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《A Herança Nunca Foi Deles》Parte 8

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Antônio Ribeiro apagou a luz da oficina e apertou o envelope contra o peito.

Do lado de fora, as portas dos carros bateram quase ao mesmo tempo.

Caio Montenegro Ferraz havia chegado à Fazenda Santa Helena.

E não estava sozinho.

Três homens o acompanhavam.

Antônio reconheceu Bruno descendo do segundo carro, mas os outros dois eram desconhecidos.

Caio caminhou pelo pátio como se já fosse proprietário de cada centímetro daquela terra.

"Cadê o Antônio?"

Um funcionário apontou para o galpão.

"Deve estar na oficina."

Caio seguiu naquela direção.

Antônio olhou para o envelope.

Não podia deixá-lo ali.

Abriu o armário novamente, retirou uma velha caixa de ferramentas e colocou os documentos sob uma bandeja cheia de chaves e parafusos.

Segundos depois, a porta foi aberta.

"Antônio."

O velho virou-se.

"Senhor Caio."

Caio entrou.

Seus olhos percorreram o ambiente.

"Está escondendo alguma coisa?"

Antônio não mudou a expressão.

"Ferramenta velha não costuma precisar ser escondida."

Bruno apareceu atrás do irmão.

Caio ignorou a resposta.

"Meu avô vinha muito aqui?"

"Seu avô trabalhou aqui por mais tempo do que o senhor tem de vida."

"Não foi isso que perguntei."

Antônio apoiou as mãos sobre a bancada.

"Então pergunte direito."

Bruno percebeu a irritação do irmão.

Caio deu um passo à frente.

"Quero saber se ele deixou documentos com você."

Antônio permaneceu em silêncio.

"Responda."

"Seu avô me deixou muita coisa."

Caio estreitou os olhos.

"O quê?"

"Respeito."

Bruno desviou o rosto.

Caio soltou uma risada curta.

"Estou falando de papel."

"Então não."

Caio começou a abrir gavetas.

Antônio observou.

"Não tem autorização para mexer aí."

Caio virou-se lentamente.

"Autorização?"

"É."

"Você sabe com quem está falando?"

"Sei."

"Então não parece."

Antônio olhou diretamente para ele.

"Estou falando com o neto do homem que me ensinou que ninguém deve abaixar a cabeça só porque o outro tem sobrenome importante."

O rosto de Caio endureceu.

"Meu sobrenome é Montenegro."

"Eu sei."

"Esta fazenda é da minha família."

Antônio respondeu:

"Esta fazenda tem uma história maior do que sua família."

Caio empurrou uma caixa para o chão.

Ferramentas se espalharam.

Bruno segurou o braço dele.

"Caio, para."

"Solta."

"Não vai encontrar nada quebrando tudo."

Caio afastou o irmão.

Saiu da oficina.

No pátio, vários trabalhadores já observavam.

Homens que estavam ali havia vinte, trinta, quarenta anos.

Alguns conheciam Augusto antes de Caio nascer.

"Quero todo mundo aqui."

Ninguém se mexeu.

Caio levantou a voz.

"Eu disse todo mundo aqui!"

Aos poucos, os funcionários se aproximaram.

Caio olhou para cada rosto.

"Meu avô deixou documentos nesta fazenda."

Silêncio.

"Quem souber onde estão e falar agora não terá problema comigo."

Ninguém respondeu.

Caio sorriu.

"Ótimo."

Caminhou entre eles.

"Quando eu assumir a Montenegro Agro, muita coisa vai mudar."

Antônio saiu da oficina.

Caio continuou:

"Talvez esta fazenda nem exista mais daqui a alguns meses."

Alguns trabalhadores se entreolharam.

"Tem gente interessada nesta terra."

Antônio apertou a mandíbula.

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Caio percebeu.

"E se eu decidir vender, vocês vão embora."

Uma mulher de quase sessenta anos deu um passo à frente.

"Minha família trabalha aqui há três gerações."

Caio olhou para ela.

"Então já ficou tempo demais."

O rosto da mulher se desfez.

Antônio avançou.

"Chega."

Caio virou-se.

"Encontrou sua coragem?"

"Nunca perdi."

"Então me diga onde estão os documentos."

"Não sei."

"Está mentindo."

"Prove."

Caio aproximou-se.

"Você é empregado."

Antônio não recuou.

"Sou."

"Meu avô pagava seu salário."

"Pagava."

"Então sua obrigação era obedecer."

Antônio balançou a cabeça.

"Essa é a diferença entre você e ele."

Caio franziu a testa.

"Augusto nunca confundiu salário com dignidade."

O pátio ficou em silêncio.

Caio apontou para os trabalhadores.

"Quando tudo isso for meu, vou lembrar de cada rosto."

Uma voz feminina surgiu atrás dele.

"Não será."

Todos se viraram.

Mariana Oliveira caminhava em direção ao grupo.

Trazia uma pasta nas mãos.

Dois representantes jurídicos da Montenegro Agro a acompanhavam.

Caio soltou uma risada.

"Você de novo."

Mariana parou diante dele.

"Recebemos informação de que o senhor estava tentando dar ordens nesta propriedade."

"E vim."

"Então vou deixar uma coisa clara."

Ela abriu a pasta.

"Seu afastamento das funções executivas foi ratificado pelo conselho."

Caio ficou sério.

"Não reconheço essa decisão."

"Não precisa reconhecer."

"Esta fazenda pertence aos Montenegro."

"Ela pertence a uma estrutura societária sobre a qual o senhor não tem autoridade."

Caio apontou para o portão.

"Saia."

Mariana não se moveu.

"O senhor não pode me expulsar."

"Eu sou herdeiro."

"Ainda não."

"Meu avô morreu."

Mariana sustentou o olhar.

"Mesmo que isso seja confirmado, o senhor continua sem autoridade até a conclusão do processo sucessório."

Bruno aproximou-se.

"Mariana, não precisamos transformar isso em espetáculo."

Ela olhou para ele.

"Então parem de ameaçar funcionários."

Caio riu.

"Funcionários?"

Virou-se para o grupo.

"É exatamente isso que eles são."

Mariana respondeu:

"Alguns deles têm direitos econômicos vinculados à estrutura histórica do grupo."

Caio ficou imóvel.

Antônio observou atentamente.

Mariana continuou:

"Talvez o senhor devesse ter lido melhor os documentos que encontrou."

Caio empalideceu.

"Que documentos?"

Mariana não respondeu.

Ele percebeu tarde demais.

Tinha acabado de confirmar que entrara na sala.

"Você não sabe de nada."

"Sei que o senhor está procurando alguma coisa."

Caio aproximou-se.

"E você sabe onde está?"

"Mesmo se soubesse, não diria."

Os dois ficaram frente a frente.

Então Bruno segurou o irmão.

"Vamos embora."

Caio resistiu.

"Agora."

Bruno baixou a voz.

"Tem gente filmando."

Caio olhou ao redor.

Um trabalhador segurava o celular discretamente.

Caio apontou para ele.

"Desliga isso."

Mariana entrou no meio.

"Não toque em ninguém."

Caio respirou fundo.

Depois olhou para Antônio.

"Isso não terminou."

Antônio respondeu:

"Para você, talvez esteja só começando."

Caio entrou no carro.

Os veículos desapareceram pela estrada de terra.

Só então Antônio respirou.

Mariana se aproximou.

"Está com o envelope?"

Ele assentiu.

"Está seguro?"

"Por enquanto."

Na casa onde permanecia escondido, Augusto assistiu ao vídeo enviado por Mariana.

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Viu Caio ameaçar os trabalhadores.

Viu a mulher que dizia ter três gerações da família naquela fazenda quase chorar.

Viu o próprio neto falar sobre vender a propriedade.

Augusto desligou a tela.

"Ele vai fazer isso."

Marcelo estava diante dele.

"Fazer o quê?"

"Vender."

Augusto pegou outra pasta enviada pela auditoria.

Havia documentos de uma negociação preliminar com um fundo estrangeiro.

Caio já discutira valores.

Não apenas da Fazenda Santa Helena.

De outras áreas produtivas também.

"Seiscentos e vinte e três."

Marcelo franziu a testa.

"O quê?"

"Funcionários."

Augusto levantou os olhos.

"O plano de reestruturação que Caio apresentou ao fundo prevê cortar seiscentos e vinte e três postos."

Marcelo pegou o documento.

"Ele nem herdou e já planejava demissões."

"Para aumentar o valor da venda."

Augusto se levantou com dificuldade.

"Essas pessoas construíram a Montenegro Agro."

Marcelo observou o velho caminhar.

"Algumas estavam comigo quando eu não tinha dinheiro para pagar a folha."

Augusto apontou para a fotografia de Antônio.

"Quando o banco virou as costas, eles ficaram."

Sua voz ficou mais firme.

"E meus netos chamam essas pessoas de empregados como se fossem descartáveis."

Marcelo fechou a pasta.

"O que pretende fazer?"

Augusto olhou pela janela.

"Chega."

Marcelo entendeu.

"Vai aparecer?"

"Vou."

"Tem certeza?"

"Caio quer minha herança."

Augusto pegou a bengala.

"Então está na hora de ouvir o testamento."

Marcelo começou a organizar tudo naquela mesma tarde.

A mensagem enviada à família era simples.

Haveria uma leitura preliminar das disposições sucessórias na Fazenda Santa Helena.

A presença dos familiares diretos era necessária.

Quando Caio recebeu a mensagem, sorriu pela primeira vez em dias.

"Finalmente."

Bruno não compartilhou o entusiasmo.

"E se tiver alguma surpresa?"

"Ele está morto."

"E os documentos?"

"Marcelo vai ter que mostrar tudo."

Caio ajeitou o paletó.

"Depois disso, ninguém mais vai bloquear nada."

Dois dias depois, os dois chegaram à fazenda vestidos de preto.

Helena já estava no salão principal.

Seu rosto estava abatido.

Caio aproximou-se.

"A senhora sabia dessa leitura?"

"Fui avisada."

"Marcelo falou alguma coisa?"

"Não."

Bruno olhou ao redor.

No centro do salão havia uma enorme fotografia de Augusto.

Flores brancas cercavam a imagem.

Antônio estava ao fundo.

Mariana também.

Vários membros do conselho haviam sido convidados.

Caio olhou para a fotografia.

"Todo esse teatro para abrir um papel."

Helena encarou o filho.

"Tenha respeito."

"Agora a senhora está preocupada com respeito?"

Ela não respondeu.

Marcelo entrou carregando uma pasta.

O salão silenciou.

Caio sentou-se na primeira fileira.

Bruno ao lado.

Helena permaneceu um pouco mais distante.

Marcelo colocou a pasta sobre a mesa.

Caio cruzou as pernas.

"Podemos começar?"

Marcelo olhou para ele.

"Podemos."

"Então leia."

Marcelo não tocou no testamento.

Em vez disso, caminhou até um pequeno equipamento de som.

Caio franziu a testa.

"O que está fazendo?"

Marcelo apertou um botão.

Primeiro veio o barulho ensurdecedor das hélices.

Depois, o vento.

Bruno ficou rígido.

Caio perdeu o sorriso.

E então uma voz conhecida ecoou por todo o salão.

A voz de Augusto.

"Eu sou o avô de vocês!"

Caio ficou completamente pálido.

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