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《A Dor Debaixo do Cobertor Azul》Parte 8

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Rafael e Henrique chegaram a Campinas pouco depois do meio-dia.

O endereço encontrado nos registros antigos levava a uma rua tranquila no Cambuí, longe dos prédios corporativos e das salas de reunião onde Helena Albuquerque passara tantos anos trabalhando para os Vasconcelos.

A casa era discreta.

Muros claros, portão fechado e nenhuma placa.

Henrique tocou o interfone.

Ninguém respondeu.

Tentou novamente.

"Helena Albuquerque?"

Silêncio.

"Meu nome é Henrique Duarte. Estou acompanhado de Rafael Vasconcelos."

Dessa vez, houve um ruído do outro lado.

Depois, uma voz feminina.

"Vão embora."

Rafael aproximou-se.

"Dona Helena?"

"Eu não tenho nada para conversar com vocês."

"Eu sou filho do Augusto."

"Eu sei quem você é."

A resposta surpreendeu Rafael.

"Então sabe por que eu vim."

"Justamente por isso estou pedindo que vá embora."

O interfone desligou.

Rafael ficou parado diante do portão.

Henrique tocou em seu braço.

"Não podemos forçar."

"Eu não vou forçar."

Rafael olhou para a câmera acima do portão.

"Mas ela precisa ver uma coisa."

Ele tirou o celular do bolso.

"Helena, se ainda estiver ouvindo, meu pai deixou uma gravação."

Nenhuma resposta.

"Ele disse seu nome."

Segundos se passaram.

Então o portão destravou.

Rafael e Henrique se entreolharam.

Entraram.

Helena os esperava na sala.

Era uma mulher de cabelos grisalhos, postura elegante e olhos atentos.

Não parecia surpresa.

Parecia assustada.

"Mostre."

Não houve cumprimento.

Rafael abriu o vídeo no celular.

"Meu pai gravou isso poucos dias antes de morrer."

Helena assistiu em silêncio.

Quando Augusto apareceu na tela, sua expressão mudou.

Ao ouvir o próprio nome, levou a mão à boca.

Rafael pausou.

"Ele disse que você guardou cópias."

Helena afastou-se.

"Seu pai não deveria ter feito isso."

"Feito o quê?"

"Colocado meu nome nessa gravação."

"Por quê?"

Helena caminhou até a janela.

"Porque eu passei cinco anos tentando esquecer essa família."

Henrique permaneceu de pé.

"Por que pediu demissão no dia seguinte à morte de Augusto?"

Ela não respondeu.

"Foi Teresa?"

Helena virou rapidamente.

"Não pronuncie esse nome dentro da minha casa."

Rafael sentiu um arrepio.

"Você tem medo dela até hoje."

"Eu tenho experiência."

"Minha esposa também tinha medo."

Helena olhou para ele.

Rafael continuou.

"Mariana está grávida de sete meses."

A mulher ficou imóvel.

"Minha mãe fez alguma coisa com ela."

"Não quero saber."

"Ela ameaçou meu filho."

Helena fechou os olhos.

"Pare."

"Mexeram no prontuário da Mariana."

"Eu disse para parar."

"Minha mãe está tentando impedir o nascimento do primeiro neto da minha linha."

Helena abriu os olhos.

O medo havia mudado.

Agora havia reconhecimento.

"Então aconteceu."

Rafael se aproximou.

"O quê?"

Helena sentou-se lentamente.

"Augusto dizia que Teresa não aceitaria."

Henrique puxou uma cadeira.

"Não aceitaria o quê?"

Helena olhou para Rafael.

"O momento em que deixasse de controlar as ações."

O silêncio tomou conta da sala.

Rafael sentou diante dela.

"Você viu o documento?"

"Vi."

"Existe mesmo?"

"Existia."

Henrique corrigiu.

"Augusto afirmou que você guardou cópias."

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Helena olhou para ele.

"Augusto confiava demais nas pessoas."

"Ele confiava em você."

A frase atingiu Helena.

Ela desviou os olhos.

"Foi por isso que quase perdi tudo."

Rafael respirou fundo.

"Me conta."

Helena demorou a começar.

"Seu pai percebeu que Teresa estava tomando decisões em nome da família sem consultar os outros acionistas."

"Que decisões?"

"Transferências, procurações, mudanças em holdings."

"Isso era ilegal?"

"Nem tudo."

Helena respondeu.

"Esse era o problema. Teresa sempre sabia exatamente até onde podia ir."

Henrique assentiu.

"E Augusto tentou limitar isso."

"Sim."

Helena olhou para Rafael.

"Ele queria distribuir poder."

"Entre quem?"

"Você. Alguns outros herdeiros."

Ela fez uma pausa.

"E os descendentes que ainda viriam."

Rafael colocou a mão sobre o joelho.

"Meu filho."

"Seu primeiro filho."

Helena levantou-se.

Foi até um pequeno armário.

Abriu.

Retirou uma chave.

"Augusto acreditava que a próxima geração precisava nascer protegida da disputa dos adultos."

Ela caminhou até outro cômodo.

Voltou carregando uma caixa metálica.

Colocou sobre a mesa.

"Depois que ele morreu, Teresa me chamou ao escritório."

Rafael observou enquanto Helena destrancava a caixa.

"O que ela queria?"

"Todos os documentos relacionados à reorganização patrimonial."

"Você entregou?"

"Sim."

Rafael se decepcionou.

Helena percebeu.

"Eu tinha acabado de ver um homem com quem trabalhei onze anos ser enterrado."

Sua voz ficou mais forte.

"E Teresa estava sentada na cadeira dele antes mesmo de as flores do velório murcharem."

Ela abriu a caixa.

"Ela me mandou destruir as cópias."

Henrique se inclinou.

"E você destruiu?"

Helena retirou uma pasta.

"Na frente dela."

Rafael franziu a testa.

"Então..."

"Eu destruí cópias."

Helena colocou a pasta sobre a mesa.

"Não os documentos que Augusto havia me pedido para proteger."

Rafael ficou imóvel.

Henrique abriu a pasta.

Dentro havia páginas antigas, assinadas e rubricadas.

"Meu Deus."

Rafael se aproximou.

"É isso?"

Henrique começou a ler.

"É uma minuta avançada de reorganização sucessória."

Helena assentiu.

"Augusto assinou diante de duas testemunhas."

"Por que isso nunca apareceu?"

"Porque a formalização final dependia de atos que seriam concluídos naquela reunião."

"A reunião que nunca aconteceu."

"Exatamente."

Henrique virou as páginas.

"Mas isso pode provar a intenção de Augusto e explicar toda a movimentação posterior."

Rafael procurou a cláusula.

"Cadê João Pedro?"

"Ele não aparece pelo nome."

Helena apontou.

"Leia."

Rafael começou.

O texto previa que, com o nascimento do primeiro descendente legítimo de sua linha, determinadas participações seriam transferidas para uma estrutura patrimonial destinada ao herdeiro.

"Então quando meu filho nascer..."

Henrique terminou.

"Ele passa a ser beneficiário."

Rafael olhou para Helena.

"E Teresa perde o controle?"

"Sobre uma parte importante."

"Quanto?"

Helena respirou fundo.

"Somando os direitos previstos aqui e as participações vinculadas, o suficiente para que ela deixe de controlar decisões sozinha."

Rafael sentiu o coração acelerar.

Tudo se encaixava.

As perguntas sobre a gravidez.

A alteração das datas.

A acusação de infidelidade.

A tentativa de criar dúvidas sobre a paternidade.

Até o medo que Teresa plantara em Mariana.

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"Ela precisava impedir que João Pedro fosse reconhecido como meu filho."

Henrique assentiu.

"Ou criar elementos para contestar os direitos dele."

Rafael fechou os olhos.

"Meu filho nem nasceu e já tentaram apagar o lugar dele na família."

Helena ficou séria.

"Não subestime Teresa."

Rafael abriu os olhos.

"Eu fiz isso por trinta e oito anos."

Pegou a pasta.

"Não vou fazer de novo."

O celular dele tocou.

Era Mariana.

Rafael sorriu pela primeira vez naquele dia.

"Oi, meu amor."

Mas não foi Mariana quem respondeu.

"Sr. Rafael?"

O sorriso desapareceu.

Era uma enfermeira.

"Sim."

"Sou Paula, da equipe da Dra. Camila."

Rafael se levantou.

"O que aconteceu?"

"Mariana apresentou uma alteração nos sinais vitais."

O sangue dele gelou.

"Ela está bem?"

"A doutora está avaliando."

"Passa para ela."

"Neste momento ela está com sua esposa."

Rafael pegou as chaves.

"Estou voltando para São Paulo."

Desligou.

Henrique guardou os documentos.

"Vamos."

Helena segurou o braço de Rafael.

"Leve isso."

Ela entregou a pasta.

"Seu pai queria que chegasse até você."

Rafael assentiu.

"Obrigado."

Quando já estava na porta, Helena falou:

"Rafael."

Ele virou.

"Não deixe Mariana sozinha."

A expressão dela fez Rafael parar.

"Por quê?"

Helena olhou para a pasta.

"Porque, se Teresa descobrir que você encontrou esses documentos, ela vai entender que está perdendo."

Rafael sentiu um frio percorrer o corpo.

"E Teresa nunca foi mais perigosa do que quando percebeu que estava perdendo o controle."

No Hospital Sírio-Libanês, Mariana tentava controlar a respiração.

Dona Lúcia estava ao lado da cama.

"Está doendo?"

"Não muito."

"Você ficou branca de repente."

"Eu só fiquei tonta."

Dra. Camila entrou rapidamente.

"Mariana, olha para mim."

Mariana obedeceu.

Camila conferiu o monitor.

Pressão.

Frequência cardíaca.

Saturação.

Depois olhou para o monitor fetal.

"O bebê está reagindo."

"Como assim?"

"Os batimentos oscilaram."

Mariana apertou a mão da mãe.

"Meu filho está bem?"

"Estou acompanhando."

Camila examinou o acesso venoso.

"Você sentiu alguma coisa diferente depois que trocaram a medicação?"

Mariana pensou.

"Um gosto estranho na boca."

"Quando?"

"Poucos minutos atrás."

Camila olhou para a enfermeira.

"Que medicação foi administrada?"

"A prescrita no prontuário."

"Me mostra."

Paula pegou o saco de solução pendurado ao lado da cama.

Camila leu o rótulo.

Parou.

Leu novamente.

"Quem trouxe isso?"

"A farmácia."

"Você conferiu?"

"Sim."

Camila virou a embalagem.

A etiqueta estava levemente desalinhada.

Ela passou o dedo pela borda.

Outra etiqueta aparecia por baixo.

"Desliga agora."

A enfermeira arregalou os olhos.

"O quê?"

"Fecha o acesso. Agora."

Paula interrompeu imediatamente a infusão.

Mariana começou a ficar nervosa.

"Doutora, o que está acontecendo?"

Camila retirou o saco.

Descolou cuidadosamente uma parte da etiqueta superior.

O nome de Mariana estava impresso nela.

Mas a embalagem original trazia outra identificação.

Camila perdeu a cor.

"Isso não deveria estar aqui."

Dona Lúcia se levantou.

"O que deram para minha filha?"

"Eu ainda não sei quanto entrou."

Camila entregou o saco à enfermeira.

"Não joga nada fora."

"Vou chamar a farmácia."

"Não."

Camila respondeu.

"Chama a segurança primeiro."

Mariana arregalou os olhos.

"Segurança?"

Camila olhou para ela.

"Alguém trocou a identificação dessa medicação."

Lúcia levou a mão à boca.

"Meu Deus."

Camila apertou o botão de chamada.

"Quero coleta de sangue agora. E ninguém entra neste quarto sem autorização."

Dois seguranças chegaram minutos depois.

A administração começou a verificar as câmeras do corredor.

Mariana ligou para Rafael.

Não conseguiu.

Ele estava na estrada.

"Minha mãe está aqui comigo."

Camila segurou sua mão.

"Você não vai ficar sozinha."

Quinze minutos depois, um funcionário da segurança entrou.

"Doutora."

"Encontraram alguma coisa?"

"Sim."

Ele segurava um tablet.

"Vinte minutos antes da paciente apresentar os sintomas, alguém entrou neste quarto."

"Enfermeiro?"

"Parecia."

O homem colocou o vídeo diante delas.

Uma pessoa de uniforme hospitalar aparecia empurrando um pequeno carrinho.

O rosto estava parcialmente coberto por máscara.

Entrou.

Permaneceu menos de dois minutos.

Depois saiu.

Paula aproximou-se.

"Eu não conheço essa pessoa."

Camila franziu a testa.

"Consegue ampliar?"

O segurança aumentou a imagem.

O crachá estava virado.

Mas havia algo estranho no uniforme.

Paula apontou.

"Esse modelo não é usado pela nossa equipe deste andar."

Mariana sentiu o corpo gelar.

O segurança avançou o vídeo.

A pessoa caminhou pelo corredor.

Entrou na escada de emergência.

E desapareceu.

Camila olhou para o saco de medicação adulterado.

Depois para Mariana.

Aquilo já não parecia uma ameaça distante.

Alguém havia conseguido entrar no hospital.

Alguém sabia exatamente em qual quarto Mariana estava.

E alguém tinha chegado perto o suficiente para mexer diretamente na medicação de uma mulher grávida.

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