Rafael não conseguia desviar os olhos da tela.
A imagem de Augusto permanecia diante dele, gravada poucos dias antes de sua morte, como se o pai tivesse esperado cinco anos para finalmente dizer aquilo que nunca conseguiu falar em vida.
Henrique permaneceu em silêncio.
Na gravação, Augusto abriu a pasta que estava sobre a mesa.
"Durante muitos anos, eu confundi paz com silêncio."
Rafael sentiu o peito apertar.
"Quando sua mãe tomava uma decisão por todos nós, eu dizia a mim mesmo que era mais fácil não discutir."
Augusto abaixou os olhos.
"Quando ela controlava seu dinheiro, suas amizades, seus relacionamentos e até suas decisões profissionais, eu dizia que ela era apenas uma mãe preocupada."
Rafael ficou imóvel.
Memórias começaram a voltar.
A faculdade que Teresa escolhera.
O primeiro apartamento que ela recusara porque considerava o bairro inadequado.
A namorada da juventude que desaparecera depois de uma conversa particular com Teresa.
Até a entrada de Rafael na empresa havia acontecido no momento exato que a mãe determinara.
Augusto continuou.
"Eu vi você aprender a pedir permissão mesmo depois de adulto."
Rafael engoliu em seco.
"Eu vi você mudar de opinião apenas para não enfrentar sua mãe."
Henrique olhou discretamente para Rafael.
Ele não reagiu.
"Mas a culpa não é apenas dela."
Augusto respirou fundo.
"Eu estava lá."
A voz ficou mais baixa.
"Eu poderia ter impedido muitas coisas."
Rafael sentiu os olhos arderem.
"Por que não impediu, pai?"
A pergunta escapou, embora soubesse que o homem na tela jamais responderia.
Augusto continuou como se pudesse ouvi-lo.
"Eu me calei porque achava que ainda teria tempo para consertar."
Ele colocou uma folha diante da câmera.
"Agora não tenho mais essa certeza."
Henrique se inclinou.
"Esse pode ser o documento que procuramos."
Rafael levantou a mão.
"Espera."
Augusto virou a folha.
"Nos últimos meses, comecei a reorganizar minha participação no grupo."
"Não quero que todo o poder permaneça concentrado nas mãos de uma única pessoa."
Rafael respirou fundo.
"Por isso criei mecanismos para proteger você e a geração que vier depois."
Augusto olhou diretamente para a câmera.
"Se um dia você tiver um filho, Rafael, eu quero que essa criança tenha liberdade."
Rafael fechou os olhos.
João Pedro.
O filho que ainda nem havia nascido já existia nos planos do avô.
"Não quero que meu neto cresça acreditando que carregar o sobrenome Vasconcelos significa obedecer a quem controla o dinheiro."
Augusto bateu levemente na pasta.
"Uma parte das minhas ações será destinada à sua linha sucessória."
Henrique pegou um bloco e começou a anotar.
"Enquanto não houver descendente, essas participações permanecerão administradas conforme a estrutura atual."
Augusto fez uma pausa.
"Mas, quando seu primeiro filho legítimo nascer, isso muda."
Rafael abriu a boca lentamente.
Carolina havia dito a verdade.
Não era uma hipótese.
Augusto havia planejado aquilo.
"Teresa sabe?"
Rafael perguntou para a tela.
A resposta veio segundos depois.
"Sua mãe sabe que eu pretendo fazer isso."
Rafael congelou.
Augusto continuou.
"Ela não conhece todos os detalhes."
Henrique levantou os olhos.
"Isso explica a busca dela pelos documentos."
"Mas sabe o suficiente para entender que perderá poder."
Augusto respirou fundo.
"Já discutimos sobre isso."
A expressão dele mudou.
"Foi uma das piores discussões do nosso casamento."
Rafael se lembrou das atas encontradas por Henrique.
Agora conseguia imaginar o que havia acontecido naquela sala.
"Teresa me acusou de destruir a família."
Augusto soltou uma risada triste.
"Para sua mãe, família e controle sempre significaram quase a mesma coisa."
Rafael abaixou a cabeça.
A frase doeu porque era verdadeira.
"Ela disse que eu estava colocando o patrimônio nas mãos de pessoas que ainda nem existiam."
Augusto olhou para a câmera.
"Eu respondi que era exatamente por isso."
"Porque alguém precisava pensar nas pessoas que ainda não tinham voz."
Rafael passou a mão pelo rosto.
Henrique permaneceu ao lado dele.
"Continue."
Rafael assentiu.
Augusto mexeu nos papéis.
"Se você estiver assistindo a isso depois de se casar, há algo que precisa entender."
"Não permita que Teresa decida quem merece fazer parte da sua vida."
Rafael sentiu as lágrimas caírem.
A imagem de Mariana escondida sob a manta azul apareceu imediatamente em sua mente.
"Não deixe que ela faça com sua esposa o que fez com tantas pessoas ao nosso redor."
Rafael se inclinou para a tela.
"O que ela fez?"
Augusto ficou alguns segundos em silêncio.
"Teresa não precisa gritar para destruir alguém."
"Ela planta medo."
"Depois planta dúvida."
"E então espera que a própria vítima se cale."
Rafael fechou os olhos.
Era exatamente o que acontecera.
Teresa fizera Mariana acreditar que Rafael não poderia protegê-la.
Depois fizera Rafael desconfiar da esposa.
Cada um havia sido colocado contra o outro.
Henrique falou baixo.
"Ela repetiu o mesmo padrão."
Rafael assentiu.
"Minha mãe não precisava separar a gente."
Ele olhou para Augusto na tela.
"Ela só precisava fazer nós dois termos medo."
A gravação continuou.
"Se um dia Teresa tentar controlar seu casamento, seus filhos ou sua casa, lembre-se de uma coisa."
"Você não deve obediência a alguém apenas porque essa pessoa é sua mãe."
Rafael levou a mão à boca.
Durante trinta e oito anos, ninguém havia dito aquilo a ele.
Muito menos Augusto.
O vídeo avançou.
"Eu deveria ter dito isso quando você tinha vinte anos."
"Deveria ter dito quando tinha trinta."
Augusto respirou fundo.
"Estou dizendo agora porque talvez seja minha última oportunidade."
Rafael não conseguiu conter o choro.
"Você sabia."
Henrique olhou para ele.
"Seu pai tentou deixar uma saída."
Rafael balançou a cabeça.
"Mas não usou enquanto estava vivo."
A frase saiu amarga.
Depois de alguns segundos, ele respirou fundo.
"Eu fiz a mesma coisa."
Henrique franziu a testa.
"Como assim?"
Rafael se levantou e caminhou até a janela.
"Mariana teve medo da minha mãe por pouco mais de um mês."
Ele olhou para as luzes da Avenida Paulista.
"Eu tive medo dela durante trinta e oito anos."
"Rafael..."
"Não medo de apanhar."
Ele enxugou o rosto.
"Medo de decepcionar."
"Medo de ser chamado de ingrato."
"Medo de perder a família."
Rafael soltou uma risada sem humor.
"E foi justamente esse medo que quase fez eu perder minha família de verdade."
Henrique não tentou consolá-lo.
Rafael voltou para a mesa.
"Eu não vou repetir o erro do meu pai."
Sentou novamente.
"Continua."
Na tela, Augusto parecia mais cansado.
Ele tomou um pouco de água.
"Existe uma parte dessa história que não posso deixar registrada aqui."
Henrique imediatamente se aproximou.
Rafael franziu a testa.
"Por quê?"
Augusto olhou para a porta do escritório, como se tivesse ouvido alguma coisa.
Depois voltou para a câmera.
"Alguns documentos não estão comigo."
"Eu tomei essa decisão porque não confio mais no arquivo da empresa."
Henrique anotou rapidamente.
"Nem em determinadas pessoas que trabalham dentro dela."
Augusto abriu uma gaveta.
Retirou um envelope.
"Se alguma coisa acontecer antes que eu conclua as mudanças, existe uma pessoa que pode provar o que estou dizendo."
Rafael se aproximou da tela.
Augusto ficou em silêncio por alguns segundos.
"Ela guardou cópias."
Henrique parou de escrever.
"Quem?"
Augusto olhou diretamente para a câmera.
"Helena Albuquerque."
Rafael franziu a testa.
Nunca tinha ouvido aquele nome dentro de casa.
Augusto continuou.
"Ela sabe onde estão os registros financeiros."
"E sabe o que Teresa tentou impedir."
Rafael olhou para Henrique.
"Você conhece?"
"Não."
Na tela, Augusto parecia prestes a continuar.
"Helena também sabe o que aconteceu na noite em que..."
A imagem travou.
Rafael se levantou.
"Não."
O vídeo avançou alguns segundos sozinho.
Depois voltou.
Sem áudio.
"Henrique."
"Espera."
Henrique tentou recuperar o arquivo.
Nada.
Uma parte estava corrompida.
Quando o vídeo retornou, Augusto já falava de outra coisa.
"Se precisar encontrá-la, não procure dentro do grupo."
"Ela não estará segura lá."
Segundos depois, a gravação terminou.
A tela ficou preta.
Rafael permaneceu olhando para o próprio reflexo.
"Na noite em que o quê?"
Henrique retirou o pendrive.
"Não sabemos."
"Então descobrimos."
Na manhã seguinte, Henrique iniciou a busca por Helena Albuquerque.
Os arquivos corporativos confirmaram que ela existia.
Helena Albuquerque Martins.
Cinquenta e seis anos atualmente.
Formada em Ciências Contábeis.
Durante onze anos, havia trabalhado no Grupo Vasconcelos.
Nos últimos quatro, ocupara o cargo de diretora financeira.
Henrique encontrou a ficha funcional.
"Olha isso."
Rafael se aproximou.
"Ela trabalhava diretamente com meu pai."
"Sim."
"E também tinha acesso às estruturas societárias."
Henrique abriu outro registro.
"Ela participou das reuniões em que Augusto tentou limitar os poderes da Teresa."
Rafael sentiu um arrepio.
"Então ela viu tudo."
"Provavelmente."
Henrique continuou pesquisando.
De repente, parou.
"O que foi?"
"A data da demissão."
Rafael leu.
Ficou imóvel.
Helena havia pedido desligamento do Grupo Vasconcelos no dia seguinte à morte de Augusto.
"Um dia."
"Sim."
"Meu pai morre e ela abandona um cargo de diretoria vinte e quatro horas depois?"
Henrique abriu o documento de desligamento.
"Sem aviso prévio."
"Sem negociação."
"E aparentemente sem receber parte das verbas naquele momento."
Rafael franziu a testa.
"Isso não faz sentido."
"Tem mais."
Henrique tentou localizar endereço e telefone.
"Depois disso, praticamente desaparece dos registros ligados ao grupo."
"Para onde ela foi?"
"Não sei."
Henrique pesquisou antigos cadastros profissionais.
Nada recente em São Paulo.
Encontrou uma empresa encerrada.
Depois um endereço antigo em Campinas.
"Talvez seja uma pista."
Rafael pegou o celular.
"Vamos até lá."
"Antes precisamos confirmar."
Henrique ampliou outro documento.
Havia uma observação digitalizada no processo de desligamento.
Uma frase manuscrita.
"Solicitação pessoal da presidência."
Rafael ficou tenso.
"Quem era a presidência naquele dia?"
Henrique já sabia.
Augusto estava morto.
A sucessão emergencial havia colocado Teresa como representante dos interesses da família.
Os dois se entreolharam.
"Minha mãe mandou Helena embora."
"É possível."
Rafael sentiu o coração acelerar.
Henrique continuou procurando.
Finalmente encontrou um antigo contato de emergência no cadastro funcional.
Ligou.
Ninguém atendeu.
Tentou novamente.
Na terceira vez, uma mulher respondeu.
"Alô?"
Henrique se apresentou.
Houve silêncio.
"Estou procurando Helena Albuquerque."
A mulher desligou.
Henrique olhou para Rafael.
"Ela conhece o nome."
O telefone tocou de volta alguns segundos depois.
Número oculto.
Henrique colocou no viva-voz.
Uma voz feminina falou rapidamente.
"Não procure Helena em São Paulo."
Henrique se levantou.
"Quem está falando?"
"Se vocês são da família Vasconcelos, deixem essa mulher em paz."
Rafael aproximou-se.
"Eu sou Rafael."
Silêncio.
Do outro lado, a respiração mudou.
"Rafael Vasconcelos?"
"Sim."
A mulher demorou alguns segundos.
"Filho do Augusto?"
"Sim."
Mais silêncio.
Então ela falou uma única frase.
"Se você quer saber por que Helena fugiu no dia seguinte à morte do seu pai, vá para Campinas."
A ligação caiu.
Henrique tentou retornar.
Número indisponível.
Rafael ficou olhando para o telefone.
Henrique abriu novamente o endereço antigo de Helena.
Campinas.
Rafael pegou a chave do carro.
"Agora nós vamos encontrá-la."