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《A Menina Que Só Queria Pão》Parte 1

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O garçom já tinha pegado a cesta de pães quando Mariana criou coragem.

Ela estava parada perto da entrada do restaurante havia quase cinco minutos, tentando ignorar a tontura que fazia as luzes do salão parecerem distantes.

Dois dias.

Fazia quase dois dias que ela não comia uma refeição de verdade.

Naquela manhã, tinha dividido um pacote de biscoitos com um senhor que dormia perto da estação República. Depois disso, só água.

O restaurante ficava nos Jardins, em São Paulo.

Mesas impecavelmente arrumadas, taças brilhando sob lustres discretos, garçons de uniforme escuro e clientes que falavam baixo enquanto mexiam em celulares que Mariana nunca conseguiria comprar.

Ela não queria entrar.

Só tinha visto, pela porta aberta da cozinha, um funcionário colocando pães que sobraram do almoço dentro de uma cesta.

Logo depois, ele caminhou em direção a uma grande lixeira.

Mariana respirou fundo.

Apertou contra o peito a velha bolsa preta onde carregava tudo o que ainda lhe pertencia e deu dois passos para dentro.

"Com licença..."

O garçom virou o rosto.

Ela apontou para a cesta.

"Se vocês vão jogar esse pão fora… eu posso ficar com ele?"

O rapaz hesitou.

Antes que respondesse, uma voz atravessou o salão.

"Você está fazendo o quê aqui?"

Mariana virou devagar.

Um homem de terno azul-marinho caminhava em sua direção.

A plaquinha presa ao paletó dizia César Almeida, gerente.

Ele olhou primeiro para as sandálias gastas de Mariana.

Depois para a calça desbotada.

Por último, para a camiseta clara, já rasgada perto do ombro.

"Eu só perguntei sobre o pão."

"Que pão?"

"Aquele que ele ia jogar fora."

César olhou para o garçom.

"Leve isso para a cozinha."

O rapaz obedeceu imediatamente.

Mariana engoliu em seco.

"Senhor, eu não estou pedindo dinheiro. Se vai para o lixo, eu só..."

"Este lugar não é para gente como você."

A frase saiu alta demais.

Algumas conversas pararam.

Uma mulher com colar de pérolas virou o rosto.

Um homem perto da janela baixou o celular apenas para olhar melhor.

Mariana sentiu o rosto queimar.

César se aproximou mais.

"Os clientes vêm aqui para almoçar em paz. Não para serem abordados."

"Eu não abordei ninguém."

"Você entrou sem autorização."

"Eu só estava com fome."

César soltou uma pequena risada.

"Então procure um abrigo."

Mariana ficou imóvel.

Por um instante, o barulho dos talheres pareceu desaparecer.

Ela tinha ouvido coisas piores nos últimos meses.

Tinha sido ignorada.

Expulsa.

Olharam para ela como se fosse suja.

Como se pobreza fosse uma doença contagiosa.

Mas naquele momento, com dezenas de olhos observando, aquelas palavras machucaram de um jeito diferente.

Mariana apertou ainda mais a bolsa.

"Desculpe."

César apontou para a saída.

"Pode ir."

Ela assentiu.

Não queria chorar ali.

Não daria aquele gosto a ninguém.

Virou-se e começou a caminhar em direção à porta.

Foi então que uma senhora sentada sozinha em uma mesa próxima à janela ergueu os olhos.

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Helena Montenegro Vasconcelos estava esperando o café.

Aos sessenta e oito anos, era uma das mulheres mais conhecidas da elite paulistana.

Seu nome aparecia em reuniões de empresários, eventos beneficentes e páginas de economia.

Mas ninguém naquele restaurante sabia que, havia vinte e dois anos, Helena carregava uma dor que dinheiro nenhum tinha conseguido aliviar.

Ela viu Mariana passar.

Primeiro percebeu a juventude escondida atrás do cansaço.

Depois, os olhos vermelhos.

Então Mariana ergueu a mão para secar discretamente uma lágrima.

A manga gasta deslizou pelo braço.

E Helena viu a pulseira.

Seu corpo inteiro paralisou.

A pequena xícara de café escapou de seus dedos.

Caiu sobre o pires e quebrou.

O som fez algumas pessoas virarem.

Helena não ouviu.

Só conseguia olhar para o pulso de Mariana.

Uma pulseira antiga de prata.

Fina.

Com pequenos detalhes em forma de folhas nas laterais.

O mesmo fecho.

O mesmo desenho.

Helena conhecia aquela peça.

Conhecia cada curva.

Cada arranhão.

Porque tinha escolhido aquela pulseira pessoalmente vinte e dois anos antes.

Para Isabela.

Sua única filha.

"Espere!"

Mariana parou.

Helena se levantou tão rápido que a cadeira bateu para trás.

César correu em sua direção.

"Dona Helena, aconteceu alguma coisa?"

Ela nem olhou para ele.

Caminhou diretamente até Mariana.

"Mostre seu braço."

Mariana recuou.

"O quê?"

"A pulseira."

Helena estendeu a mão.

"Por favor."

Mariana cobriu o pulso instintivamente.

"É minha."

Helena respirava com dificuldade.

"Eu só quero ver."

César tentou intervir.

"Dona Helena, eu posso pedir para ela..."

Helena se virou com tanta frieza que ele interrompeu a frase.

"Você já falou demais."

O gerente empalideceu.

Helena voltou a olhar para Mariana.

Desta vez, sua voz saiu quebrada.

"ONDE VOCÊ CONSEGUIU ESSA PULSEIRA?"

Mariana se assustou.

"Era da minha mãe."

Helena não se mexeu.

A resposta pareceu atravessá-la.

"Da sua mãe?"

"Sim."

"Qual era o nome dela?"

Mariana franziu a testa.

"Por que a senhora quer saber?"

Helena fechou os olhos por um segundo.

Quando tornou a abri-los, havia lágrimas ali.

"Porque eu conheço essa pulseira."

Mariana olhou para o próprio pulso.

"Isso não é possível."

"Eu preciso olhar por dentro."

"Não."

"Por favor."

Mariana apertou os lábios.

Aquela pulseira era uma das poucas coisas que restaram de sua mãe.

Laura a tinha usado durante anos.

Depois, quando Mariana completou dezesseis, colocou a peça em seu pulso.

"Nunca tire."

Foi tudo o que disse.

Mariana nunca perguntou por quê.

Agora, uma desconhecida rica tremia diante dela como se estivesse olhando para um fantasma.

Helena estendeu a mão novamente.

"Eu não vou tirar de você."

Mariana hesitou.

Depois, muito devagar, aproximou o braço.

Helena tocou a pulseira com a ponta dos dedos.

Seu rosto mudou.

Não era apenas parecida.

Era aquela.

Helena reconheceu um pequeno risco perto do fecho.

Isabela tinha feito aquilo quando derrubou a pulseira no chão durante uma festa de aniversário.

Helena lembrava até da discussão.

"Eu disse para você ter cuidado."

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E Isabela, aos dezenove anos, tinha rido.

"Mãe, é só uma pulseira."

Helena quase perdeu o ar.

Só uma pulseira.

Durante vinte e dois anos, aquele objeto tinha sido uma das coisas que ela mais procurara no mundo.

"Posso?"

Mariana observou a mão dela.

Finalmente assentiu.

Helena virou cuidadosamente o bracelete.

César, o garçom e vários clientes acompanhavam tudo em silêncio.

Na parte externa, não havia nada.

Helena passou a unha perto de uma pequena dobra.

Mariana franziu a testa.

"O que está procurando?"

Helena não respondeu.

Girou a pulseira mais um pouco.

E então viu.

As letras eram minúsculas.

Quase apagadas pelo tempo.

Mas ainda estavam ali.

I.M.

Ao lado, uma pequena estrela.

Helena levou a mão à boca.

As pernas perderam força.

Mariana segurou seu braço por reflexo.

"Senhora?"

Helena começou a chorar.

Não era um choro discreto.

Era o choro de alguém que tinha esperado por uma resposta durante mais de duas décadas.

"Meu Deus..."

Mariana olhou novamente para a gravação.

"Eu nunca tinha visto isso."

"Eu mandei gravar."

Mariana ergueu os olhos.

"O quê?"

Helena passou os dedos pelas letras.

"I.M. Isabela Montenegro."

O nome ficou suspenso entre as duas.

Mariana soltou devagar o braço da mulher.

"Minha mãe não se chamava Isabela."

A esperança no rosto de Helena oscilou.

"Como ela se chamava?"

"Laura."

Helena ficou em silêncio.

A palavra pareceu abrir um vazio dentro dela.

Laura.

Não Isabela.

Talvez fosse uma coincidência.

Talvez a pulseira tivesse sido vendida.

Talvez Isabela tivesse dado a alguém.

Talvez Helena estivesse tentando transformar uma desconhecida em resposta porque já estava cansada demais de não ter nenhuma.

Ela respirou fundo.

"Laura o quê?"

"Laura Oliveira."

Helena abaixou os olhos.

O sobrenome também não significava nada.

Mariana percebeu a decepção.

"Desculpe."

Helena demorou alguns segundos para responder.

"Não precisa."

"Eu acho que a senhora confundiu."

"Talvez."

Mariana puxou a manga para esconder novamente a pulseira.

Helena ficou olhando.

"Você disse que era da sua mãe."

"Era."

"Ela está onde?"

Mariana apertou a alça da bolsa.

A resposta saiu baixa.

"Ela morreu."

Helena ergueu o rosto imediatamente.

"Quando?"

"Sete meses atrás."

O impacto foi visível.

Helena levou a mão até a mesa ao lado para se apoiar.

Mariana se arrependeu de ter dito tão rápido.

"Ela estava doente há muito tempo."

Helena fechou os olhos.

Sete meses.

Se aquela mulher fosse Isabela...

Não.

Não podia pensar assim.

Ainda não.

"Ela nunca falou da família?"

Mariana balançou a cabeça.

"Quase nunca."

"Dos pais?"

"Ela dizia que não tinha ninguém."

Helena engoliu em seco.

"Nem uma mãe?"

Mariana olhou para ela de um jeito estranho.

"Às vezes eu achava que tinha."

Helena parou de respirar.

"Por quê?"

Mariana demorou a responder.

"Porque ela tinha pesadelos."

O salão continuava silencioso.

Até César havia parado de fingir que estava ocupado.

Helena deu um passo na direção de Mariana.

"Que tipo de pesadelos?"

"Eu não sei."

"Ela dizia alguma coisa?"

Mariana abaixou os olhos, tentando lembrar.

"Alguns nomes."

Helena sentiu o coração bater mais rápido.

"Quais?"

Mariana pensou por alguns segundos.

"Às vezes ela falava Rafael."

Helena franziu a testa.

O nome não lhe era desconhecido.

Mas Mariana continuou.

"E tinha outro."

Helena quase não conseguiu perguntar.

"Qual?"

Mariana olhou diretamente para ela.

"Helena."

A senhora ficou completamente imóvel.

Mariana continuou, sem perceber que cada palavra destruía uma certeza de vinte e dois anos.

"Quando ela dormia… ela chorava chamando alguém de Helena."

Helena perdeu a cor.

E, pela primeira vez desde que Isabela desapareceu, teve medo de que finalmente tivesse encontrado a resposta.

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