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《A Herança Nunca Foi Deles》Parte 1

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O vento cortava o rosto de Augusto Montenegro Vasconcelos como uma lâmina.

A milhares de metros de altura, sobre a Serra da Mantiqueira, a porta lateral do helicóptero estava completamente aberta.

Augusto, aos setenta e três anos, tentava manter os pés firmes enquanto o aparelho atravessava uma corrente de ar.

Mas não era a turbulência que o assustava.

Eram os dois homens diante dele.

Caio Montenegro Ferraz, seu neto mais velho, segurava seu braço com força. Bruno, o mais novo, permanecia atrás dele, bloqueando qualquer tentativa de voltar para o interior da aeronave.

Augusto olhou de um para o outro.

"Que loucura é essa? Fechem essa porta!"

Caio não se mexeu.

Pelo contrário.

Aproximou-se ainda mais do avô e falou com uma tranquilidade que fez Augusto sentir um frio percorrer a espinha.

"O senhor cometeu um erro, vô. Tentou tirar nossa herança."

Augusto ficou imóvel.

Por alguns segundos, até o barulho ensurdecedor das hélices pareceu desaparecer.

Três dias antes, em São Paulo, ele havia passado quase quatro horas no escritório de seu advogado, Dr. Marcelo Almeida Siqueira.

Aquela reunião deveria ser confidencial.

Augusto havia decidido alterar o testamento.

Caio perderia quase tudo.

Bruno também.

Não porque Augusto tivesse deixado de amar os netos, mas porque finalmente havia descoberto o que eles estavam fazendo com o império que levara mais de quarenta anos para construir.

Caio acumulava dívidas milionárias.

Bruno vendia máquinas da Montenegro Agro sem autorização.

Dinheiro desaparecia das contas.

Contratos suspeitos surgiam em empresas ligadas aos dois.

Augusto tentou conversar.

Tentou aconselhar.

Tentou acreditar que ainda poderia salvá-los.

Até perceber que cada nova chance servia apenas para financiar o próximo erro.

Mas somente três pessoas deveriam saber que o testamento havia sido alterado.

Augusto encarou Caio.

"Como você sabe disso?"

Caio sorriu.

Não respondeu.

Augusto então olhou para Bruno.

"Quem contou para vocês?"

Bruno desviou os olhos.

Foi naquele instante que Augusto compreendeu que aquela viagem nunca fora uma simples visita às propriedades da família.

Eles haviam planejado tudo.

O helicóptero.

A rota sobre a serra.

A porta aberta.

O lugar praticamente inacessível.

Augusto recuou instintivamente.

Caio avançou.

"Não complique as coisas."

Augusto olhou para o vazio atrás de si.

Montanhas cobertas por mata se estendiam lá embaixo.

Seu coração começou a bater violentamente.

"Vocês enlouqueceram."

Bruno respirava rápido.

"Caio..."

"Fica quieto."

"Isso foi longe demais."

Caio virou-se para o irmão.

"Agora você ficou com medo?"

Augusto aproveitou aquele segundo para tentar voltar para dentro.

Caio o segurou.

Augusto reagiu.

"Me solte!"

Bruno agarrou o outro braço.

Augusto olhou para os dois homens que havia ajudado a criar.

Lembrou-se de Caio ainda menino correndo pelos corredores da mansão no Jardim Europa.

Lembrou-se de Bruno dormindo em seus braços depois da morte do pai.

Lembrou-se das escolas.

Das viagens.

Dos aniversários.

Das vezes em que Helena, sua única filha, telefonava chorando porque não sabia como criar os dois filhos sozinha.

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Augusto sempre aparecia.

Sempre resolvia.

Sempre pagava.

E agora eram aquelas mesmas mãos que o empurravam em direção à morte.

"Eu criei vocês!"

Caio não demonstrou qualquer emoção.

"E nós somos seus únicos herdeiros."

Augusto sentiu alguma coisa dentro dele se partir.

Não era medo.

Era amor.

O último pedaço de amor que ainda tentava encontrar uma justificativa para aquilo.

Ele agarrou uma barra metálica próxima à porta.

"Vocês ainda podem parar."

Bruno hesitou.

"Caio, talvez..."

"Não!"

Caio puxou o braço do avô.

Augusto apertou a barra com toda a força.

"Bruno, olhe para mim!"

O rapaz levantou os olhos.

Augusto viu medo.

Por um segundo, acreditou que o neto desistiria.

"Você não é um assassino."

Bruno engoliu em seco.

Caio gritou:

"Ajuda!"

Bruno fechou os olhos.

E puxou.

Os dedos de Augusto começaram a escorregar.

Um.

Depois outro.

"Não façam isso!"

Caio empurrou seu peito.

A mão de Augusto se soltou.

Seu corpo desapareceu pela porta.

Por uma fração de segundo, ele ainda conseguiu ver o rosto dos dois netos.

Então caiu.

O helicóptero ficou cada vez menor sobre sua cabeça.

O vento rugia em seus ouvidos.

A terra parecia subir em sua direção.

Augusto tentou respirar.

Não conseguiu.

Quarenta anos construindo um império.

Setenta e três anos de vida.

E tudo terminaria daquela maneira.

Assassinado pelos próprios netos por causa de dinheiro.

Então uma lembrança atravessou sua mente.

O evento.

Naquela tarde, depois da inspeção das fazendas, Augusto deveria participar de uma homenagem a veteranos em Resende.

Por insistência de um antigo companheiro, levara consigo uma peça que não utilizava havia décadas.

Uma versão compacta de equipamento de salto de emergência, preparada e revisada para a cerimônia.

Caio havia rido quando viu o volume sob sua jaqueta.

Nem sequer perguntou o que era.

Augusto levou a mão ao peito.

Procurou a alça.

Não encontrou.

O chão se aproximava.

"Vamos..."

Seus dedos tocaram uma pequena argola.

Augusto puxou.

Nada.

"Não..."

Puxou novamente.

Por um segundo aterrorizante, nada aconteceu.

Então ouviu um estampido.

A cobertura se abriu violentamente acima dele.

O impacto do equipamento quase deslocou seu ombro.

Augusto gritou.

Mas parou de cair como uma pedra.

O paraquedas estava aberto.

"Meu Deus..."

Seus olhos se encheram de lágrimas.

Ainda estava vivo.

Mas o alívio durou pouco.

A montanha se aproximava rápido demais.

O equipamento não fora preparado para oferecer um pouso confortável naquele terreno.

Augusto bateu contra a encosta.

Primeiro as pernas.

Depois o ombro.

Seu corpo rolou pela terra molhada, atravessou arbustos e finalmente parou perto de um grupo de pedras.

Silêncio.

Augusto permaneceu imóvel.

Tentou respirar.

Uma dor brutal atravessou seu lado direito.

Havia sangue sobre sua sobrancelha.

A perna latejava.

O ombro parecia estar em chamas.

Mas estava vivo.

Augusto virou lentamente o rosto para o céu.

Nenhum helicóptero voltou.

Nenhum dos netos procurou saber se ele havia sobrevivido.

Eles simplesmente foram embora.

Horas depois, no Jardim Europa, Caio abriu uma garrafa de champanhe na mansão da família.

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A rolha atravessou a sala.

Bruno estava diante da enorme janela, inquieto.

"Você acha que vão encontrar o corpo?"

Caio serviu duas taças.

"Espero que não."

"E se encontrarem?"

"Foi um acidente."

Bruno virou-se.

"Um acidente?"

"O helicóptero entrou em turbulência. O vô estava perto da porta. Perdeu o equilíbrio."

Bruno permaneceu em silêncio.

Caio estendeu uma taça para ele.

"Acabou."

Bruno pegou o champanhe, mas não bebeu.

"Quanto vale a fazenda?"

Caio finalmente sorriu.

"Qual delas?"

"A de Ribeirão Preto."

"Centenas de milhões."

"E a Montenegro Agro?"

"Com as terras, armazéns, participações e imóveis?"

Caio ergueu a taça.

"Bilhões."

Bruno respirou fundo.

"Vamos vender?"

"Tudo que der."

"E a primeira fazenda do vô?"

Caio deu uma risada curta.

"Principalmente aquela."

Na Serra da Mantiqueira, Augusto conseguiu se sentar encostado em uma pedra.

Sua mão tremia.

Ele colocou os dedos no bolso interno da jaqueta.

O celular ainda estava ali.

A tela estava destruída.

Augusto apertou o botão.

Nada.

Tentou novamente.

A tela piscou.

Uma única barra de sinal apareceu.

Augusto procurou um contato.

Marcelo Almeida Siqueira.

Ligou.

Uma vez.

Nada.

Duas.

A chamada caiu.

Na terceira tentativa, alguém atendeu.

"Dr. Augusto?"

A voz de Marcelo estava tensa.

Augusto fechou os olhos.

"Marcelo."

Silêncio.

"Meu Deus. Onde o senhor está? Caio me ligou dizendo que houve um acidente. Ele disse que o senhor caiu do helicóptero."

Augusto olhou para o céu.

"Eu não caí."

Marcelo ficou em silêncio.

"Fui jogado."

"Como?"

"Caio e Bruno."

Do outro lado da linha, não houve resposta durante vários segundos.

Augusto apertou o telefone.

"Eles acham que estou morto."

"Vou chamar a polícia agora."

"Não."

"Augusto, eles tentaram matar o senhor!"

"Eu sei."

"Então precisamos agir."

"E vamos."

A voz do velho mudou.

A dor continuava ali.

Mas agora havia algo mais forte.

Frieza.

"Ative a cláusula dezessete."

Marcelo perdeu a voz.

"Tem certeza?"

Augusto olhou para o paraquedas preso entre as árvores.

"Lembra por que eu mandei colocar aquela cláusula?"

"Sim."

"Então ative."

"Augusto, isso pode deixar Caio e Bruno sem absolutamente nada."

"Esse é o objetivo."

Marcelo respirou fundo.

"Eles precisam saber que o senhor sobreviveu."

Augusto respondeu imediatamente:

"E não diga a ninguém que eu estou vivo."

"Nem para Helena?"

Augusto hesitou.

A lembrança da filha atravessou sua mente.

Se apenas três pessoas sabiam da mudança no testamento, alguém havia falado.

E ele precisava descobrir quem.

"Nem para minha filha."

Marcelo ficou em silêncio.

Depois perguntou:

"E o que fazemos agora?"

Augusto tentou se levantar.

A perna falhou.

Ele segurou uma pedra e respirou até a dor diminuir.

"Primeiro, me tire daqui sem que ninguém descubra."

"E depois?"

Augusto olhou para o horizonte.

O sol começava a desaparecer atrás das montanhas.

Marcelo demorou alguns segundos antes de fazer a pergunta que ambos haviam evitado durante anos.

"E aquela sala da mansão?"

Augusto fechou os olhos.

A sala que permanecia trancada havia quatro décadas.

A sala que nem Helena tinha permissão para abrir.

A sala que Caio e Bruno acreditavam guardar joias, dinheiro e documentos de propriedades.

Mas o que existia atrás daquela porta podia destruir tudo o que seus netos acreditavam saber sobre a fortuna Montenegro.

Augusto abriu os olhos.

"Depois de quarenta anos… chegou a hora de abri-la."

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