Augusto Montenegro Vasconcelos passou quase uma hora olhando para o nome da filha na tela do celular.
Helena Montenegro Ferraz.
Sua única filha.
A menina que ele carregara nos braços pelos corredores da antiga fazenda em Ribeirão Preto. A mulher que ele protegera depois de um casamento fracassado e ajudara a criar Caio e Bruno praticamente como filhos.
Agora, pela primeira vez, Augusto tinha medo de ouvir a voz dela.
Marcelo permaneceu perto da janela.
"Você não precisa ligar agora."
Augusto ergueu os olhos.
"Preciso."
"Talvez seja melhor esperar."
"Eu já esperei demais para descobrir quem são as pessoas da minha própria família."
Augusto apertou o botão.
O telefone chamou.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, Helena atendeu.
"Alô?"
Augusto não respondeu imediatamente.
"Alô? Quem está falando?"
Ele respirou fundo.
"Helena."
Do outro lado, silêncio.
Depois, um pequeno som escapou da garganta dela.
"Pai?"
Augusto fechou os olhos.
Helena começou a chorar.
"Meu Deus… pai? O senhor está vivo?"
A voz dela tremia tanto que algumas palavras quase desapareceram.
"Pai, pelo amor de Deus, fala comigo! Onde o senhor está?"
Augusto permaneceu frio.
"Foi você?"
Helena parou de chorar por um instante.
"O quê?"
"Não me faça repetir."
"Pai, eu não estou entendendo."
"Caio e Bruno sabiam que eu tinha alterado o testamento."
Silêncio.
Augusto sentiu a resposta antes mesmo de ouvi-la.
"Foi você?"
Helena respirou com dificuldade.
"Pai..."
"Responda."
"Eu posso explicar."
Augusto abaixou a cabeça.
Era tudo que precisava ouvir.
"Então foi você."
"Não foi assim!"
"Como foi, Helena?"
Ela voltou a chorar.
"Eu ouvi sem querer."
Augusto apertou o telefone.
"Ouviu o quê?"
"Sua conversa com o Marcelo."
Helena contou que, três dias antes da viagem, havia ido ao escritório entregar documentos referentes a uma propriedade da família.
Quando chegou, a porta da sala de reuniões estava entreaberta.
Ela ouviu o próprio nome.
Depois ouviu Caio.
Bruno.
E a palavra herança.
"Eu não fiquei espionando."
"Mas ficou tempo suficiente."
"Pai..."
"Você ouviu que eu ia reduzir a parte deles?"
Helena demorou a responder.
"Sim."
"E contou."
"Eu estava desesperada."
Augusto levantou os olhos.
"Desesperada com o quê?"
Helena respirou fundo.
"Caio estava com problemas."
"Que problemas?"
"Dinheiro."
Augusto riu sem qualquer humor.
"Quanto?"
"Eu não sabia exatamente."
"Quanto, Helena?"
"Mais de quatro milhões."
Augusto ficou em silêncio.
Nem Marcelo conhecia aquele número.
"Quatro milhões de reais?"
"Talvez mais."
"E você sabia disso?"
"Descobri recentemente."
"De onde veio essa dívida?"
Helena não respondeu.
Augusto insistiu:
"De onde?"
"Apostas."
A palavra atingiu Augusto com força.
Helena continuou:
"Ele começou com apostas esportivas. Depois vieram jogos privados, empréstimos, gente cobrando juros. Quando percebi, ele já estava escondendo tudo."
Augusto passou a mão pelo rosto.
"E Bruno?"
A voz de Helena ficou ainda mais baixa.
"Também estava com problemas."
"Quais?"
"Uma auditoria interna."
Augusto se endireitou.
"Por quê?"
"Algumas transferências não batiam."
"Você está dizendo que seu filho desviou dinheiro da Montenegro Agro?"
"Eu não sei se foi exatamente isso."
"Não minta para mim."
"Eu não estou mentindo!"
"Então diga a verdade."
Helena começou a soluçar.
"Bruno usou empresas de terceiros para vender máquinas. Eu descobri porque um contador me procurou."
Augusto fechou os olhos.
Tudo era pior do que imaginara.
"Por que você não me contou?"
"Porque eu sabia o que o senhor faria."
"E o que eu faria?"
"Expulsaria os dois da empresa."
"Se estavam roubando, sim."
"E depois?"
Augusto franziu a testa.
"Depois o quê?"
"O que aconteceria com eles?"
Augusto não acreditou no que estava ouvindo.
"Eles têm quase trinta anos, Helena."
"São meus filhos!"
"E por isso podem roubar?"
"Eu não disse isso."
"Podem apostar milhões?"
"Não."
"Podem usar o nome Montenegro como garantia para dívidas que eu nem conheço?"
"Não!"
"Então por que você os protegeu?"
Helena perdeu o controle.
"Porque sou mãe!"
O silêncio que veio depois foi doloroso.
Augusto respirou fundo.
Quando voltou a falar, sua voz estava baixa.
"E eu sou pai."
Helena começou a chorar novamente.
"Eu sei."
"Não. Você esqueceu."
Augusto olhou para a própria perna imobilizada.
"Você protegeu seus filhos e esqueceu que o homem que eles decidiram eliminar também era seu pai."
"Eu nunca imaginei que eles fossem tentar matar o próprio avô!"
A frase explodiu pelo telefone.
Augusto ficou imóvel.
Helena soluçava.
"Eu juro por tudo que tenho. Eu pensei que eles fossem conversar com o senhor. Pedir outra chance. Convencer o senhor a não mudar o testamento."
"Eles me levaram para um helicóptero."
"Eu não sabia!"
"E abriram a porta."
"Pare..."
"E seguraram meus braços."
"Pai, por favor..."
"E me jogaram."
Helena soltou um grito abafado.
"Chega!"
Augusto ficou em silêncio.
Helena chorava do outro lado.
"Eu não sabia."
Dessa vez, Augusto acreditou nela.
Conhecia a filha.
Helena era fraca quando se tratava dos filhos.
Era capaz de mentir.
Esconder.
Pagar dívidas.
Proteger erros.
Mas Augusto não acreditava que ela soubesse antecipadamente de um assassinato.
Isso, porém, não apagava o que havia feito.
"Você contou uma informação que não era sua."
"Eu sei."
"E essa informação quase me matou."
"Me perdoa."
Augusto demorou.
"Hoje eu não consigo."
Helena ficou em silêncio.
"Pai..."
"Ninguém pode saber que estou vivo."
"Mas..."
"Ninguém."
"E Caio? Bruno?"
"Principalmente eles."
"Por quê?"
Augusto olhou para Marcelo.
"Porque eu quero saber até onde eles vão."
Helena respirou fundo.
"Eu estou com medo."
"Agora você deveria estar."
Augusto desligou.
Naquela mesma tarde, Caio entrou na sede da Montenegro Agro, na Avenida Faria Lima, com a confiança de quem já se considerava dono do prédio.
Foi direto ao setor financeiro.
Bruno vinha atrás.
"Quero os extratos das contas principais."
A funcionária hesitou.
"Senhor Caio, eu não posso fornecer."
"Como assim?"
"As contas estão sob restrição temporária."
Caio ficou imóvel.
"Restrição de quem?"
"Do protocolo de proteção patrimonial."
"Que protocolo?"
A mulher olhou para o monitor.
"Foi ativado automaticamente após a comunicação do desaparecimento do senhor Augusto."
Bruno se aproximou.
"Automaticamente?"
"Sim."
Caio bateu a mão no balcão.
"Libera."
"Eu não tenho autorização."
"Eu sou da família Montenegro."
"Eu sei."
"Então libera."
"Não posso."
Caio sentiu vários funcionários observando.
Seu rosto ficou vermelho.
"Quem pode?"
"O conselho extraordinário."
"E quando ele se reúne?"
"Amanhã."
Caio puxou o celular.
Tentou acessar uma conta vinculada a uma das holdings.
Bloqueada.
Tentou outra.
Bloqueada.
Bruno fez o mesmo.
"Caio."
"O quê?"
"Meu cartão corporativo não está passando."
Caio olhou para ele.
"Nem o meu."
Pela primeira vez, os dois sentiram algo diferente de ansiedade.
Medo.
Caio saiu do prédio e entrou no carro.
Bruno bateu a porta.
"O velho preparou isso."
"Claro que preparou."
"Antes da viagem?"
Caio não respondeu.
Bruno ficou inquieto.
"E se tiver mais coisas?"
Caio virou lentamente o rosto.
A pergunta permaneceu entre eles.
Mais coisas.
Augusto Montenegro nunca fazia apenas um movimento.
Quando tomava uma decisão empresarial, costumava preparar três saídas antes que os outros percebessem a primeira.
Caio conhecia o avô.
E de repente uma lembrança muito antiga voltou.
A mansão no Jardim Europa.
O segundo andar.
O fim do corredor.
Uma porta escura que permanecia sempre trancada.
Desde criança, Caio tinha curiosidade sobre aquele lugar.
Ninguém entrava.
Nem funcionários.
Nem visitantes.
Nem Helena.
Somente Augusto.
Uma vez, quando Caio tinha dez anos, encontrou o avô saindo de lá.
"O que tem aí dentro?"
Augusto fechou a porta.
"Memórias."
"Que memórias?"
"Minhas."
"Tem dinheiro?"
Augusto riu.
"Existem coisas mais importantes do que dinheiro."
Naquela época, Caio não entendeu.
Agora entendia de outra forma.
Documentos.
Contratos.
Ações.
Contas.
Talvez o verdadeiro testamento.
Talvez Augusto tivesse guardado ali tudo aquilo que não confiava a bancos ou escritórios.
Caio ligou o carro.
Bruno percebeu sua expressão.
"O que foi?"
"Eu sei onde procurar."
"Procurar o quê?"
"Tudo que o velho estava escondendo."
Anoiteceu sobre São Paulo.
Pouco depois da meia-noite, a mansão Montenegro estava quase completamente silenciosa.
Helena havia tomado um calmante e se trancado no quarto.
Dona Célia, a governanta que trabalhava para a família havia décadas, dormia na ala dos funcionários.
Caio atravessou o corredor com uma lanterna.
Bruno vinha atrás.
"Isso é uma péssima ideia."
"Então volte."
"E se tiver alarme?"
"Eu desliguei."
"Como?"
"Eu conheço esta casa."
Caio entrou no escritório de Augusto.
Abriu gavetas.
Revistou armários.
Retirou livros.
Nada.
Bruno olhou para o relógio.
"Vamos embora."
"Não."
"Caio, a chave pode nem existir mais."
"Existe."
"Como você sabe?"
"Porque eu vi o vô guardando quando era criança."
Caio se ajoelhou diante da antiga escrivaninha de madeira.
Passou os dedos por baixo da gaveta central.
Nada.
Depois pela lateral.
Sentiu uma pequena saliência.
Pressionou.
Um compartimento estreito se abriu.
Bruno arregalou os olhos.
Dentro havia uma única chave antiga.
Caio sorriu.
"Eu sabia."
Os dois subiram.
Cada passo parecia mais alto no silêncio da mansão.
Chegaram ao fim do corredor.
A porta estava diante deles.
Quarenta anos fechada para todos.
Bruno tocou no braço do irmão.
"Caio."
"O quê?"
"Talvez a gente não devesse abrir."
Caio encaixou a chave.
"Nosso avô passou a vida escondendo coisas."
Girou lentamente.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então veio um som seco.
"Clac."
A fechadura cedeu.
Caio colocou a mão na maçaneta.
Empurrou.
E, depois de quarenta anos, a porta finalmente se abriu.