Caio releu a frase três vezes.
"Se vocês estão lendo isto, é porque eu finalmente descobri quem vocês são."
A folha tremia levemente entre seus dedos.
Bruno observava o irmão sem coragem de falar.
Até aquele momento, os dois acreditavam que Augusto apenas desconfiava das dívidas, dos desvios e das mentiras.
Agora, Caio já não tinha tanta certeza.
"Ele preparou isso."
Bruno engoliu em seco.
"Preparou para quem?"
"Para nós."
"Como ele poderia saber que entraríamos aqui?"
Caio amassou a folha.
"Porque sabia que, quando morresse, viríamos procurar os documentos."
Bruno olhou para a porta aberta.
"E se não for só isso?"
Caio virou-se.
"O que você quer dizer?"
"E se ele tiver preparado outras coisas?"
Caio não respondeu.
Na manhã seguinte, descobriu a resposta.
Às oito e quinze, seu celular começou a tocar.
Era o diretor jurídico da Montenegro Agro.
"Caio, precisamos conversar."
"Fala."
"Houve uma reunião extraordinária do conselho."
Caio se levantou da cama.
"Sem mim?"
"Sim."
"Quem autorizou?"
"O protocolo de contingência."
Caio apertou o telefone.
"E o que decidiram?"
O homem hesitou.
"Seu cargo executivo está temporariamente suspenso."
Caio ficou imóvel.
"O quê?"
"A partir de hoje, o senhor não pode representar a Montenegro Agro em contratos, negociações ou operações financeiras."
"Você está brincando comigo?"
"Não."
"Meu avô morreu!"
"Legalmente, ele continua desaparecido."
"Eu sou o herdeiro!"
"A sucessão ainda não foi aberta."
Caio desligou na cara dele.
Cinco minutos depois, Bruno apareceu no corredor.
"Meu cartão foi bloqueado."
Caio continuou andando.
"Não é só seu cartão."
"Tem mais?"
"As contas das empresas que estavam sob nossa gestão foram congeladas."
Bruno empalideceu.
"Todas?"
"As principais."
"E a fazenda?"
Caio pegou as chaves do carro.
"Vamos descobrir."
Pouco depois das nove, recebeu outra ligação.
Dessa vez era o corretor que intermediava discretamente o interesse de um fundo de investimentos pela Fazenda Santa Helena.
"Caio, a reunião de amanhã foi cancelada."
"Por quê?"
"Recebemos uma notificação jurídica."
"De quem?"
"Da Montenegro Participações."
Caio apertou o volante.
"O que diz?"
"Que nenhuma propriedade rural estratégica pode ser colocada à venda durante o período de contingência."
"Eu vou resolver."
"Tem mais uma coisa."
"O quê?"
"Seu nome não aparece mais entre os representantes autorizados."
Caio desligou.
Bruno estava no banco do passageiro.
"Caio..."
"Não começa."
"Isso está acontecendo rápido demais."
"Eu sei."
"Rápido demais para ter sido improvisado."
Caio olhou para o irmão.
Bruno continuou:
"O vô deixou tudo preparado."
Caio acelerou.
A sede da Montenegro Agro ocupava vários andares de um edifício moderno na região da Faria Lima.
Caio entrou no saguão sem cumprimentar ninguém.
Bruno tentou acompanhá-lo.
Na catraca, o cartão de Caio foi recusado.
Ele tentou novamente.
Luz vermelha.
"Libera."
O segurança hesitou.
"Senhor Caio..."
"Libera essa catraca."
"Recebemos orientação para..."
Caio empurrou a barreira e entrou.
Vários funcionários olharam.
Ele foi direto para o elevador.
Quando as portas se abriram no andar executivo, Mariana Oliveira já o esperava.
Aos trinta e oito anos, Mariana era diretora financeira do grupo e uma das poucas executivas que Augusto havia promovido pessoalmente.
Caio nunca gostara dela.
Mariana começara na Montenegro Agro como analista e chegara à diretoria sem sobrenome importante, sem padrinhos e sem pertencer à família.
Para Augusto, isso era mérito.
Para Caio, era insolência.
"Desbloqueie minhas contas."
Mariana permaneceu calma.
"Bom dia, Caio."
"Você ouviu o que eu disse."
"Ouvi."
"Então faça."
"Não posso."
Caio aproximou-se.
"Você trabalha para a minha família."
"Eu trabalho para a Montenegro Agro."
"É a mesma coisa."
"Não é."
Bruno olhou para Mariana.
"Quem mandou bloquear tudo?"
"Foi ativado o protocolo de proteção patrimonial."
Caio perdeu a paciência.
"Eu quero um nome!"
Mariana sustentou seu olhar.
"O senhor Augusto deixou ordens."
Caio congelou.
Por um instante, a frase pareceu absurda.
"Quando?"
"Antes de morrer."
Bruno desviou os olhos.
Caio ficou em silêncio.
Aquela palavra o incomodou.
Antes.
Antes do helicóptero.
Antes da queda.
Antes de eles comemorarem.
Augusto havia preparado o tabuleiro antes que os dois percebessem que estavam jogando.
"Que ordens?"
Mariana abriu uma pasta.
"Suspensão temporária de procurações extraordinárias."
Virou a página.
"Bloqueio de alienação das propriedades estratégicas."
Outra.
"Revisão de contratos assinados por familiares nos últimos vinte e quatro meses."
Caio perdeu a cor.
Mariana continuou:
"Auditoria sobre venda de maquinário."
Bruno ficou rígido.
"E suspensão do uso de aeronaves corporativas por beneficiários não autorizados."
Caio soltou uma risada nervosa.
"Então agora não posso nem usar o avião?"
"Não."
"Nem o helicóptero?"
"Não."
"Quem controla isso?"
"O conselho."
"Quem controla o conselho?"
Mariana fechou a pasta.
"Nesse momento, ninguém da família Montenegro."
Caio bateu a mão sobre a mesa.
"Meu avô morreu! Eu sou o herdeiro!"
Algumas pessoas do corredor pararam.
Mariana nem piscou.
"Seu avô desapareceu. E, enquanto a sucessão não for definida, o senhor não herdou nada."
Caio aproximou o rosto.
"Tenha cuidado com a forma como fala comigo."
Mariana respondeu:
"É exatamente isso que estou fazendo."
Bruno segurou o irmão.
"Vamos."
Caio soltou o braço.
Antes de sair, apontou para Mariana.
"Quando tudo isso for meu, você será a primeira pessoa a sair deste prédio."
Mariana permaneceu em silêncio.
Caio foi embora.
Só quando as portas do elevador se fecharam ela voltou ao próprio escritório.
Trancou a porta.
Pegou um segundo celular.
Digitou uma mensagem curta.
"Ele reagiu exatamente como o senhor imaginou."
A quilômetros dali, Augusto leu.
Estava em uma casa discreta nos arredores de São Paulo, cedida por um antigo amigo de Marcelo.
Um médico de confiança acompanhava sua recuperação.
A perna melhorava.
O ombro ainda doía.
Mas a mente estava completamente desperta.
Augusto respondeu:
"Continue."
Mariana escreveu:
"Ele perguntou quem controla o conselho."
Augusto sorriu sem alegria.
"Ótimo."
Marcelo entrou na sala.
"Você está gostando disso?"
Augusto colocou o celular sobre a mesa.
"Não."
"Parece."
"Eu preferia estar errado."
Marcelo sentou-se.
Augusto olhou pela janela.
"Cada ordem que entra em vigor oferece a eles uma escolha."
"Qual?"
"Parar."
Marcelo ficou em silêncio.
Augusto continuou:
"Se Caio e Bruno recuarem, entregarem o que desviaram e admitirem o que fizeram, talvez ainda reste alguma coisa para salvar."
"E você acredita que farão isso?"
Augusto demorou a responder.
"Bruno talvez."
"E Caio?"
Augusto não respondeu.
Naquela noite, Bruno entrou no quarto do irmão na mansão.
Caio estava diante do computador.
Havia planilhas abertas.
Números.
Dívidas.
Prazos.
"Eu quero sair."
Caio nem virou.
"Sair de onde?"
"Disso."
"Disso o quê?"
"De tudo."
Caio finalmente olhou.
Bruno fechou a porta.
"Vamos parar."
"Você enlouqueceu?"
"Não temos acesso às contas. Não podemos vender a fazenda. A empresa está investigando as máquinas."
"E?"
"E o vô deixou aquela mensagem."
Caio riu.
"Ele está morto."
"Eu sei."
"Então para de ter medo de papel."
Bruno se aproximou.
"Eu não estou com medo do papel. Estou com medo do que ele deixou preparado."
Caio bateu o notebook.
"Você participou."
Bruno ficou quieto.
"Não venha fingir que é inocente agora."
"Eu sei o que fiz."
"Então aguenta."
"Eu não consigo dormir."
"Problema seu."
"Eu escuto a voz dele."
Caio ficou irritado.
"Chega."
"Quando fecho os olhos, eu vejo ele caindo."
"Chega!"
Bruno recuou.
Caio respirou fundo.
Seu celular vibrou.
Ele olhou.
A mensagem tinha apenas uma frase.
"Seu prazo termina sexta-feira."
Caio apagou imediatamente.
Bruno percebeu.
"Quem era?"
"Ninguém."
"Era sobre a dívida?"
Caio levantou-se.
"Vai dormir."
"Quanto você deve de verdade?"
"Eu disse para sair."
"Quatro milhões?"
Caio não respondeu.
"Cinco?"
Silêncio.
"Dez?"
Caio olhou para ele.
Bruno entendeu.
"Meu Deus."
"Não interessa."
"Para quem você deve?"
"Eu resolvo."
"Como?"
Caio se aproximou.
"Com a herança."
"Que herança?"
A pergunta feriu mais do que Bruno imaginava.
"Não conseguimos tocar em nada."
Caio segurou o irmão pela camisa.
"Eu vou conseguir."
"Como?"
"Do jeito que for necessário."
Bruno afastou sua mão.
"Eu não vou fazer mais nada."
Caio ficou olhando enquanto o irmão saía.
Depois voltou ao celular.
Abriu uma conversa antiga.
Renato Moreira.
O piloto do helicóptero.
Renato tinha permanecido na cabine durante toda a viagem.
Dissera que estava concentrado nos instrumentos.
Dissera que não vira o momento exato da queda.
Mas Caio sabia que isso era mentira.
Havia um espelho pequeno no painel.
Renato podia ter visto.
Talvez tivesse ouvido.
E, se a polícia começasse a investigar seriamente, um homem assustado podia mudar de versão.
Caio fez uma ligação.
"Preciso que resolvam uma coisa."
A voz do outro lado perguntou:
"Que tipo de coisa?"
"Tem um homem que pode começar a falar demais."
"Nome?"
"Renato Moreira."
"O piloto?"
"Sim."
"O que você quer?"
Caio olhou para a mensagem sobre sua dívida.
Seu prazo estava acabando.
"Quero que ele entenda que ficar calado é a única opção."
Naquela mesma noite, Renato estacionou diante de casa, em São José dos Campos.
Desligou o motor.
Ficou alguns segundos dentro do carro.
Desde o acidente, quase não dormia.
Toda vez que fechava os olhos, lembrava do grito de Augusto desaparecendo pela lateral do helicóptero.
Renato pegou a mochila.
Quando abriu a porta do carro, percebeu dois homens diante do portão de sua casa.
Nenhum deles era conhecido.
Um estava encostado no muro.
O outro olhava diretamente para ele.
Renato parou.
Seu celular tocou.
Número desconhecido.
Ele hesitou.
Atendeu.
"Alô?"
Durante dois segundos, ouviu apenas respiração.
Então uma voz conhecida falou:
"Renato… se eu fosse você, não entraria em casa."
O piloto perdeu a cor.
Reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
"Senhor Augusto?"