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《A Dor Debaixo do Cobertor Azul》Parte 10

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Teresa saiu do elevador como se ainda estivesse entrando em uma sala onde todos precisavam obedecê-la.

Rafael permaneceu diante da porta do centro obstétrico.

Não deu um passo em direção à mãe.

"Vai embora."

Teresa parou.

"Precisamos conversar."

"Minha esposa está lá dentro."

"Eu sei."

"E você não deveria estar aqui."

Teresa apertou a pasta que carregava.

"Eu vim justamente porque Mariana está lá dentro."

Rafael sentiu a raiva subir.

"Se você chegar perto dela, eu chamo a segurança."

"Não vim ver Mariana."

Teresa olhou diretamente para ele.

"Vim falar com você."

"Não temos mais nada para conversar."

"Temos."

Ela ergueu a pasta.

"Talvez a conversa mais importante da sua vida."

Rafael soltou uma risada amarga.

"Você acabou de sair de uma delegacia e veio até um hospital negociar comigo?"

"Eu vim impedir que você destrua tudo que seu pai construiu."

"Não use meu pai."

"Augusto construiu aquele grupo durante décadas."

"E tentou proteger a própria família de você."

Teresa endureceu.

"Henrique encheu sua cabeça."

"Meu pai deixou uma gravação."

Pela primeira vez, Teresa perdeu a expressão.

Foi rápido.

Mas Rafael viu.

"Que gravação?"

"Então você não sabia."

"Rafael..."

"Ele sabia quem você era."

Teresa respirou fundo.

"Seu pai estava doente."

"Não."

"Estava paranoico."

"Não fala dele assim."

"Eu fui casada com Augusto por quarenta anos."

"E ele passou os últimos meses tentando tirar o controle das suas mãos."

Teresa ficou em silêncio.

Rafael percebeu que havia acertado.

Ela estendeu a pasta.

"Leia."

"Não quero."

"Leia."

"Eu disse que não quero."

"Então vai perder tudo."

Rafael encarou a mãe.

"Você ainda acha que consegue me assustar com dinheiro?"

"Não estou falando apenas de dinheiro."

Teresa abriu a pasta.

Retirou um documento.

"Estou falando da empresa, dos imóveis, das participações, das centenas de pessoas que dependem das decisões dessa família."

"Que família?"

"Não comece."

"Que família, mãe?"

Rafael apontou para a porta do centro obstétrico.

"Minha família está ali."

Teresa fechou os olhos.

"É exatamente esse tipo de sentimentalismo que Augusto usou para colocar tudo em risco."

Ela entregou o documento.

Rafael leu as primeiras linhas.

Era um acordo.

Uma renúncia.

Henrique chegou ao corredor naquele momento.

Viu Teresa.

Parou.

"Eu avisei que ela estava vindo."

Rafael ergueu o papel.

"Você sabe o que é isso?"

Henrique aproximou-se e leu.

Sua expressão ficou séria.

"Uma renúncia a direitos patrimoniais."

"Não apenas meus."

Rafael virou outra página.

"Do João Pedro também."

Teresa interrompeu.

"De direitos que ainda estão sendo discutidos."

Henrique olhou para ela.

"Uma criança ainda não nasceu e a senhora já trouxe um documento tentando neutralizar os efeitos patrimoniais previstos pelo avô."

"Eu estou tentando impedir uma guerra."

Rafael encarou a mãe.

"Qual é a proposta?"

Teresa pareceu recuperar parte da segurança.

"Você assina."

"E depois?"

"Eu encerro tudo."

"Define tudo."

"Os advogados deixam de questionar a estrutura da gravidez."

Rafael ficou imóvel.

Henrique também.

Teresa continuou.

"Não haverá contestação sobre a posição da criança."

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"Continue."

"Eu assumo todas as despesas médicas de Mariana."

Rafael riu.

"Você acha que isso é generosidade?"

"Também retiro qualquer objeção interna à permanência dela na família."

Rafael olhou para a mãe como se não reconhecesse a mulher diante dele.

"Você está me oferecendo permissão para continuar casado com minha esposa?"

"Estou oferecendo paz."

"Não."

Ele fechou o documento.

"Você está vendendo silêncio."

Teresa perdeu a paciência.

"Eu estou tentando salvar o que restou!"

"Do quê?"

"Da família!"

Rafael deu um passo.

"Você não sabe o que essa palavra significa."

Teresa empalideceu.

"Não ouse."

"Eu passei trinta e oito anos ouvindo você dizer que tudo era pela família."

A voz dele começou a tremer.

"Você escolheu minha faculdade pela família."

"Escolheu meu trabalho pela família."

"Decidiu com quem eu podia me relacionar pela família."

Teresa tentou interromper.

"Eu fiz de você quem você é."

Rafael balançou a cabeça.

"Esse sempre foi o problema."

O elevador abriu novamente.

Carolina saiu.

Teresa virou imediatamente.

"Você."

Carolina parou.

Havia medo em seu rosto.

Mas não recuou.

"Eu precisava vir."

"Depois do que você fez?"

"Depois do que nós fizemos."

Teresa apertou a mandíbula.

"Não me coloque no mesmo nível que você."

Carolina soltou uma risada nervosa.

"Foi isso que você sempre fez."

Henrique se aproximou.

"Você trouxe os arquivos?"

"Todos."

Carolina entregou um pen drive e uma pasta.

Teresa ficou pálida.

"Carolina."

"Chega, tia."

"Você não sabe o que está fazendo."

"Eu sei exatamente."

Carolina olhou para Rafael.

"Fui eu que solicitei o acesso administrativo ao prontuário da Mariana."

Rafael permaneceu em silêncio.

"Eu também autorizei a consulta de dados que não deveriam ter saído do hospital."

Teresa apontou para ela.

"Você fez isso por conta própria."

Carolina abriu a pasta.

"Não."

Retirou várias folhas.

"Esses são os e-mails."

Teresa perdeu a cor.

"Não existem e-mails."

"Existem."

Carolina colocou os documentos nas mãos de Henrique.

"Eu guardei cópias."

Teresa deu um passo.

"Você roubou documentos internos."

"Eu me protegi."

"De mim?"

Carolina encarou a tia.

"Sim."

O corredor ficou em silêncio.

Carolina continuou.

"Porque eu sempre soube que, quando alguma coisa desse errado, você colocaria a culpa em outra pessoa."

Teresa não respondeu.

"Você fez isso com funcionários."

"Fez com diretores."

"Fez com Augusto."

A voz de Carolina falhou.

"E agora estava fazendo comigo."

Teresa tentou manter a postura.

"Você está emocionalmente desequilibrada."

Carolina sorriu com tristeza.

"Essa frase."

Rafael olhou para ela.

Carolina continuou.

"É a mesma frase que você queria usar contra Mariana."

Teresa fechou a boca.

Henrique começou a examinar os e-mails.

Um deles continha instruções claras para obter informações sobre as datas da gravidez.

Outro mencionava a necessidade de criar elementos para uma eventual contestação sucessória.

Rafael sentiu nojo.

"Você planejou isso antes mesmo de Mariana se machucar."

Teresa não respondeu.

"Você já estava tentando destruir a credibilidade dela."

"Eu estava protegendo o patrimônio."

Rafael encarou a mãe.

"De uma criança?"

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"De qualquer pessoa que pudesse usar essa criança!"

"Mariana nunca pediu nada."

"Todo mundo pede alguma coisa no final."

Uma voz feminina veio atrás deles.

"Augusto sabia que você pensava assim."

Teresa congelou.

Rafael virou.

Helena Albuquerque estava perto do elevador.

Carregava uma bolsa e outra pasta.

Teresa ficou completamente branca.

"Helena."

"Faz muito tempo."

"Você não deveria estar aqui."

Helena caminhou até Henrique.

"Durante cinco anos, eu concordei."

Entregou a pasta.

"Agora não."

Teresa olhou ao redor.

Carolina.

Helena.

Henrique.

Rafael.

Pessoas que, em momentos diferentes, haviam recuado diante dela.

Agora estavam todas ali.

"Você guardou os documentos."

Teresa falou baixo.

Helena assentiu.

"Augusto pediu."

"Eu mandei destruir."

"Eu sei."

"Você me desobedeceu."

Helena soltou uma risada triste.

"Até hoje você ainda acha que podia dar ordens para todo mundo."

Henrique abriu a pasta.

Lá estava a estrutura patrimonial assinada por Augusto.

Cópias autenticadas.

Anotações.

Registros das reuniões.

"Isso será entregue às autoridades e aos advogados responsáveis pela sucessão."

Teresa olhou para Rafael.

"Se você fizer isso, não existe volta."

Rafael segurou o acordo que a mãe trouxera.

"Você ainda não entendeu."

"Entendi perfeitamente."

"Não."

Ele olhou para o documento.

Durante toda a vida, Teresa usara a mesma ameaça.

Obedeça ou perca alguma coisa.

Dinheiro.

Status.

Família.

Aprovação.

Rafael segurou as duas extremidades do papel.

Rasgou.

Teresa arregalou os olhos.

Ele rasgou novamente.

Os pedaços caíram no chão do hospital.

"Você passou a vida inteira mandando em todos nós. Acabou."

Teresa respirava com dificuldade.

"Você vai se arrepender."

"Talvez."

Rafael se aproximou.

"Mas vai ser a primeira vez que o erro será meu."

Teresa olhou para os pedaços no chão.

"Eu sou sua mãe."

"Eu sei."

A voz dele ficou baixa.

"E foi por isso que eu levei tanto tempo para enxergar."

Teresa começou a chorar.

Uma lágrima apenas.

Rafael nunca a tinha visto assim.

Por um instante, quase sentiu pena.

Então lembrou das pernas de Mariana.

Do medo nos olhos dela.

Da mensagem de ameaça.

Do prontuário alterado.

Da medicação.

E do filho que naquele momento lutava para permanecer dentro do ventre da mãe.

"Vai embora."

Teresa não se moveu.

Do outro lado do corredor, um alarme soou.

Rafael virou imediatamente.

Uma enfermeira correu em direção ao centro obstétrico.

Depois outra.

Camila apareceu por poucos segundos na porta.

"Preciso de mais uma equipe aqui!"

Rafael perdeu a cor.

"Mariana?"

Tentou avançar.

Uma enfermeira o impediu.

"Senhor, não pode entrar."

"Minha esposa está lá!"

"Por favor, espere."

"Camila!"

A porta fechou.

Rafael ficou parado.

Todo o confronto com Teresa desapareceu de sua cabeça.

Só existia Mariana.

E João Pedro.

Ele ouviu passos rápidos do outro lado.

Vozes.

Equipamentos sendo movimentados.

"Pressão caindo."

"Monitora o bebê."

"Prepara tudo."

Rafael encostou as duas mãos na porta.

"Mariana..."

Dona Lúcia apareceu no corredor.

"O que aconteceu?"

"Eu não sei."

"Cadê minha filha?"

"Eu não sei!"

Lúcia levou a mão ao peito.

Rafael a abraçou.

Teresa continuava alguns metros atrás.

Ninguém olhava mais para ela.

Cinco minutos.

Dez.

Quinze.

Rafael já não conseguia permanecer sentado.

Caminhava de um lado para o outro.

Henrique guardou os documentos.

Carolina chorava em silêncio.

Helena mantinha as mãos juntas.

Dona Lúcia rezava baixinho.

Então a porta abriu.

Dra. Camila apareceu.

Ainda usava roupa cirúrgica.

Retirou a máscara.

Rafael correu até ela.

"Camila."

A médica respirou fundo.

"Rafael… aconteceu uma complicação."

Ele perdeu a cor.

"Mariana?"

Camila não respondeu imediatamente.

"E meu filho?"

A médica olhou para ele.

"Precisamos conversar agora."

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