O corredor do Hospital Sírio-Libanês foi isolado em poucos minutos.
Ninguém entrava. Ninguém saía sem identificação. Dois seguranças permaneceram diante do quarto de Mariana enquanto a administração entregava as imagens das câmeras à polícia.
Rafael chegou de Campinas ainda carregando a pasta que Helena Albuquerque havia lhe entregado.
Assim que saiu do elevador, viu Dona Lúcia no corredor.
"Rafael!"
Ele correu.
"Cadê Mariana?"
"Estão fazendo exames."
"E o bebê?"
"Os médicos disseram que os batimentos estabilizaram."
Rafael fechou os olhos por um instante.
"Graças a Deus."
Lúcia segurou o braço dele.
"Alguém entrou no quarto da minha filha."
"Eu sei."
"Vestido de funcionário."
"Eu sei."
"E mexeu na medicação."
Rafael olhou para a porta fechada.
A culpa que carregava desde a descoberta das feridas agora havia se transformado em outra coisa.
Raiva.
"Isso acaba hoje."
Henrique chegou poucos minutos depois.
Tinha feito parte do caminho de Campinas em outro carro e já falava ao telefone com um investigador.
Quando desligou, chamou Rafael para um canto.
"A polícia está tratando a adulteração como prioridade."
"Conseguiram identificar a pessoa?"
"Ainda não."
Henrique mostrou uma imagem ampliada.
"Mas temos uma pista."
Era o mesmo homem das câmeras.
Máscara.
Boné.
Uniforme hospitalar.
"Não dá para ver o rosto."
"Não precisamos começar pelo rosto."
Henrique ampliou outra imagem.
"O homem saiu pela escada de emergência e atravessou uma área de serviço."
"E?"
"Uma câmera externa pegou um carro saindo poucos minutos depois."
Rafael observou a placa.
"Conseguiram consultar?"
"Sim."
Henrique respirou fundo.
"O veículo pertence a uma empresa de transporte executivo."
"Quem contratou?"
"Estamos verificando."
A porta do quarto abriu.
Dra. Camila saiu.
Rafael foi imediatamente até ela.
"Como ela está?"
"Estável."
"E João Pedro?"
"Os batimentos voltaram a um padrão melhor."
Rafael soltou o ar.
"Que medicação era aquela?"
Camila ficou séria.
"Prefiro esperar o resultado completo da análise."
"Ela poderia ter perdido o bebê?"
"Rafael."
"Eu preciso saber."
Camila olhou para ele.
"Qualquer substância administrada de maneira indevida numa paciente grávida e já debilitada pode representar risco."
Rafael apertou os olhos.
"Então sim."
"Sim."
Ele virou o rosto.
Camila tocou no braço dele.
"Mas nós interrompemos rapidamente."
"Posso vê-la?"
"Por alguns minutos."
Rafael entrou.
Mariana estava acordada.
Ao vê-lo, começou a chorar.
"Você voltou."
Ele segurou a mão dela.
"Eu devia ter voltado antes."
"Você precisava encontrar Helena."
Rafael colocou a pasta sobre uma cadeira.
"Nós encontramos."
Mariana arregalou os olhos.
"E?"
"Augusto deixou tudo documentado."
Ela levou a mão à barriga.
"João Pedro?"
"Meu pai realmente deixou parte das participações para a minha linha sucessória."
Mariana fechou os olhos.
"Então era verdade."
"Sim."
Rafael se inclinou.
"Mas não pensa nisso agora."
"Como não pensar?"
Ela olhou para ele.
"Alguém entrou no meu quarto."
"Eu sei."
"Rafael, alguém se vestiu de enfermeiro para chegar perto de mim."
"Não vai acontecer de novo."
"Você não pode prometer isso."
Ele ficou em silêncio.
Mariana apertou sua mão.
"Eu estou com medo."
Rafael se aproximou.
"Eu também."
Ela pareceu surpresa.
"Mas agora eu não vou fingir que não estou."
Ele beijou a testa dela.
"E não vou deixar você enfrentar isso sozinha."
Do lado de fora, Henrique recebeu uma ligação.
A polícia havia identificado a empresa responsável pelo veículo.
Mais importante: havia conseguido o nome do motorista que solicitara o carro.
Henrique abriu o registro.
Seu semblante mudou.
Quando Rafael saiu do quarto, percebeu imediatamente.
"Encontraram?"
"Encontraram uma ligação."
"Com quem?"
Henrique mostrou o celular.
O pedido do carro havia sido feito por um número pré-pago.
Mas aquele número mantivera contato frequente, durante meses, com outro aparelho.
Rafael reconheceu o nome associado ao segundo telefone.
"Gilberto."
Henrique assentiu.
Gilberto Nunes trabalhava para Teresa havia quase quinze anos.
Era mais do que motorista.
Buscava documentos, acompanhava viagens, fazia pagamentos e resolvia qualquer tarefa que Teresa não queria entregar diretamente a funcionários da empresa.
"Ele ainda trabalha para ela?"
"Sim."
Rafael ficou pálido.
"Então minha mãe..."
"Não conclua antes das provas."
Henrique falou firme.
"Mas isso precisa ser investigado."
A polícia localizou Gilberto naquela mesma noite.
Ele negou conhecer o homem das imagens.
Negou ter solicitado qualquer transporte.
Negou saber da internação de Mariana.
Até um investigador colocar sobre a mesa os registros telefônicos.
Gilberto mudou de postura.
"Quero um advogado."
A notícia chegou a Carolina antes mesmo de Rafael.
Ela estava em seu apartamento, nos Jardins, quando recebeu a mensagem de um funcionário do grupo.
Gilberto havia sido levado para prestar depoimento.
Carolina ficou olhando para a tela.
Sentiu as mãos tremerem.
Durante meses, repetira para si mesma que Teresa queria apenas proteger o patrimônio.
Que as alterações nos registros seriam usadas numa disputa civil.
Que ninguém seria realmente machucado.
Agora uma mulher grávida quase recebera uma medicação adulterada dentro de um hospital.
Carolina abriu o notebook.
Entrou em uma pasta protegida por senha.
Centenas de mensagens antigas.
E-mails.
Autorizações.
Comprovantes.
Ordens que Teresa sempre preferira transmitir de maneira indireta.
Carolina havia guardado tudo.
Por medo.
Naquela madrugada, ligou para Rafael.
"Precisamos conversar."
"Não tenho nada para conversar com você."
"Tenho documentos."
Rafael ficou em silêncio.
"Que documentos?"
"Coisas que Teresa me mandou fazer."
"Por que só agora?"
Carolina fechou os olhos.
"Porque eu fui covarde."
Rafael não respondeu.
"Eu achei que conseguiria controlar a situação."
"E conseguiu?"
"Não."
A voz dela falhou.
"Eu não sabia que ela chegaria a esse ponto."
"Qual ponto?"
Carolina demorou.
"Até hoje eu dizia para mim mesma que sua mãe queria dinheiro."
Ela respirou fundo.
"Agora eu não sei mais do que ela é capaz."
Na manhã seguinte, Carolina chegou ao escritório de Henrique com um computador e uma pasta.
Colocou tudo sobre a mesa.
"Tem e-mails desde o começo da gravidez."
Henrique abriu o primeiro.
"Ordens da Teresa?"
"Algumas diretas."
"E outras?"
"Enviadas por funcionários."
Carolina mostrou transferências.
"Esse pagamento foi feito para uma empresa ligada ao acesso administrativo usado no hospital."
Rafael ficou tenso.
"E Gilberto?"
Carolina apontou para outro registro.
"Teresa transferia dinheiro para uma conta usada por ele para despesas particulares."
Henrique examinou.
"Isso não prova que ela ordenou a troca da medicação."
"Eu sei."
"Mas prova vínculo."
"Sim."
Carolina puxou outro documento.
"E isso prova que ela acompanhava cada consulta da Mariana."
Rafael leu.
Datas.
Horários.
Exames.
Tudo.
Sua mãe sabia mais sobre a gravidez de Mariana do que ele próprio soubera.
"Entrega tudo."
Carolina assentiu.
"Vou entregar."
Naquela tarde, Teresa Montenegro Vasconcelos recebeu uma intimação para comparecer à delegacia.
Pela primeira vez, não conseguiu resolver o problema com um telefonema.
Chegou acompanhada de dois advogados.
Os fotógrafos já esperavam do lado de fora.
Teresa tentou manter a postura.
Mas Rafael, observando as imagens pelo celular, percebeu uma coisa.
A mãe estava com medo.
Durante o depoimento, Teresa negou qualquer envolvimento com a entrada no hospital.
"Eu jamais faria mal ao meu neto."
O investigador colocou algumas mensagens diante dela.
"E esses contatos?"
"Questões familiares."
"Por que a senhora acompanhava os exames de Mariana?"
"Porque ela carrega um Vasconcelos."
"E por que sua sobrinha solicitou acesso aos registros?"
Teresa apertou os lábios.
"Pergunte a Carolina."
"Já perguntamos."
Pela primeira vez, Teresa perdeu a cor.
"O que ela disse?"
O investigador não respondeu.
Teresa percebeu.
Carolina havia falado.
Ela se recostou na cadeira.
"Vocês não entendem."
"Então explique."
Teresa olhou para o advogado.
Depois para o investigador.
"Tudo o que eu fiz foi para proteger esta família."
No hospital, Mariana começou a sentir uma pressão diferente no baixo ventre.
No início, tentou ignorar.
Depois veio novamente.
Mais forte.
Ela apertou o botão ao lado da cama.
Paula entrou.
"Está doendo?"
"Um pouco."
"Onde?"
Mariana apontou.
A enfermeira olhou o monitor.
Seu rosto ficou sério.
"Vou chamar a Dra. Camila."
Rafael estava no corredor com Henrique quando ouviu movimento dentro do quarto.
Entrou imediatamente.
Camila examinava Mariana.
"O que está acontecendo?"
"Ela está tendo contrações."
Mariana olhou para o marido.
"Não."
Camila tentou manter a calma.
"Vamos avaliar."
"Ele só tem sete meses."
"Eu sei."
Outra contração veio.
Mariana gritou.
Rafael segurou sua mão.
"Olha para mim."
"Eu não posso ter esse bebê agora."
"Respira."
"Rafael!"
Camila olhou para a equipe.
"Vamos levá-la."
"Para onde?"
"Centro obstétrico."
Rafael perdeu a cor.
"Ela vai dar à luz?"
"Eu ainda não sei."
A cama começou a ser empurrada.
Rafael caminhou ao lado.
Mariana não soltava sua mão.
"Não me deixa."
"Eu estou aqui."
Na entrada da área restrita, uma enfermeira o impediu de continuar.
"Senhor, espere aqui."
"Mariana!"
Ela olhou para trás.
A porta se fechou.
Rafael ficou sozinho no corredor.
Minutos pareciam horas.
Seu celular tocou.
Henrique.
"Rafael."
"Agora não."
"Você precisa saber."
"Mariana está no centro obstétrico."
"Teresa saiu da delegacia."
Rafael franziu a testa.
"Como?"
"Ela prestou depoimento e foi liberada enquanto a investigação continua."
"Então deixa ela ir para casa."
Henrique ficou em silêncio.
"Ela não foi para casa."
Rafael sentiu o corpo gelar.
"Como você sabe?"
"Um dos investigadores viu o carro sair."
"Para onde ela foi?"
Henrique respondeu:
"Para o hospital."
Rafael baixou o celular.
No mesmo instante, ouviu o sinal do elevador.
As portas começaram a se abrir.
Primeiro apareceu um salto escuro.
Depois uma bolsa.
Então Teresa.
Ela saiu do elevador lentamente.
Sem advogados.
Sem motorista.
Sozinha.
Os olhos dela encontraram os de Rafael.
E, em uma das mãos, Teresa carregava uma pasta de documentos.