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《A Menina Que Só Queria Pão》Parte 4

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O silêncio na sala de estar durou apenas alguns segundos.

Depois, os cochichos começaram.

Baixos.

Disfarçados.

Mas Mariana ouviu.

"É ela?"

"Helena trouxe mesmo a menina?"

"Dizem que veio da rua."

Duas funcionárias atravessavam o corredor levando uma bandeja de café.

Quando perceberam que Mariana tinha escutado, abaixaram os olhos e seguiram em frente.

Ela apertou a alça da velha bolsa preta.

Nunca tinha se sentido tão deslocada.

O mármore claro brilhava sob seus pés.

Havia quadros enormes nas paredes, vasos que pareciam custar mais do que tudo que ela já possuíra e móveis onde ninguém parecia ter coragem de sentar.

Mariana olhou para as próprias roupas.

A calça gasta.

A camiseta desbotada.

As sandálias simples.

Carolina também olhou.

E não fez questão de esconder.

"Helena, pelo menos poderia ter avisado."

Helena virou o rosto.

"Avisado o quê?"

"Que teríamos visita."

Mariana sentiu o tom.

Não era sobre visita.

Era sobre ela.

Carolina se aproximou.

"Eu poderia ter pedido para prepararem alguma coisa."

Helena estreitou os olhos.

"Alguma coisa?"

"Um quarto adequado."

Mariana quase riu.

"Não precisa."

Carolina olhou para ela.

"Eu não estava falando com você."

Eduardo interrompeu antes que Helena reagisse.

"Carolina."

Ela soltou o ar pelo nariz.

Eduardo então se aproximou de Mariana com uma expressão completamente diferente.

Calma.

Educada.

Quase acolhedora.

"Desculpe por tudo isso."

Mariana não respondeu.

Ele estendeu a mão.

"Eu sou Eduardo Montenegro."

"Eu sei."

Eduardo arqueou levemente as sobrancelhas.

"Helena falou de mim?"

"Não."

Mariana olhou para Carolina.

"Ela falou."

Carolina desviou os olhos.

Eduardo soltou uma pequena risada.

"Entendi."

Ele manteve a mão estendida.

Mariana hesitou antes de apertá-la.

"Se ela for realmente da família, será bem-vinda."

Helena observou o sobrinho.

Mariana também.

A frase parecia gentil.

Mas havia alguma coisa nela que não agradou.

"Se?"

Eduardo sorriu.

"Você entende."

"Entendo."

Mariana soltou a mão dele.

"Enquanto eu não provar alguma coisa, ainda sou uma desconhecida."

Eduardo abriu a boca.

Helena respondeu antes.

"Você não precisa provar nada para ele."

Carolina riu.

"Claro que precisa."

Helena virou-se.

"Carolina."

"Estamos falando da família Montenegro."

"Exatamente."

Carolina cruzou os braços.

"Qualquer pessoa pode aparecer com uma história triste."

Mariana sentiu o sangue subir ao rosto.

"Eu não apareci aqui."

Carolina ficou em silêncio.

"Foi ela que me trouxe."

Mariana apontou para Helena.

"Eu não pedi para entrar nesta casa."

Helena segurou seu braço.

"Mariana."

"Não."

Ela se afastou.

"Eu quero deixar isso claro desde agora."

Olhou para Carolina.

"Eu não sabia quem Helena era."

Depois olhou para Eduardo.

"Eu não sabia quem Isabela era."

Por fim, olhou para os dois.

"E não sabia que esta família existia."

Carolina respondeu:

"Conveniente."

Helena perdeu a paciência.

"Chega."

Sua voz ecoou pela sala.

Até as funcionárias no corredor pararam.

"Se alguém nesta casa tiver alguma coisa para dizer sobre Mariana, vai dizer na minha frente."

Carolina descruzou os braços.

"Você está protegendo alguém que conheceu hoje."

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"Estou protegendo alguém que acabou de descobrir que a própria mãe viveu uma vida que ela nunca conheceu."

Carolina deu um sorriso duro.

"E você já decidiu acreditar em tudo."

Helena respirou fundo.

"Eu decidi descobrir a verdade."

Virou-se para Mariana.

"Venha comigo."

Subiram a escada principal.

Mariana sentiu vários olhares acompanhando seus passos.

No topo, duas funcionárias fingiram organizar flores.

Assim que Helena passou, uma delas cochichou:

"Ela parece com dona Isabela."

A outra respondeu:

"Shhh."

Mariana ouviu.

Parou.

Helena percebeu.

"Não ligue."

"Elas conheciam minha mãe?"

"Algumas não."

Helena continuou caminhando.

"Mas há pessoas nesta casa que trabalham aqui desde antes de Isabela desaparecer."

Mariana sentiu um frio no estômago.

"Elas lembram dela?"

"Todos lembram."

Helena parou diante de uma porta branca no fim do corredor.

Sua mão ficou alguns segundos sobre a maçaneta.

"Eu quase nunca entro aqui."

Mariana olhou para ela.

"Por quê?"

Helena demorou para responder.

"Porque entrar é fácil."

Abriu a porta.

"Sair é que é difícil."

O quarto parecia preso no tempo.

Não havia poeira.

Mas também não havia sinais de que alguém tivesse vivido ali recentemente.

Uma colcha azul-clara cobria a cama.

Livros ocupavam uma estante inteira.

Havia discos antigos, fotografias, cadernos e um porta-retratos sobre a cômoda.

Mariana entrou devagar.

"Era dela?"

"Tudo."

Helena fechou a porta.

"Depois que Isabela desapareceu, ninguém mexeu."

"Por vinte e dois anos?"

"Sim."

Mariana caminhou até a escrivaninha.

Havia marcas de caneta na madeira.

Uma pequena estrela desenhada perto da borda.

Ela tocou.

Helena percebeu.

"Ela fazia estrelas em tudo."

Mariana imediatamente olhou para a pulseira.

A pequena estrela gravada por dentro.

Helena também.

Nenhuma falou.

Mariana continuou andando.

Parou diante de uma estante.

Entre os livros, havia uma caixa de madeira.

"Posso?"

Helena assentiu.

Mariana abriu.

Dentro estavam fotografias.

Isabela criança.

Isabela adolescente.

Isabela ao lado de Helena.

Isabela em aniversários.

Até que Mariana pegou uma foto e congelou.

Ela conhecia aquela imagem.

Uma menina de cerca de oito anos estava sentada no chão do quarto.

Usava um vestido amarelo.

Atrás dela, a mesma cama.

A mesma janela.

A mesma cômoda.

Mariana ficou pálida.

"Eu tenho essa foto."

Helena se aproximou.

"O quê?"

"Minha mãe guardava uma igual."

"Tem certeza?"

Mariana abriu a bolsa.

Remexeu cuidadosamente.

Tirou um pequeno envelope plástico.

Dentro, havia três fotografias velhas.

Escolheu uma.

Colocou ao lado da que estava na caixa.

Eram idênticas.

Helena levou a mão à boca.

Mariana ficou olhando.

"Ela nunca me disse onde isso foi tirado."

Helena tocou a fotografia.

"Foi aqui."

Mariana olhou em volta.

Pela primeira vez, a dúvida começou a enfraquecer.

Aquela não era apenas uma pulseira.

Não era apenas uma fotografia recente reconhecida por Helena.

Sua mãe tinha guardado uma imagem tirada naquele quarto.

Um lugar que Mariana nunca tinha visto.

"Meu Deus."

Ela sentou na ponta da cama.

Helena ficou de pé.

Mariana olhou novamente para a foto.

"Ela realmente viveu aqui."

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"Sim."

"Ela dormiu nesta cama?"

"Por muitos anos."

"Estudava nessa mesa?"

"Sim."

Mariana respirou fundo.

"Então por que nunca falou?"

Helena sentou ao lado dela.

"Talvez estivesse com medo."

"De quem?"

Helena não respondeu.

Mariana virou o rosto.

"Do meu avô?"

"Eu não sei."

"Você sabe mais do que está dizendo."

Helena fechou os olhos.

"Eu sei que Augusto errou muito com ela."

"Quanto?"

"Eu ainda estou tentando entender."

Mariana levantou.

"Todo mundo nesta família fala como se minha mãe fosse um segredo."

"Ela não era."

"Então por que parece que ninguém consegue dizer a verdade?"

Helena também se levantou.

"Porque algumas verdades levaram vinte e dois anos para voltar."

Mariana apertou a fotografia na mão.

"Eu não sei se quero fazer parte disso."

"Você não precisa decidir hoje."

"Mas vocês já decidiram alguma coisa."

Helena ficou tensa.

"O quê?"

"Que eu preciso ser investigada."

Helena entendeu.

"Mariana..."

"Eduardo falou como se eu estivesse prestando uma prova."

"Ele está assustado."

"Comigo?"

"Com o que isso significa."

Mariana riu sem humor.

"Dinheiro."

Helena não respondeu.

Isso foi suficiente.

Mariana colocou a foto sobre a mesa.

"É isso."

"Não."

"Claro que é."

Ela apontou para o quarto.

"Vocês não estão preocupados só com quem minha mãe era."

"Mariana, escute."

"Estão preocupados com o que acontece se eu for mesmo filha dela."

Helena segurou sua mão.

"Eu estou preocupada com a verdade."

"Então por que todo mundo me olha como se eu tivesse vindo roubar alguma coisa?"

Helena ficou em silêncio.

Mariana soltou a mão.

No andar de baixo, Eduardo entrou no escritório.

Fechou a porta.

Pegou o celular.

Ligou para alguém.

"Marcelo?"

A voz do advogado respondeu:

"Sim."

Eduardo caminhou até a janela.

"Quero um levantamento completo."

"Sobre quem?"

"Mariana Oliveira."

"Que tipo de levantamento?"

"Tudo."

Eduardo baixou a voz.

"Quero saber tudo sobre essa garota."

"Documentos?"

"Documentos, empregos, dívidas, endereços, hospitais, antecedentes."

"E a mãe?"

"Também."

O advogado hesitou.

"Isso é legalmente delicado."

Eduardo apertou a mandíbula.

"Então seja delicado."

"Eduardo..."

"Marcelo."

O tom mudou.

"Eu não estou pedindo sua opinião."

Silêncio.

"Entendido."

Eduardo desligou.

Carolina estava parada na porta.

"Você acha que é fraude?"

"Não."

Ela entrou.

"Então por que está investigando?"

Eduardo olhou para o andar de cima.

"Porque se ela for quem Helena acha que é, temos um problema muito maior."

Carolina franziu a testa.

"Que problema?"

Eduardo virou-se para ela.

"Isabela era filha única."

Carolina entendeu lentamente.

"Herança."

"Não só herança."

Ele fechou as cortinas.

"Participação no grupo."

Carolina empalideceu.

"Quanto?"

Eduardo não respondeu.

E isso assustou ainda mais.

No andar de cima, Helena abriu outro armário.

Mariana estava em silêncio.

Então Helena falou:

"Precisamos fazer um exame de DNA."

Mariana virou na mesma hora.

"Não."

Helena se surpreendeu.

"Mariana."

"Eu disse não."

"É a única maneira de confirmar."

"Confirmar para quem?"

"Para nós."

"Não."

Mariana pegou a bolsa.

"Você não precisa decidir agora."

"Eu já decidi."

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Helena se colocou entre ela e a porta.

"Você acabou de encontrar fotografias da sua mãe aqui."

"Eu sei."

"Você usa a pulseira dela."

"Eu sei."

"Então por que não quer saber?"

Mariana perdeu a paciência.

"Porque eu sei o que vocês querem!"

Helena ficou imóvel.

"Você acha que eu apareci aqui atrás de dinheiro."

"Não."

"Todos acham."

"Eu não."

"Então por que precisa de um exame agora?"

"Porque precisamos ter certeza."

Mariana riu com amargura.

"Eu sabia."

"Não distorça."

"Eu não vim atrás do seu dinheiro!"

Helena respondeu imediatamente:

"Eu sei!"

Mariana apontou para ela, os olhos cheios de lágrimas.

"Então pare de olhar para mim como se eu fosse uma prova!"

Helena não conseguiu responder.

Mariana respirava rápido.

"Minha mãe morreu há sete meses."

Sua voz começou a falhar.

"Eu ainda acordo pensando que preciso comprar o remédio dela."

Helena abaixou os olhos.

"Eu ainda pego o telefone pensando em ligar para ela."

Mariana enxugou as lágrimas com raiva.

"E agora descubro que ela tinha outro nome, outra família, outra vida."

Helena tentou se aproximar.

Mariana recuou.

"Eu não consigo fazer um exame hoje e transformar tudo isso em um número."

"Não é isso que eu quero."

"Então me dê tempo."

Helena ficou em silêncio.

Depois assentiu.

"Tudo bem."

Mariana respirou fundo.

"Tudo bem?"

"Você terá o tempo que precisar."

A resposta a surpreendeu.

Helena abriu a porta.

"Vou pedir que preparem um quarto."

"Eu não quero ficar."

"Já está tarde."

Mariana olhou pela janela.

A noite realmente começava a cair sobre São Paulo.

Helena falou com cuidado.

"Fique só esta noite."

Mariana hesitou.

"Uma noite."

"Uma."

Horas depois, a mansão estava silenciosa.

Mariana dormia em um quarto de hóspedes no segundo andar.

A bolsa preta estava sobre uma poltrona perto da cama.

Dentro dela, entre documentos e fotografias, havia algo que ninguém da família ainda tinha visto.

Um envelope amarelado.

Mariana o carregava desde a morte da mãe.

Na frente, escrito à mão, havia apenas:

"Para mamãe."

Pouco depois das duas da manhã, a maçaneta girou.

A porta abriu devagar.

Uma sombra entrou.

Parou ao lado da cama.

Mariana não acordou.

A pessoa caminhou até a poltrona.

Pegou a bolsa preta.

Abriu o zíper.

Não tocou no dinheiro.

Não mexeu no celular.

Não levou as fotografias.

Os dedos procuraram entre os documentos.

Até encontrar o envelope.

A mão parou.

Depois puxou a carta de dentro da bolsa.

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