Renato Moreira sentiu as pernas perderem a força.
Do outro lado da rua, os dois homens continuavam parados diante de sua casa.
E no telefone estava a voz de um homem que Renato acreditava ter visto morrer.
"Senhor Augusto?"
"Não olhe para eles."
Renato desviou os olhos imediatamente.
"Como o senhor..."
"Entre no carro."
"Mas minha esposa está lá dentro."
"Não está."
Renato congelou.
"E minha filha?"
"Também não."
"Onde elas estão?"
"Em segurança. Marcelo mandou buscá-las há quarenta minutos."
Renato apertou o telefone.
"Como o senhor sabia?"
Augusto respondeu sem hesitar:
"Porque Caio está ficando desesperado."
Renato entrou novamente no carro e trancou as portas.
Um dos homens junto ao portão percebeu o movimento.
Começou a caminhar em sua direção.
"Senhor Augusto..."
"Ligue o carro."
Renato obedeceu.
"O homem está vindo."
"Saia daí."
Renato arrancou.
O desconhecido ainda tentou se aproximar, mas o carro já atravessava a rua.
Renato olhou pelo retrovisor.
Os dois homens ficaram para trás.
"Para onde eu vou?"
Augusto passou um endereço.
"Não conte a ninguém."
"Por quê?"
"Porque se Caio mandou alguém até sua casa, ele está com medo do que você pode dizer."
Renato ficou em silêncio.
Augusto completou:
"E eu também quero ouvir."
Quase duas horas depois, Renato entrou em uma propriedade discreta nos arredores de São Paulo.
Marcelo o recebeu.
A esposa de Renato estava na sala.
A filha de dezesseis anos correu para abraçá-lo.
Renato apertou as duas contra o peito.
"Vocês estão bem?"
A esposa chorava.
"Dois homens ficaram rondando a casa durante a tarde."
Renato fechou os olhos.
"Desculpa."
"Por quê?"
Ele não respondeu.
Então ouviu o som de uma bengala.
Virou-se.
Augusto apareceu no corredor.
Renato ficou completamente imóvel.
Mesmo sabendo pelo telefone que ele sobrevivera, vê-lo era diferente.
Havia hematomas no rosto.
O ombro ainda estava protegido.
Caminhava com dificuldade.
Mas estava vivo.
Renato levou a mão à boca.
"Meu Deus."
Augusto parou diante dele.
"Você me viu cair."
Renato abaixou a cabeça.
"Senhor Augusto..."
"Olhe para mim."
Renato obedeceu.
"Você viu?"
Os olhos do piloto se encheram de lágrimas.
"Vi."
Marcelo fechou a porta.
Augusto não demonstrou surpresa.
"Quanto?"
"Tudo."
O silêncio tomou conta da sala.
Renato respirou fundo.
"Eu vi pelo espelho."
Sua voz tremia.
"Quando Caio abriu a porta, achei que fosse uma discussão. Depois vi Bruno segurando seu braço."
Augusto permaneceu imóvel.
"Continue."
"Eu deveria ter feito alguma coisa."
"Continue."
"Ouvi o senhor mandar fecharem a porta. Ouvi quando disse que tinha criado os dois."
Renato passou as mãos pelo rosto.
"E vi quando soltaram sua mão."
A esposa de Renato começou a chorar.
Augusto perguntou:
"Por que você mentiu?"
Renato olhou para a filha.
Foi o suficiente.
Augusto entendeu.
"Caio ameaçou sua família."
Renato assentiu.
"Quando pousamos, ele mandou Bruno sair primeiro."
Sua voz ficou mais baixa.
"Depois sentou ao meu lado."
Renato lembrava de cada palavra.
Caio estava estranhamente calmo.
"Ele perguntou onde minha filha estudava."
Augusto apertou a bengala.
Renato continuou:
"Falou o nome da escola. O horário em que ela saía. Depois perguntou se minha esposa ainda trabalhava na clínica."
A menina começou a chorar.
Renato segurou a mão dela.
"Ele sabia tudo."
Augusto sentiu a raiva subir.
"Depois ele disse que eu tinha duas opções."
"Quais?"
"Dizer que houve turbulência e que eu estava olhando os instrumentos..."
Renato respirou fundo.
"Ou deixar minha família sofrer as consequências de uma história que não era problema meu."
Marcelo perguntou:
"Você consegue repetir isso formalmente?"
Renato olhou para ele.
"Consigo."
"Perante a polícia?"
Renato hesitou.
Olhou novamente para Augusto.
"Se minha família estiver protegida."
"Estará."
Augusto estendeu a mão.
Renato apertou.
"Então eu conto tudo."
Na manhã seguinte, Marcelo organizou as provas sobre a mesa.
A gravação feita por Augusto.
Os dados de voo.
A rota registrada.
Os horários.
A abertura irregular da porta.
E agora o testemunho de Renato.
Marcelo olhou para Augusto.
"Chega."
Augusto permaneceu calado.
"Temos gravação, testemunha e registros técnicos."
"Eu sei."
"Então vamos à polícia."
"Ainda não."
Marcelo levantou-se irritado.
"Até quando você pretende esperar?"
"Até entender o tamanho disso."
"Eles tentaram matar você. Que tamanho maior existe?"
Augusto puxou outra pasta.
"Este."
Marcelo abriu.
E imediatamente ficou sério.
Mariana havia enviado o material naquela madrugada.
A auditoria extraordinária da Montenegro Agro encontrara irregularidades que iam muito além do esperado.
Marcelo leu a primeira página.
"Venda de máquinas agrícolas."
"Continue."
"Havia equipamentos desaparecendo das fazendas há quase dois anos."
"E quem autorizava?"
Marcelo virou a folha.
"Bruno."
Augusto assentiu.
O esquema era simples.
Máquinas usadas eram registradas como danificadas ou obsoletas.
Depois desapareciam.
Empresas intermediárias revendiam os equipamentos.
Parte do dinheiro voltava para contas ligadas a Bruno.
Marcelo passou para outro documento.
Seu rosto mudou novamente.
"Isso aqui é do Caio."
Augusto ficou sério.
Caio havia usado participações e direitos futuros vinculados ao patrimônio familiar como garantia informal para conseguir dinheiro.
Não podia legalmente comprometer os ativos principais da Montenegro Agro.
Então prometia aos credores aquilo que esperava receber depois da morte do avô.
"Ele estava apostando com a minha morte."
Marcelo levantou os olhos.
"Literalmente."
Augusto respirou fundo.
"Quanto?"
"Os documentos que Mariana encontrou indicam pelo menos onze milhões."
Augusto fechou os olhos.
"Helena falou em quatro."
"Provavelmente ela não sabia de tudo."
"Ou não quis saber."
Marcelo colocou as folhas sobre a mesa.
"Agora entende por que não podemos esperar?"
Augusto caminhou até a janela.
"Não tentaram me matar apenas porque perderiam uma herança."
Marcelo permaneceu em silêncio.
"Eles precisavam que eu morresse."
Se Augusto continuasse vivo, as auditorias avançariam.
Bruno seria descoberto.
Caio teria credores cobrando milhões que ele não possuía.
Os dois perderiam cargos, dinheiro e acesso ao sobrenome que usavam como garantia.
A queda do helicóptero não era apenas ganância.
Era desespero.
Na mansão do Jardim Europa, Helena também começava a descobrir isso.
Durante anos, ela pagara contas dos filhos sem perguntar demais.
Cobria cheques.
Quitava cartões.
Inventava desculpas para Augusto.
Chamava tudo de fase.
Agora, pela primeira vez, começou a abrir os olhos.
Encontrou uma cobrança escondida no quarto de Caio.
Depois outra.
Havia ameaças.
Valores.
Prazos.
Na mesa de Bruno, encontrou uma notificação da auditoria.
Helena sentou-se na cama.
As mãos começaram a tremer.
"Meu Deus..."
Ela passou anos acreditando que protegia os filhos.
Mas talvez estivesse apenas permitindo que eles afundassem cada vez mais.
Naquela noite, Caio entrou na mansão.
Helena o esperava na sala.
As luzes estavam apagadas, exceto por um abajur.
"Precisamos conversar."
Caio continuou andando.
"Estou cansado."
"Eu sei das dívidas."
Ele parou.
"Que dívidas?"
"Não faça isso comigo."
Caio virou-se lentamente.
Helena segurava alguns papéis.
"Onze milhões?"
O rosto dele mudou.
"Mexeu nas minhas coisas?"
"Onze milhões, Caio?"
"Isso não é problema seu."
"Eu sou sua mãe!"
"Exatamente. Então deveria estar do meu lado."
Helena levantou-se.
"E o Bruno?"
"O que tem?"
"Ele estava vendendo máquinas da empresa?"
Caio não respondeu.
"Vocês estão roubando a Montenegro Agro?"
"Não sabe do que está falando."
Helena se aproximou.
"Eu passei anos defendendo vocês para seu avô."
"Eu sei."
"Eu menti por vocês."
"Eu sei."
"Eu contei sobre o testamento porque achei que vocês fossem conversar com ele."
Caio desviou os olhos.
Helena começou a chorar.
"Olhe para mim."
Ele não olhou.
"Caio."
Silêncio.
Helena sentiu o coração acelerar.
Havia uma pergunta que evitava desde a ligação do pai.
Uma pergunta que não queria fazer.
Porque temia a resposta.
Mas precisava ouvir da boca do próprio filho.
"Você empurrou seu avô?"
Caio ficou imóvel.
Helena esperou.
"Responda."
Nada.
"Você empurrou seu avô daquele helicóptero?"
Caio respirou fundo.
"Mãe..."
"Sim ou não?"
"Não é tão simples."
Helena recuou.
Aquela resposta já era uma confissão.
"Meu Deus."
"Ele ia acabar com tudo."
"Ele era seu avô!"
"E daí?"
Helena ficou sem ar.
Caio continuou:
"Ele ia tirar nossos cargos, bloquear nosso dinheiro, destruir nosso futuro."
"Porque vocês estavam roubando!"
"Era dinheiro da família!"
"Não era seu!"
Caio perdeu o controle.
"A senhora queria que a gente perdesse tudo?"
Helena ficou olhando para ele.
Era seu filho.
O menino que tinha medo de trovão.
O adolescente que corria para abraçá-la quando voltava da escola.
O jovem cuja mão ela segurara no enterro do pai.
Mas ela já não reconhecia o homem diante dela.
"Eu queria que vocês fossem pessoas decentes."
Caio riu amargamente.
"Decência não paga dívida."
Helena balançou a cabeça.
"Você matou seu próprio avô por dinheiro."
Caio se aproximou.
"Ele está morto."
Helena sentiu o sangue gelar.
Por um segundo, teve medo de que Caio percebesse alguma coisa em seu rosto.
Ele continuou olhando para ela.
Então fez uma pergunta.
Calma.
Fria.
Quase casual.
"Se o vovô estivesse vivo… a senhora escolheria ele ou a gente?"
Helena ficou pálida.
Porque, naquele instante, percebeu que Caio não estava apenas fazendo uma pergunta.
Ele estava testando a própria mãe.