco.

"Não me chama assim."

Helena ficou assustada.

Mariana enxugou o rosto.

"Desculpa."

"Não precisa."

"É só que..."

Ela respirou fundo.

"Minha mãe me chamava assim."

Helena assentiu.

"Eu entendo."

Mariana olhou novamente para o laudo.

"Então Laura nunca existiu."

Marcelo respondeu:

"Existiu."

Ela virou o rosto.

"Como?"

"Laura foi o nome que Isabela escolheu para sobreviver longe daqui."

Mariana apertou o documento.

"Mas Isabela era quem ela realmente era."

Marcelo hesitou.

"Talvez as duas fossem."

A resposta fez Mariana ficar em silêncio.

Carolina levantou.

"Pronto."

Todos olharam.

"O exame confirmou."

Ela pegou a bolsa.

"Agora podemos tratar disso com advogados."

Helena franziu a testa.

"Tratar do quê?"

Carolina olhou para Mariana.

"Da situação."

Mariana riu, incrédula.

"Eu virei uma situação?"

"Não foi isso que eu quis dizer."

"Foi exatamente isso."

Eduardo interveio.

"Carolina, chega."

Ela virou para o marido.

"Você sabe muito bem o que esse resultado significa."

O silêncio voltou.

Mariana percebeu.

"Significa o quê?"

Ninguém respondeu.

Ela olhou para Helena.

"Tem alguma coisa que eu ainda não sei?"

Helena pareceu confusa.

Marcelo fechou os olhos por um instante.

Eduardo falou:

"Isso pode esperar."

Mariana virou para ele.

"Não."

"Você acabou de receber uma notícia importante."

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"Então parem de esconder as outras."

Eduardo apertou a mandíbula.

"Não estamos escondendo."

Marcelo interrompeu.

"Estamos."

Eduardo olhou para ele.

"Marcelo."

O advogado não recuou.

"Ela tem direito de saber."

Carolina ficou tensa.

Helena encarou Marcelo.

"Saber o quê?"

Marcelo abriu a pasta de couro.

Retirou uma cópia de um documento antigo.

"Augusto alterou o testamento alguns anos antes de morrer."

Helena franziu a testa.

"Eu conheço o testamento."

"Conhece a parte principal."

Marcelo colocou o documento sobre a mesa.

"Existe uma cláusula específica relacionada a Isabela."

Eduardo passou a mão pelo rosto.

"Isso não precisa ser discutido agora."

Mariana respondeu:

"Agora é exatamente quando vai ser discutido."

Marcelo assentiu.

"Quando Isabela desapareceu, Augusto acreditava que ela poderia ter tido filhos."

Helena ficou surpresa.

"Ele sabia?"

"Suspeitava."

Ela se lembrou da última visita da filha.

Do silêncio de Augusto naquela noite.

"Ele nunca me contou."

"Não."

Helena ficou pálida.

"Meu marido sabia que Isabela podia estar grávida e escondeu isso de mim?"

Marcelo não respondeu diretamente.

"Ele incluiu uma cláusula para o caso de algum descendente legítimo de Isabela aparecer."

Carolina se levantou novamente.

"Marcelo, pense bem."

O advogado olhou para ela.

"Estou apenas cumprindo minha obrigação."

Mariana sentiu o estômago apertar.

"Que cláusula?"

Marcelo abriu o documento.

"Parte das ações de Augusto ficou em uma estrutura patrimonial administrada pelo espólio."

Eduardo desviou o olhar.

Marcelo continuou:

"Se Isabela estivesse viva, essas ações seriam transferidas para ela."

Mariana já começava a entender.

"E se ela estivesse morta?"

Marcelo olhou diretamente para Mariana.

"Passariam aos descendentes biológicos dela."

Helena levou a mão ao peito.

"Quanto?"

Marcelo respirou fundo.

"Trinta e um por cento das ações familiares do Grupo Montenegro."

O silêncio foi absoluto.

Mariana olhou para ele sem compreender completamente.

"Trinta e um por cento?"

"Sim."

Carolina soltou uma risada nervosa.

"Você percebe o tamanho disso?"

Mariana olhou para ela.

"Não."

Carolina parecia quase indignada.

"Você acabou de se tornar uma das maiores acionistas individuais do grupo."

Mariana ficou parada.

Horas antes, tinha acordado no quarto de uma casa onde ainda se sentia uma intrusa.

Dias antes, tinha pedido pão que seria jogado fora.

Agora diziam que possuía uma parte de um conglomerado empresarial que valia centenas de milhões de reais.

Ela não sorriu.

Não perguntou quanto valia.

Não perguntou quando receberia.

Apenas colocou o laudo sobre a mesa.

Eduardo observava cada movimento.

"Mariana, essa questão exige cuidado."

Ela olhou para ele.

"Que questão?"

"As ações."

"Eu nem sabia que elas existiam."

"Agora sabe."

"Isso muda alguma coisa para você?"

Eduardo demorou meio segundo demais.

"Claro que não."

Mariana quase sorriu.

"Você mente mal."

Carolina avançou.

"Você não pode chegar aqui e..."

"Carolina!"

Helena gritou.

Mas Mariana já tinha se levantado.

"Eu não cheguei aqui querendo nada!"

Sua voz ecoou pela sala.

"Há menos de uma semana, eu nem sabia que Montenegro era o sobrenome da minha mãe."

Carolina ficou calada.

Mariana apontou para os documentos.

"Vocês estão falando de ações, empresas, porcentagens."

Seus olhos se encheram de lágrimas.

"Eu só queria saber quem era minha mãe."

Helena se aproximou.

Mariana recuou.

"Eu queria saber por que ela chorava à noite."

Sua voz falhou.

"Queria saber por que ela escondia fotografias."

Olhou para a pulseira.

"Queria saber por que me fez carregar isso sem nunca explicar de onde veio."

Helena começou a chorar novamente.

"Eu queria ter encontrado ela viva."

Mariana apertou os olhos.

"Dinheiro nenhum vai me devolver isso."

Marcelo ficou em silêncio.

Então pareceu tomar uma decisão.

"Existe mais uma coisa."

Eduardo virou imediatamente.

"Marcelo."

O advogado ignorou.

Abriu um compartimento interno da pasta.

Retirou um envelope antigo, amarelado pelo tempo.

Havia um selo de cartório na parte de trás.

Helena reconheceu a caligrafia antes mesmo de se aproximar.

"Augusto."

Marcelo assentiu.

Eduardo ficou pálido.

"De onde você tirou isso?"

"Ficou sob minha custódia."

"Por vinte e dois anos?"

"Seguindo instruções."

Helena estendeu a mão.

Marcelo não entregou imediatamente.

Mariana observou o nome escrito na frente.

Isabela Montenegro Vasconcelos.

"É outro testamento?"

Marcelo balançou a cabeça.

"Não."

A sala inteira ficou imóvel.

Ele finalmente colocou o envelope nas mãos de Mariana.

"Isso não é um testamento."

Mariana olhou para ele.

Marcelo respirou fundo.

"É uma carta que Augusto escreveu para Isabela antes de morrer."

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