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《A Herança Nunca Foi Deles》Parte 9

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A voz de Augusto Montenegro Vasconcelos atravessou o salão da Fazenda Santa Helena.

"Eu sou o avô de vocês!"

Ninguém se mexeu.

Caio perdeu a cor.

Bruno apertou os braços da cadeira como se precisasse deles para continuar sentado.

Helena fechou os olhos.

Ela sabia o que viria.

Os outros, não.

Conselheiros, funcionários antigos, representantes jurídicos e membros da família olhavam para o equipamento de som sem entender exatamente o que estavam ouvindo.

Então surgiu a voz de Caio.

Fria.

Nítida.

"Já é tarde demais, vô."

Um murmúrio percorreu o salão.

Caio se levantou.

"Desliga isso."

Marcelo permaneceu ao lado do aparelho.

A gravação continuou.

Ouviu-se Augusto tentando se afastar.

Depois, o barulho do vento aumentou.

"Eu criei vocês!"

Algumas pessoas levaram a mão à boca.

Antônio abaixou a cabeça.

Mariana não tirava os olhos de Caio.

Então veio outra voz.

Bruno.

"Nós somos seus únicos herdeiros."

Bruno se levantou de uma vez.

"Não!"

Caio olhou para ele.

"Cala a boca."

"Desliga isso!"

Marcelo não se moveu.

Na gravação, os sons ficaram mais violentos.

Respirações ofegantes.

Uma luta.

Augusto pedindo para que parassem.

O vento entrando pela porta aberta.

E então um grito.

Depois, apenas o ruído das hélices.

Uma mulher no fundo do salão começou a chorar.

Bruno colocou as mãos sobre a cabeça.

"Meu Deus..."

Caio avançou.

"Eu mandei desligar!"

Mariana entrou em seu caminho.

"Não toque nele."

"Saia da frente."

"Não."

Caio empurrou uma cadeira e alcançou o equipamento.

Arrancou o cabo.

O som morreu.

O silêncio que ficou foi ainda pior.

Todos olhavam para os irmãos.

Caio respirava com dificuldade.

"Isso é montagem!"

Marcelo cruzou os braços.

"Montagem?"

"Sim!"

"Você reconhece sua voz?"

"Qualquer pessoa consegue falsificar áudio."

Bruno encarou o irmão.

Caio apontou para Marcelo.

"Ele quer tirar nossa herança."

Marcelo respondeu:

"Eu não preciso tirar nada."

"Foi você que fez isso!"

"Caio..."

"Meu avô confiava nesse homem e agora ele está tentando controlar tudo!"

Marcelo permaneceu tranquilo.

"A gravação original está preservada."

Caio riu nervosamente.

"Claro que está."

"E existem cópias."

"Falsas."

"Há perícia disponível."

Caio olhou ao redor.

Precisava recuperar o controle.

"Vocês estão acreditando nisso?"

Ninguém respondeu.

Ele apontou para Antônio.

"Você?"

O velho não desviou os olhos.

Caio virou-se para Mariana.

"Você também?"

Mariana respondeu:

"Estou acreditando no que acabei de ouvir."

"Isso não prova nada."

Helena finalmente falou.

"Prova para mim."

Caio virou-se.

A própria mãe estava de pé.

Os olhos inchados.

"Não começa."

"Eu ouvi sua voz."

"Você não sabe o que aconteceu."

"Então explica."

Caio ficou em silêncio.

Helena avançou um passo.

"Explica para todo mundo por que seu avô estava implorando para vocês pararem."

"Eu não tenho que explicar nada."

"Tem, sim."

"Não aqui."

"Por que não?"

Caio perdeu a paciência.

"Porque isso é uma armadilha!"

Nesse instante, um som atravessou o salão.

"Toc."

Caio parou.

"Toc."

Bruno ergueu lentamente a cabeça.

"Toc."

Era o som de uma bengala contra o piso de madeira.

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Todos olharam para a entrada.

Uma figura apareceu na porta.

Primeiro a bengala.

Depois um sapato.

Um homem entrou lentamente.

Helena levou a mão ao peito.

Embora já tivesse visto o pai vivo, não conseguiu controlar a emoção.

Antônio sorriu pela primeira vez naquele dia.

Bruno parecia incapaz de respirar.

Caio deu um passo para trás.

Augusto Montenegro estava vivo.

O corte na testa ainda era visível.

Caminhava devagar por causa da perna lesionada.

O ombro não estava completamente recuperado.

Mas mantinha a cabeça erguida.

Augusto entrou no salão sem dizer nada.

Cada batida da bengala parecia aumentar o desespero dos netos.

Caio recuou novamente.

"Não..."

Augusto continuou.

Bruno balançava a cabeça.

"Não pode ser."

Augusto parou diante deles.

Olhou primeiro para Bruno.

Depois para Caio.

"O que foi?"

Ninguém respondeu.

Augusto deixou alguns segundos passarem.

"Parece que vocês viram um morto."

Um murmúrio explodiu no salão.

Caio quase tropeçou na cadeira.

"Como?"

Augusto levantou uma sobrancelha.

"Surpreso?"

"Você caiu."

"Eu sei."

"Não tinha como..."

"Sobreviver?"

Caio ficou calado.

Augusto sorriu sem alegria.

"Esse era o plano?"

Bruno começou a chorar.

"Vô..."

Augusto virou-se para ele.

Bruno tentou se aproximar.

"Eu posso explicar."

"Não."

"Por favor."

"Você teve alguns milhares de metros para pensar antes de soltar meu braço."

Bruno parou.

Augusto voltou os olhos para Caio.

"Você parece decepcionado."

Caio tentou se recompor.

"Eu estou em choque."

"Imagino."

"Eu achei que..."

"Que eu estivesse morto."

Caio engoliu em seco.

Augusto completou:

"Você contou com isso."

O rosto de Caio mudou.

"Não foi assim."

Augusto apontou para o aparelho desligado.

"Acabamos de ouvir como foi."

"Você não entende."

"Eu estava lá."

Caio percebeu que todos o observavam.

Então fez a única coisa que sempre fazia quando não havia mais saída.

Procurou alguém para culpar.

Virou-se para Bruno.

"Foi ideia dele."

Bruno ergueu a cabeça.

"O quê?"

Caio apontou.

"Foi Bruno que falou do helicóptero."

Bruno ficou boquiaberto.

"Seu desgraçado."

"Foi você."

"Mentiroso!"

Bruno avançou.

Dois homens do jurídico se colocaram entre eles.

Caio gritou:

"Você queria o dinheiro tanto quanto eu!"

Bruno respondeu:

"Você planejou tudo!"

"Você estava comigo!"

"Porque você disse que não tinha outro jeito!"

Caio riu.

"E isso transforma você em inocente?"

"Foi você que abriu a porta!"

"E você segurou o braço dele!"

Helena começou a chorar.

"Chega!"

Nenhum dos dois ouviu.

Bruno apontou para o irmão.

"Ele já tinha escolhido a rota!"

Caio empalideceu.

"Fecha a boca."

"Ele pesquisou a serra!"

"Bruno!"

"Ele falou que seria difícil encontrar o corpo!"

O salão explodiu em murmúrios.

Caio tentou avançar sobre o irmão.

"Seu idiota!"

Bruno gritou:

"E você ameaçou o Renato!"

Marcelo observava tudo em silêncio.

Augusto também.

Não precisavam pressionar.

A ganância fazia o trabalho sozinha.

Caio agarrou a camisa de Bruno.

"Você também estava naquele helicóptero!"

Bruno o empurrou.

"Mas foi você que deu o primeiro empurrão!"

"Mentira!"

"Eu vi!"

"Você segurou ele!"

"Porque você me obrigou!"

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Augusto bateu a bengala no chão.

"Toc!"

Os dois pararam.

"Acabou."

Sua voz não precisou ser alta.

Caio soltou Bruno.

Augusto olhou para os netos.

"Vocês passaram a vida inteira acreditando que dinheiro comprava silêncio."

Caminhou até Caio.

"Pagaram dívidas."

Depois para Bruno.

"Compraram cumplicidade."

Olhou para Helena.

"Usaram o amor de uma mãe como proteção."

Helena abaixou a cabeça.

Augusto continuou:

"E quando perceberam que eu não continuaria pagando pelos erros de vocês, decidiram que seria mais fácil me enterrar."

Caio respirou fundo.

"Você ia deixar a gente sem nada."

Augusto virou-se.

"É isso que ainda importa para você?"

"Você queria destruir nossa vida."

"Eu queria impedir que destruíssem a vida de centenas de famílias."

"Essa empresa é nossa!"

Augusto ficou em silêncio.

Caio apontou ao redor.

"Foi construída pela nossa família."

Antônio apertou os lábios.

Mariana observou Augusto.

Caio continuou:

"Meu pai morreu. Minha mãe é sua única filha. Nós somos seus únicos netos. Querendo ou não, isso vai chegar até nós."

Augusto encarou Caio por vários segundos.

"Você realmente acredita nisso."

"É a lei."

Marcelo deu um pequeno passo à frente.

Mas Augusto levantou a mão.

Ainda não.

Caio percebeu o gesto.

"Pode trazer quantos advogados quiser."

Augusto respondeu:

"Você continua achando que esta história é sobre meu testamento."

"É sobre o quê, então?"

Augusto caminhou até a mesa.

Sobre ela estava uma pasta grossa.

Antônio se aproximou.

Trazia consigo o envelope que guardara durante anos.

Caio reconheceu imediatamente as palavras escritas na frente.

PROTOCOLO DE SUCESSÃO — PÁGINAS FINAIS.

Seu rosto mudou.

"Você estava com isso."

Antônio colocou o envelope sobre a mesa.

"Estava."

Caio deu um passo.

Augusto colocou a mão sobre o documento.

"Não."

"Eu tenho direito de ver."

"Você teve oportunidades demais."

Caio olhou para Marcelo.

"Esses documentos fazem parte do patrimônio familiar."

Augusto soltou uma pequena risada.

"Patrimônio familiar."

Abriu a pasta.

Fotografias antigas apareceram.

Contratos.

Atas.

Documentos da primeira empresa.

Os mesmos nomes que Caio vira na sala secreta.

Augusto levantou uma fotografia.

Nela, dezenas de trabalhadores estavam diante do primeiro galpão da Montenegro.

"Reconhece alguém?"

Caio não respondeu.

Augusto mostrou a Bruno.

"E você?"

Bruno balançou a cabeça.

Antônio estava naquela fotografia.

Quarenta anos mais jovem.

Augusto colocou a imagem sobre a mesa.

"Vocês queriam herdar um império cuja história nunca se deram ao trabalho de conhecer."

Caio respirou fundo.

"Quanto eu vou receber?"

Helena fechou os olhos.

Até naquele momento.

Depois de tudo.

A pergunta continuava sendo dinheiro.

Augusto olhou para o neto com uma tristeza quase tranquila.

"Vocês ainda não entenderam."

Caio franziu a testa.

Augusto apontou para o Arquivo Montenegro e para o envelope selado.

"Não estão perdendo minha fortuna."

O salão ficou em silêncio.

Augusto colocou a mão sobre as páginas finais do Protocolo de Sucessão.

"Estão descobrindo que ela nunca foi de vocês."

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